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Breve palavra no caos

Vincent van Gogh, Man Reading at the Fireside (Etten, October–November 1881  Há quem compartilhe o discurso do artista enquanto ser turbulento, vítima de virulentos sentimentos gorfados na forma de sua obra. Esses creem na arte como um processo involuntário, quase autônomo. Serão os mesmos a crer na separação entre arte e artista? Pois bem, uns preferem o mistério da criação para espelhar, quem sabe, a Criação. Não eu, em ambas as instâncias. Arranco a arte do meu peito à força, voluntariamente. E há momentos propícios para essa busca. O artista que produz apenas sob suas crises está fadado a buscar uma vida miserável para validar sua arte. Eu vivo a inversão desse sentimento, preciso estar bem para produzir - e há quanto tempo não o estou? Vai saber. Ainda tento escrever e me manter ativo, mas o tempo massacra meus planos. O Réquiem já foi lançado tem dois anos, meu Deus, e não consegui reunir uma dúzia de contos para dar sequência à minha obra.  Verdade seja dita, não tenho ...

Calor e Praia

Da série Rio Baile Funk - Favela Rap 2005-2023, de Vicent Rosenblatt  Eu queria ser o sujeito suado na pista de dança se movendo certo ao som do brega, mas era apenas um observador tímido. Havia uma profusão de pessoas invadindo o bar para participar da festa, cada vez mais corpos se amontoando no centro da sala, suando e se agitando juntos, e eu num canto espremido testemunhando aquilo com assombro e inveja, tragado para dentro daquele furacão quando fui buscar uma cerveja no primeiro bar aberto da rua. Daí fiquei, quando vi um casal se esfregando com tanta ferocidade ao som da banda local que foi preciso sentar e respirar um pouco, recuperar a compostura, deixar a cerveja gelada descer pela garganta seca, num momento em que minha boca já tinha um gosto estranho de tanto beber ao longo do dia, espécie de saturação do álcool no corpo. O certo mesmo era ter tomado uma água, e nesse caso não teria parado no bar para ver a festa de brega e forró, só o destino foi me amarrar ali, ...

Garota bonita na noite de São Pedro

Hoje daremos uma volta pelo meu bairro. Peço que me acompanhem nessa caminhada.   Tem uma moça bonita na lanchonete onde gosto de ir perto de casa. Talvez, se você lá fosse, não a acharia tão bonita assim. Não há problema, não é tanto uma história sobre ela e seu sorriso branco de dentes pequenos, temos mais caminhos para seguir daqui.  The Bar (Le Bouchon), c.1879 - Edouard Manet Ainda assim, eu gosto de ir nessa lanchonete, pedir uma cerveja, e agradecer à moça bonita com um sorriso e um "Muito obrigado". Eu aprendi com a internet, numa dessas tantas publicações que se perdem pela rapidez do algoritmo, que quando você sorri para uma pessoa ela costuma sorrir involuntariamente de volta. Desde então, toda oportunidade que tenho, quando me lembro disso e estou em um desses meus poucos dias excepcionalmente radiantes, faço tudo com um sorriso no rosto para ver espelhada essa mesma expressão. É uma delícia! E quando chega minha cerveja e eu digo "muito obrigado!" com u...

Já morreu o silêncio das coisas

 Eu venho almoçando, na maior parte dos dias, em um restaurante na virada da esquina da entrada de um bairro que dá caminho a um outro bairro, desses de uma suposta elite financeira. Esse caminho, e esse restaurante, estão abraçados por um bocado de mata fronteiriça de um lado, e uma represa aos fundos. Era região rural, afastada de tudo, e sem valor nenhum para os juizforanos, até a especulação imobiliária botar seus olhos nesses grandes lotes rurais de famílias tradicionais e, verdade crua seja dita, despreparadas para lidar com o verdadeiro valor da terra.  Dinner Party (1935) - Oskar Schlemmer (German, 1888-1943) É nesse entremundo aonde vou almoçar. E esse restaurante é meio barulhento, meio muvucado, com um entra-e-sai sacodindo o cheiro de comida sendo preparada na cozinha logo ali atrás da greta por onde passam os pratos prontos. Eu sento, peço sempre carne de boi, salada, uma batata frita ou outro acompanhamento para fingir saúde, e insisto que enviem menos arroz...

