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| Padaria Mar e Terra - Aquivo/Coleção: Pedro Corrêa do Lago - Autor: Augusto Mata. 1923 |
Isso muito provavelmente não ocorreu dessa forma, mas assim me foi contado.
Lá pelo meio do mês de Março, uma padaria local na minha cidade, pela manhã, estava cheia de clientes. Fazia um calor desnecessário para sete horas e trinta e quatro minutos conforme horário de Brasília. Uma televisão encaixada no teto, pendurada tal qual morcego, dava as notícias pelo jornal local – e por via de regra todo mundo ignorava o ruído do aparelho.
Um senhor de sessenta e três anos, magro, portador de artrite, gastrite e uma não diagnosticada alergia a pólen, chegou à padaria para seu desjejum. Ele não fazia parte do corpo de frequentadores assíduos do local. Por isso, demorou alguns minutos até localizar uma cadeira livre, em uma mesa livre, onde não precisasse dividir espaço com um desconhecido. Há lugares assim, muitos, em que você come com gente de fora do seu apreço; é quase uma selvageria esse hábito, me disse quem me contou essa história, essa coisa de compartir mesa, “que se reserve a universitários e outra gente de baixa estima social”, me foi falado. Pois bem, ouvi assim que o senhor se sentou em seu canto, pediu seu café, e deu início à sua pessoal rotina matinal. Do bolso da calça tirou uma revista de caça-palavras, posse muito apreciada cuja origem pode ser rastreada a uma banca em frente a uma loja do jogo do bicho algumas ruas à frente no bairro – a mesma banca de jornal em frente a uma loja do jogo do bicho que existe em todos os bairros, simultaneamente, em sobreposição quântica.
O café chegou e foi largado à mesa para esfriar um pouco, visto que café de padaria é amargo e queima os beiços, quando em copo americano ou xícara, a menos que se adicione um leite frio para o pingado.
Tudo isso é muito importante, eu também me perguntei o porquê de tantos detalhes, não se preocupe.
Depois de pôr umas palavras no jogo da página catorze, o senhor, que por preservação de anonimidade judicial, aqui chamaremos de Sebastião, sinalizou ao atendente do balcão, quando já eram sete e quarenta e dois. Esse sinal foi registrado pela câmera de vídeo-segurança do estabelecimento. Vê-se um braço magro e muito determinado erguer-se monumentalmente rígido para se destacar entre os muito clientes.
“Bom dia, me vê um pão com manteiga.”, “Não tem pão com manteiga, tem salgado só.”, “Acabou o pão?”, “Não tem pão.”, “Como assim não tem pão? Acabou?”, “Não, não tem pão, a gente não faz pão.”, “Como assim não faz pão?”, “A gente não faz pão.”, “Aqui é lanchonete?”, “Não, é padaria.”, “Que padaria não tem pão?”, “Senhor, a gente não trabalha com pão. Tem cigarrete, enroladinho, pastel gaúcho assado, pastel gaúcho frito, coxinha, e tem também o jambrolhão.”, “Que padaria não faz pão, meu Deus?”, “Olha, senhor, não fala o nome do Senhor em vão não.”, “Então me vê um pão aí.”, “Não tem pão aqui.”, “Oh, camarada, eu tô querendo pedir logo, você vai ficar tumultuando?” – e quem falava por último era um sujeito grande, amarrado a uma pequena camiseta com o logotipo de uma firma de instalação de ar-condicionado. O logotipo estava deformado no peitoral inchado e com grande facilidade era possível identificar cada fibra individual da costura, elas todas esticadas, tensionadas, a ponto de se romper diante de um movimento mais extremo do homenzarrão. Sebastião jogou seus olhos de um lado para o outro da padaria e percebeu que os clientes regulares encaravam-no de volta, insatisfeitos com a quebra da rotina, com a ousadia do sujeito. “Você vai querer o quê, Fábio?”, “Vê um pastel gaúcho agora.”, “Mas é claro.”, “Ninguém acha esquisito padaria que não faz pão, não? Não é possível!”, “Oh, irmão, fala baixo aí, tá ficando maluco?”, um outro assíduo entrou no bate-boca, esse era mais jovem, de compleição delgada, umas tatuagens nos braços. A filmagem analisada pela perícia mostra como ele se levanta assim que fala, fica na ponta dos pés para parecer mais alto, e apoia as mãos na mesa para dar mais estabilidade ao corpo. “Eu só quero um pão com manteiga, porra.”, “Olha aqui, irmão, respeita o trabalhador, você é claramente aposentado, mas tá todo mundo indo pro trabalho e você tumultuando, respeita o trabalho dos outros.”, “Eu tô desrespeitando quem pedindo pão?”, “Você tá aí levantando a voz pro balconista, pô.”, “Tá todo mundo falando alto, como que eu vou pedir meu pão?”, “Não tem pão aqui, senhor…”, “Que padaria não tem pão, caralho?”, “Aí, comédia, olha o palavreado, tem cidadão de Deus aqui.”, “Não usa o nome do Senhor em vão, não, padrinho.”, “Eu nem sei o nome do cara.”, “Tô falando do Pai no Céu.”, “Alguém me explica o porquê de não ter pão aqui?”, “A gente não faz pão, não, senhor.”, “Isso é um absurdo! Que padaria não faz pão?”, e quem gritava por último era um novo cliente, também novo, pego no meio da balbúrdia com uma garrafa pequena de refrigerante em mãos.
