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Outro post de aniversário para o feliz João Pedro cujo livro Réquiem Para Um Amor está prestes a encerrar suas vendas
Recentemente, fiz vinte e sete anos. Parabéns para mim. Enquanto luto contra meu humor perverso e a vontade de me integrar ao clube de amigos Kurt Cobain, Janis Joplin, Jimy Hendrix e outros viciados em heroína cuja vida escandalizaria a opinião de seus fãs cinquentões ainda apegados às memórias juvenis, decidi que seria um momento interessante para falar um pouco mais sobre o Réquiem.
Esta é uma publicação, inclusive, que faz muito mais sentido se você já leu ou vai começar a ler o livro. Sua última chance de comprá-lo, inclusive, até que uma editora decida relançá-lo, já que dificilmente farei outras unidades tão cedo.
Enfim, vamos aqui com algumas reflexões sobre meu livro de contos Réquiem Para Um Amor (ausentes do material final que já conta um pouco sobre o processo de criação do livro).
O Réquiem foi concebido em período similar ao álbum do meu amigo e também fundador do Pergaminho Virtual, Set. Foi ele quem me instigou a continuar o desenvolvimento da coletânea de contos quando eu já havia abandonado o projeto e pensava em qual seria a próxima empreitada artística. Naqueles tempos, eu era um cão de um truque só e me apegava à literatura, mas o diabo não me quis assim e hoje me fragmento entre projetos e mídias diversos.
Enfim, não demos corda demais ao louco ou ele se enforca.
Quando eu comecei a escrever aqueles contos, tinha por volta dos 17 anos. Fazem dez anos (10, d e z, D E Z, uma dezena de anos, três mil seiscentos e cinquenta e dois ou três dias) que a primeira história foi oficialmente publicada: A Garota Que Caiu do Céu. Esse primeiro conto nasceu de um pequeno sonho-pesadelo que tive, como muitos outros que viria ter ao longo da vida cujo conteúdo não é necessariamente assustador ou perturbador e apenas me deprime. Motivado pelo sonho, e já dono de um pequeno blog maluco no qual eu por vezes incorporava um coala insone, publiquei essa história e tive feedbacks animados. Até hoje, essa é uma das histórias favoritas de muitos no livro. Não sem razão, há um bom trabalho naquelas poucas páginas, uma virtude romanesca juvenil refrescante. Não gostaria de voltar a escrever daquela forma hoje, mas admiro o local de onde vinha a vontade.
Eu me perco aqui um pouco.
Quando o Réquiem foi primeiro abandonado, as duas primeiras histórias de Dante e Ernesto estavam prontas. Os nomes, inclusive, estavam invertidos. Dante se chamava Ernesto, Ernesto se chamava Dante, eu pretendia alterar a relação entre os personagens de forma irônica, projeto que se mostrou despropositado quando vi que ironia não casava bem com a melancolia daquela narrativa.
Já me disseram que o Réquiem é na verdade uma pequena novela disfarçada de livro de contos (não me lembro se foi meu amigo escritor Ulisses Belleigoli ou outra pessoa), eu concordo mais com a afirmação hoje em dia. Explicar que esse livro de contos possui sete contos centrados nos mesmos personagens, distanciados por histórias diversas que contam paralelamente o que se passa na narrativa central de maneira alegórica, enquanto ao mesmo tempo todo o livro trabalha a perspectiva de que amor é uma ideia universal mas uma experiência única não é fácil. Na maior parte das vezes, eu me perco no meio dessa imensa sentença que logo atrás escrevi.
Mas é isto o Réquiem, uma obra difusa, espalhada por mais de cinco anos, e uma série de acontecimentos e mudanças na minha vida. Já houve um projeto de mini documentário sobre o processo criativo do livro, cujos arquivos foram apagados nas mudanças entre computadores que fiz, junto da desilusão final com o Pergaminho Virtual. Existiu um ensaio de fotos lindo produzido pelo João Paulo Brum que uso até hoje em muitas coisas pois ainda tenho vistosos e deliciosos cachos castanhos nas fotos. Existia a ideia de uma produção de pôsteres e ilustrações internas para o livro - conceitos iniciais esses que estão perdidos pelos meus cadernos em casa.
Darei vazão à vontade de conversar sozinho hoje que me atormenta, portanto, continue por sua conta e risco.
Algumas histórias no Réquiem nasceram de experimentos literários, exercícios mesmo, que eu fazia. Eu tinha algumas metas e práticas quando comecei a escrever: clicava diversas vezes no ícone do Microsoft Word e, após alguns segundos, parava. Depois, via quantas abas estavam abertas e precisava, dentro de um mesmo dia, terminar todas aquelas possíveis histórias esperando nas folhas em branco. Nem tudo era bom. Na verdade, a maior parte era ruim. E a falta de registros da internet hoje me poupa de alguns embaraços com textos que considero vergonhosos.
Essa experimentação me ajudou a buscar por um estilo que fosse meu, por temas que me encantassem dentro da escrita. Foi com essas publicações recentes no que já era o Pergaminho Virtual (e o velho blog já descansava em bytes) que comecei a delimitar aquele mundo melancólico e vazio das ruas deprimentes de uma cidade sem nome que muito se assemelhava a Juiz de Fora. O principal ponto dos sete Réquiens é o contraste da melancolia e idealismo do Dante com o niilismo e a falta de significado inato à vida. Enquanto o Dante busca um amor que justifique sua existência porque ele quer acreditar nisso, Ernesto e seus amigos mostram que o amor é acaso, múltiplo e inconstante. Há uma segunda mensagem principal dentro do livro de que o amor real é defeituoso e quebrado, mas nem por isso menos digno.
Simultaneamente, o personagem do Ernesto passa por uma jornada oposta, de abandono completo do niilismo sobre a crença nas relações humanas, para um momento de confiança numa relação equilibrada. O sujeito que antes apenas se relacionava casualmente com mulheres jovens ou que mantinha relações com mulheres mais velhas eventualmente encontra um par que corresponde às suas ânsias não atendidas. A convivência entre os dois amigos os puxa de extremos e os leva a pontos mais equilibrados, ainda que não cheguem no mesmo lugar.
O Sabadão, por outro lado, existe como uma potência eufórica e dionísica, mas não hedonista, e nunca destrutiva. O tema de amor ao redor do Sabadão é o amor à vida e aos amigos, um apego fraternal a todos e todas ao seu redor, mesmo que isso se expresse de maneira caótica e conturbada ao longo das histórias. Esse sujeito sem passado, fragmentado no presente em recortes situacionais de convivência social limitada aos espaços de prazer, e cujo futuro parece não existir dois segundos à frente de si, representa mais a busca pela liberdade negada à Dante por sua própria consciência e a quebra da performance de equilíbrio proposta por Ernesto.
Em resumo, os três personagens se completam, e a razão para isso não poderia ser mais simples: os três são, em grande parte, partes minhas. Da idolatria juvenil romântica a grandes paixões, passando pelo cinismo sobre relações humanas e parando na vontade de abraçar o mundo um engradado de cerveja de cada vez, os três fazem conexões com fases e filosofias de vida.
O Réquiem é um livro melancólico, não dá para negar isso. Mas existe mais por trás das páginas, eu juro.
Outro dia volto com mais histórias sobre minhas histórias.