Crônicas de chuva na Cidade Alta

Caminho pela noite tensa da cidade. Vem a expectativa da chuva, acelero meus passos para não me afogar amargo em ofensas ao céu. Determinado, subo para casa em ritmo acelerado, mal vejo ao meu redor. Enxergo apenas a rua, a calçada, e vez ou outra o céu nublado. Venta forte, vento frio, é noite quente. O verão traz muita expectativa. Sobem os graus celsius e me motivo, o mundo fica lindo, as chances de tudo aumentam em milagres probabilísticos, torna-se convidativo errar de novo, amar o mundo e a todos, simpatizo com a existência. Mas é tudo lindo enquanto não existe tensão e medo de chuva, sob o céu limpo eu acredito melhor. Subindo da rua que corta o Monte Sinai, hospital que cessou a vida de um avô e uma avó, enxergo um horizonte brilhante na forma de um conjunto de prédios em tamanho ascendente. Young Man and Old Woman - Jacob Matham (Dutch, 1571-1631) Então me lembro. Quando pequeno, na época em que toda rua me era um mistério por não saber para onde levavam os caminhos da cid...

Joãodisseia #01 São Paulo foi um sonho

 Este é um texto de 2018 ou 2019, não me recordo ao certo. Trata de uma viagem feita às pressas para São Paulo, de maneira espontânea. O recorte em dias prometia uma continuação que nunca veio, e hoje as memórias desses dias já são nebulosas demais para que eu possa retratá-las fidedignamente. Inicia, contudo, uma sequência de textos que planejo escrever neste blog a respeito de viagens e jornadas para fora de meu castelo provinciano. São Paulo (1924) - Tarsila do Amaral Dez da noite e a rodoviária vazia. Praticamente. Entrei no ônibus e passei os primeiros minutos me ajeitando desconfortável num assento miúdo ao lado de uma mulher que, à primeira vista, me pareceu antipática. A viagem começou com o sacolejar básico do veículo pelas ruas da cidade até estabilizarmo-nos na estrada. Pus meus fones de ouvido e comecei meu processo de adormecimento, não seria uma jornada curta. Oito horas até São Paulo – uma jornada, uma aventura. Eu merecia uma nova experiência.  Olhei pela frest...

Joãozinho e o cachorro no bairro São Pedro

Neapolitan boy and dog. Study for The Neapolitan way of life (c. 1839) - Wilhelm Marstrand (Danish, 1810-1873) Eu moro neste bairro desde que me entendo por gente. Aqui, passei minha vida quase toda. Só agora, com os dígitos dos meus anos beirando a soma de 10, que comecei a entender minha realidade provinciana. Quando criança, era fácil imaginar meu bairro como um imenso reino onde eu imperava imaginativamente, um lugar por onde carros passavam pouco e a paz tranquila de uma região de velhos e bêbados salpicada por antigas famílias dava seu charme à região. Não é só isso meu bairro São Pedro, minha pátria querida. Há mais aqui, e hoje o mais que há é o mais das pessoas. Encheram minha paz de prédios e expulsaram a tranquilidade com o concreto e os estudantes. Malditos universitários, condenados estejam todos a uma graduação eterna.  Este meu pequeno país tem suas histórias, e eu como seu morador e monarca imaginário, na inocência juvenil de acreditar no mundo como extensão dos meu...

Madrugada Cervical

  Ninth Avenue, Saturday night market (1890) - William Allen Rogers (American, 1854-1931) Meu amigo Paulsen é para mim uma dessas lâmpadas de varanda que, acesas na noite, alumiam muita coisa. Também atrai insetos e uns bichanos inconvenientes perscrutando no escuro um sentido mais forte que o da luz das estrelas, mas essas interrupções lógicas na forma de bobeiras e palavreados ignorantes reservamos justamente à claudicante forma como construímos sentido e desvendamos a vida nessas conversas tão exóticas aos observadores externos.  Dito isto, feliz aniversário, meu camarada, que tantos desgostos mais nos atinjam e inspirem nossas lamúrias.  Vamos à história biográfica de hoje, na falta de uma ficção que nos guie para lugares melhores. Já informei antes, e com muito mais vigor, sobre a tragédia ortopédica que me acomete. Duas hérnias futuras, já presentes no meu passado ambíguo de jovem-velho, causam dores terríveis e acorrentam minha vida a temores desagradáveis, pesados...

Exercícios Criativos #10

  View of the Sea – Boat at the Sea (around 1850) - Jules Louis Philippe Coignet Ao mar Do silêncio que anseio A tensão na expectativa Com a orla parada Vão mortas as ondas Na brisa oscilante, o frio Das tábuas no cais da ilha Só rangem os ossos E voa a linha ao mar Num desses acidentes fortuitos do destino, providos pela incessante busca por novos ares, desviamos na estrada rodeada de mapa até cairmos na Cananéia, de referência histórica. Pequena cidade, bares à beira mar na orla curta que liga à Ilha Comprida; não se ouvia o som do mar, e poucas ondas batiam contra o cais e a calçada. Um vento frio soprava sobre nossos corpos cansados das longas horas na estrada. Para dentro do mar, barcos flutuavam na escuridão negra, impenetrável, como corpos estelares vagando no abismo do espaço - não há diferença entre o cosmos e a escuridão salgada do mar, indiferentes e letais.