A situação cresceu, inflou, e feito bolha de sabão ou bolha financeira, estava para se romper e deixar vítimas. Dito e feito. Quando os assíduos se viraram para mandar o recém-chegado calar a boca, uma excursão de trabalhadores da prefeitura entrou na padaria e preencheu as trincheiras ao lado de Sebastião. “Ei, vê um pão com manteiga pra cada aqui.”, pediu o gerente de setor, alheio às caras feias que pensou ser derivado do calor matinal e do café amargo. “Não tem pão aqui.”, “Como assim não tem pão?”, “É isso que eu quero saber também!”. Desprovido de mais sensibilidades argumentativas, Fábio tomou a única decisão restante. Com um gesto elegante de mãos, arremessou uma cadeira de metal no gerente de setor da prefeitura. O vídeo do acontecimento mostra tudo com clareza, e por alguma razão ainda não identificada pela perícia técnica, a qualidade da imagem até aumenta nesse momento para dar destaque ao belo arco parabólico da cadeira de metal no ar, suas pernas finas e elegantes girando sobre o centro de gravidade do objeto, antes de atingir em cheio a caixa dos peitos do funcionário público. “Não tem pão, porra!”, “Que padaria não tem pão, porra?”, “Aqui não tem pão, uai.”, “Então não é padaria, caralho, é lanchonete.”, “Que lanchonete abre de manhã, seu burro?”, “Essa daqui, aparentemente.”, “Aqui é padaria, animal, tem café.”, “E lanchonete não pode ter café?”, “Você já viu lanchonete com café?”, “E você já viu padaria sem pão, seu filho da puta?”, e diante de declarações tão simples e amistosas, a padaria virou um campo de guerra.
Aqui vale ressaltar, com certo ceticismo, que parte do relato oral se confirma com o vídeo ao qual tive acesso depois de entrar em um grupo de mensagens secreto em que policiais passavam a jornalistas algumas informações privilegiadas. Não sou policial nem jornalista – e também descobri mais haver enxeridos no grupo que profissionais de um dos dois lados – então só pude apurar parte dos fatos comparando o que me contaram com o vídeo visto, e uns dois ou três boatos posteriores. Dizem que o Fábio já tinha problema com esse funcionário da prefeitura depois de uma instalação de ar-condicionado problemática em licitação, outros dizem que o Fábio era amante da mulher desse sujeito, e os dois se estranhavam tal qual gatos no telhado noturno na disputa por um coração volúvel (a história dessa mulher, quem sabe, eu conto outro dia). Fato é que na queda do gerente de setor a maior parte dos outros funcionários pensou primeiro em quem ficaria com o cargo dele antes de partir para cima do homenzarrão agora despido de camiseta. Deu polícia e deu jornal antes das oito e meia da manhã, e a coisa só se acalmou quando duas freiras entraram na padaria e uma delas, já aos oitenta anos, desmaiou com tamanha violência.
O sujeito que me fofocou essa brigalhada toda, não vou dizer quem foi, disse que o vídeo é interrompido na metade da confusão porque acertaram acidentalmente uma lata de guardanapos na câmera. A padaria virou de ponta cabeça, e tinha até gente caída em cima do vidro expositor de doces, um bolo enfiado à força na boca, e os olhos cheios de creme de confeiteiro. Colheram os depoimentos cheios de tal e qual tipo assim mas veja bem mas não aí. Sebastião estava caído em um canto, cheio de resmungos, hematomas e um galo enorme na cabeça quase a ponto de sair do cocuruto e cantar meio-dia. A foto dos brigões todos sentados entre as mesas e cadeiras retorcidas e tombadas saiu na capa do jornal no dia seguinte e chegou a concorrer ao Pulitzer no ano seguinte. Mandaram quatro viaturas para coletar os líderes das duas facções. Sebastião, curiosamente, foi poupado. Esqueceram-se dele, aparentemente. Os funcionários que não entraram na briga ou não foram por ela engolidos voltaram as mesas ao lugar, como quem não se surpreende que isso tenha acontecido durante o seu turno de trabalho.
“Você tem que ver como fica cheio aqui de noite.”, disse o balconista para uma loura bonitinha. “Vai querer o quê?”, “Tem pão de queijo?”, “A gente não tem pão.”, “Quê?”, “Pois é, de queijo também não.”
Sebastião, segundo dizem as acusações judiciais, saiu sem pagar e ainda cuspiu no chão antes de se mancar para fora dali.
