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Joãozinho e o cachorro no bairro São Pedro

Neapolitan boy and dog. Study for The Neapolitan way of life (c. 1839) - Wilhelm Marstrand (Danish, 1810-1873)

Eu moro neste bairro desde que me entendo por gente. Aqui, passei minha vida quase toda. Só agora, com os dígitos dos meus anos beirando a soma de 10, que comecei a entender minha realidade provinciana. Quando criança, era fácil imaginar meu bairro como um imenso reino onde eu imperava imaginativamente, um lugar por onde carros passavam pouco e a paz tranquila de uma região de velhos e bêbados salpicada por antigas famílias dava seu charme à região. Não é só isso meu bairro São Pedro, minha pátria querida. Há mais aqui, e hoje o mais que há é o mais das pessoas. Encheram minha paz de prédios e expulsaram a tranquilidade com o concreto e os estudantes. Malditos universitários, condenados estejam todos a uma graduação eterna. 

Este meu pequeno país tem suas histórias, e eu como seu morador e monarca imaginário, na inocência juvenil de acreditar no mundo como extensão dos meus desejos, testemunhei algumas. Certas situações foram cômicas, outras, trágicas, umas ficaram no limiar entre as duas análises aristotélicas sobre a poética grega dos teatros, aqui desassociadas de um aval crítico sobre a superioridade da lágrima em relação ao sorriso. 

Vai por fim andando um pequeno João Pedro, mãos dadas com sua mãe, pela calçada do bairro, em direção à casa da avó. Esse Joãozinho de cabelos dourados e personalidade sensibilizada, curiosa, era um rapazola muito dedicado à leitura. Pobre coitado, virou escritor. Fim horrível para uma vida tão radiante, cachos dourados tão exuberantes e elogiados por onde passasse hoje são apenas memória e palavra. Dá-lhe João, talvez não Joãozinho, pois essa figura, a do Joãozinho, estava sempre nas piadas mais maldosas do vernáculo popular. "Joãozinho perguntou para a professora se todo pinto dava em ovo...", "Joãozinho chamou Teresinha para brincar de médico e perguntou...", esse meu xará aprontava todas enquanto eu me metia debaixo das cobertas para ler até meus olhos fecharem de cansaço no final da noite. 

Se um Joãozinho era esse das brincadeiras maldosas e do espírito rebelde, eu tinha medo da chuva e rezava para os céus pararem tempestades. Se um Joãozinho puxava a saia das meninas e tomava suspensão na escola por falar palavrão, eu tinha medo do escuro e me escondia debaixo da mesa num apagão. 

Ia então esse pequeno eu rememorado e minha mãe, em costumeira posição de mãe nessas histórias, levando-me pelo braço para que não me perdesse nas ruas ou fosse sequestrado. Verdade seja dita, bonitinho como era, não sei até hoje como não fui vítima de rapto. Enfim, andávamos, e dali da frente da escola onde alguns anos depois estudei vi correr outra criança e seu cachorro.

Era um cachorro magrinho, pequeno, desses que se leva em bolsa ou carrega debaixo do braço. Pincher, Chihuahua, ou outra dessas marcas canídeas populares no começo dos anos 2000 para além do Poodle. Nunca fui sujeito de amar bicho babão igual cachorro, sempre achei uma perturbação, atrapalhavam minha leitura e eram por demais descomportados. Dá que esse cãozinho infeliz, um herói grego nessa nossa tragédia, decide cruzar a rua no pouco tempo em que o asfalto era ocupado pelos carros. 

Passa um, "Sai daí, bichano!", grita o menino, e o cão escapa. "Saí daí, bichano!", grita o menino,  o animal escapa de outro. 

É justo quando passa o ônibus que a voz do jovem some por baixo do barulho do motor e do freio. PSSSSSSS, TCCHHHHHHH. "Bichano, Bichano!". O ônibus para. O motorista viu o cãozinho correr para debaixo das rodas. Uma aglomeração começa a se formar ao redor. Estão todos curiosos. 

Mas eu tenho outra pergunta. "Mamãe, o cãozinho tá bem?" Os olhos da minha mãe estava cheio de lágrimas. Ouvimos juntos um ganido horrível e o som de algo se quebrando por baixo das rodas. "Mamãe, o cãozinho tá vivo?" E as mãos jovens da minha mãe apertavam as minhas, tentando me levar para longe dali. Naquela época, ela não tinha sequer a minha idade hoje, quando escrevo essa memória. "Tá sim, filho, eles vão tirar ele dali". "Vamos esperar eles tirarem ele dali então, mãe, eu quero ver se ele tá bem". Mas eu era puxado para longe dali, afastado da cena que se formava, o garoto jovem ajoelhado debaixo das rodas do ônibus buscando seu animal, os adultos em choque tentando auxiliá-lo, o motorista parado com sua blusa azul de uniforme destacando-o entre os outros - e coçando a cabeça com um misto de culpa e falta de jeito. "Mamãe, deixa eu ver se o cachorrinho tá bem...", mas fui puxado para longe, lágrimas nos olhos, e um aperto no peito horrível de quem entende ser testemunha de algo ainda incompreensível. Por sorte, minha mãe me tirou dali. Da morte, só conheci o guincho e o som dos pequenos ossos se quebrando, não vi sua face horrível, como o pobre dono do cão.

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