Conto - Amores desvividos

Na falta de amores que me preencham o coração, invento um, por querer sangrar uns sentimentos inverossímeis. Texto motivado pela história verídica de meu amigo João Paulsen. A Seated Couple, Embracing (ca. 1865) - Sir Edward Coley Burne-Jones Vivi meus dias com uma sombra maculando minha alma, no desprazer do desfazer de amores, quando por minha vontade ou da outra, sempre parte presente acumulada em mim, profetizava nossos destinos. "Depois que me deixar, vai achar alguém que te entenda melhor", eu disse a uma delas, na vã tentativa de fazer meu desinteresse soar mais propositado, como se fosse um benfeitor a cortar nosso nó e romper a corda que nos tencionava. Dito e feito, um ano depois vi-a noiva de um sujeito que pelas histórias que me chegavam ocasionalmente, cantadas por pássaros azuis virtuais, mostravam a verdade de minhas quimeras passadas. Foram vários os casos assim, sempre nas últimas conversas, sempre nas partidas finais, ainda que despedidas possam ser morosas,...

Exercícios Criativos #9

Amores sórdidos   Vivo com o coração fustigado: Meus amores todos me assombram Vejo-me sempre a exorcizá-los, É nessa maldição que voltam Mas há sempre anjos que acalentam Nos breves pares que me acomodam E os demônios assim sossegam Em morada tranquila comemoram "Pois a sina do peito é esperar a flecha E a benção vem a fechar as chagas" Deus deu a maior batalha aos poetas Alvos solitários a pensar palavras  E tantos fantasmas habitam meu peito Que visto na blusa um cemitério  Enxergam de longe, qualquer, um sujeito Fazendo rezas, pedindo esotérico: - Diabo, livre-me assim de sua mácula, Não me deixe amar outra vez. Tão somente Me empreste tua face, vil crápula, E me deixe assombrar essa gente.

Quatro histórias contadas no palco de um louco

Merry wives of Windsor; Letter for letter Act II Scene I (1900) - Byam Shaw (English, 1872 - 1919)  Dei por mim querendo escrever alguma coisa, não sem razão. Para começo de conversa, sou um rato abominável e competitivo. Mediante ressurgimento do vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria Contos, do longínquo ano de 2019, João Gabriel Paulsen, sob uma citação muito auspiciosa - palavra que roubei dos mantras budistas de algumas terças-feiras no centro de Juiz de Fora - nomeando-me irritável e saudoso em relação ao meu querido Pergaminho Virtual, vi-me na necessidade de justificar meu abominável gosto por histórias aqui mais uma vez. Talvez com uma outra história que, por fim, seja mais uma resolução irônica que real explicação.  Há outra razão para voltar a escrever neste blog, é claro. Duas talvez, mas conectadas na raiz da coisa. Começa que eu sou um sujeito subserviente às vozes da minha cabeça e não é sem razão que doido ame um palco. Para dar vazão a todo esse...

Exercícios Criativos #8

Destiny (Dedicated to my first wife), 1918 - Fritz Baumann SEM TÍTULO  O destino me enlouquece Pelas razões que se imagina Pressupõe-se vasto, mestre, Mas só me contém e cativa  Destino não é futuro ou direção  É passado - e passados os dias Percebe-se fácil como é indistinto O som do relógio e o som do grilhão  Destino é tempo, é ter que escolher Mas não importa opção ou resposta Visto a forma da maldita quimera O Destino cravado no verso a ler Implica em rima que não se desdobra Resulta na morte da besta fera

Exercícios Criativos #7

Prece #1 Vida! Dê-me novamente Por pouco tempo a juventude... Da aurora ao fim poente Dê-me impulsos e inquietude Porque nem tão velho sou Mas o mundo morre rápido  E como corre tudo hoje! Assim, desejo e me sacrifico Que eu não tenha mais amarras! Uma última vez um solstício  E disso me transforme em lágrimas Pois que me desçam à cova Morto depois de tão vivo Mas não sobrevindo às horas

Exercícios Criativos #6

Sem título  Me vem o verso como vai o homem Ao reino de Deus Mais desagradado com o resultado Que feliz pelo convite É o mesmo caso de Odisseu que, coitado!, Cai em Nausicaa sem pedir um novo amor Mas ilhas aos náufragos são soluções E a rima, só eu sei, me escapa desbravadora Me vem o verso como vai aos céus O colibri Rápido, esbaforido, sempre em busca De um pouso, néctar e água Rápido no voo brilha irisdecente uma cena Parte o pássaro Morre o homem Retorna Odisseu a sua casa Ficam eu e meu verso já cansados dessa dança