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Conto - Amores desvividos

Na falta de amores que me preencham o coração, invento um, por querer sangrar uns sentimentos inverossímeis.

Texto motivado pela história verídica de meu amigo João Paulsen.

A Seated Couple, Embracing (ca. 1865) - Sir Edward Coley Burne-Jones

Vivi meus dias com uma sombra maculando minha alma, no desprazer do desfazer de amores, quando por minha vontade ou da outra, sempre parte presente acumulada em mim, profetizava nossos destinos. "Depois que me deixar, vai achar alguém que te entenda melhor", eu disse a uma delas, na vã tentativa de fazer meu desinteresse soar mais propositado, como se fosse um benfeitor a cortar nosso nó e romper a corda que nos tencionava. Dito e feito, um ano depois vi-a noiva de um sujeito que pelas histórias que me chegavam ocasionalmente, cantadas por pássaros azuis virtuais, mostravam a verdade de minhas quimeras passadas.

Foram vários os casos assim, sempre nas últimas conversas, sempre nas partidas finais, ainda que despedidas possam ser morosas, extensas, e levarem verdadeiramente anos - tectônicas partidas, algumas delas! Em outra ocasião, argui com vigor "Deixe-me e encontre alguém que leve sua vida para frente!", só para ver duas semanas depois a dita cuja promovida, solteira, e endinheirada. Eu, por outro lado, pobretão desenfreado com a mão boba para soltar dinheiro em projetos escassos, comprei um equipamento de esqui e um hamster.

É fundamental dizer que minhas profecias nunca faziam menção à mim, por via de regra, quando ditas espontaneamente, eram sôfrega forma de me fazer parte de um futuro distante do meu. Viveria numa promessa que apenas eu recordaria, visto que velhos amores fazem questão de apagar a memória. Acumulador como sou, na ansiosa vontade de existir para sempre, retornando ao passado para recontar os dias, não deixei apagar nenhuma conversa, nem as bocas beijadas. Mas minhas profecias não eram todas bem intencionadas, fiz-me chaga quando não pude ser cura. Num desses términos feios, de bate-boca sujo com mentiras sendo substituídas por verdades amargas ("Você fede a alho todo dia, mesmo quando não cozinha", disse-me essa), eu - cansado como estava de tanta paulada verbal no coco da mente - interrompi-a com uma única sentença: "Você merece um gordo chato torcedor do Vasco", e a maldade ficou entre outras coisas na rima não intencional. Dois meses depois vi-a na rua com um baixo e simpático gordinho, desses de bochechas cheias como um neném recém amamentado. A roupa? Sim, o manto do Vasco da Gama.

Mas essa história não é sobre esses desamores condenados por minhas palavras. O é, até, mas também sobre como por fim o feitiço virou contra o feiticeiro, e sobre como eu, em determinado momento, condenei-me também.

Primeiro, é preciso dizer de quem falo, e captá-la de alguma forma em papel virtual para que compreendam a narrativa.

Ela tinha um chulézinho de pé gelado, de um tipo que não sei bem traduzir - era salgado, não azedo - e em nossa intimidade aquele era meu acendedor. Se me perguntarem do que sinto falta dela, de tantas as coisas que compõem o mundo na forma de outra pessoa, as infindáveis particularidades do sujeito-outro, eu afirmaria categoricamente mil vezes - se perguntassem-me-lô na casa do milhar - que era esse pé com chulé gelado o prego enferrujado e nunca arrancado do meu coração.

Esse chulézinho de pé gelado deixava pela casa marcas de suor no porcelanato quando ela se deslocava  em passos leves, deixava embaçado o piso e eu podia acompanhar sua jornada pelo pequeno apartamento. Sorte a minha, pois odeio sustos e ela tinha a mania feia de se esconder atrás de alguma coisa e saltar para me assustar. Nunca entendi como podia ela manter o chulé sendo de resto toda cheirosa, era uma coisa mágica, encantadora, como se na noite fadas minúsculas borrifassem entre os dedinhos dela uma essência - a primeira vista maligna - que tanto me cativava. O cheirinho do pé dela já exalava desde o banho, e fosse coisa da minha cabeça ou detalhe tão sutil que só eu tão perto dela pudesse sentir, não a vi um dia sequer dar conta da fragrância e minha obsessão.

E se me prendo aos pés e ao chulé do qual sinto tanta falta é porque o bom-senso me priva de outras memórias em nome da desejada sanidade. Que quer dizer isso? Aquele salgadinho suado na sola dos pés de quem tira uma meia muito usada depois de proteger os pés do frio de Julho, o conforto aromático nunca mais sentido em nenhum outro lugar (e juro a vocês que não sou podólatra e a individualidade deste caso confirma isso), esse pequeno encanto pessoal não segurou sozinho nossa conturbada relação.

Quebra-pau feio tivemos no fim. Ela estava com a mochila arrumada e feita, pronta para sair do meu apartamento. Maquiou-se para brigar comigo, sórdida atenção aos detalhes que vinha como parte de uma personalidade maior, teatral e competitiva, de quem sentia a necessidade de estar a todo momento vencendo em uma disputa, imaginada apenas por ela, obcecada e invisível entre nós dois. "Eu não quero ouvir 'boa sorte' de um fudido porque traz azar", ela me arremessou quando, já cansado de tanto falatório, tentei encerrar a conversa. Ora, eu não sou de ferro, e a maldade do ataque me atiçou. Mas uma vez frouxo e apaziguador, [quase] sempre frouxo e apaziguador, e ao balbuciar alguma coisa eu a vi gargalhar. Não rir. Não, ela não esgarçou os lábios e exibiu os dentes como faz um chimpanzé antes de morder a cara do outro. Não. Ela gargalhou, alto, "HA HA HA HA HAHAHA". Eu teria entendido o menosprezo no primeiro par de "HA's", mas pelos segundos que ela riu, acuei-me mais, a voz retumbante tal tiro de canhão. Pudesse eu reduzir de tamanho, teria as dimensões de uma azeitona neste ponto da conversa. Mas mamãe sempre disse que não sou flor que se cheire, e respondi dizendo que ela deveria ter tido esse bom humor no funeral da avó dela. Disposta a civilidade de uma conversa de encerramento adulta, me restava a barbárie de querer ver nela a expressão de rendição de quem não tem mais ataques maldosos a fazer. Éramos estrelas orbitando próximas demais, brilhantes demais, prontas para o colapso final. A cada novo giro, a cada nova ofensa, nossas órbitas se fechavam em um círculo menor e menor e menor. Eu já estava à porta, chave em mãos, pronto para liberar o caminho dela, como quem solta um touro furioso numa multidão desatenta, pobre coitado do motorista que a conduzisse até em casa! Olhamo-nos uma última vez nos olhos, sustentando a vista quente da febre da raiva (eu chorava um pouco, mole como pudim mal enformado). Minha musa do chulé gostoso, minha algoz dos meses conturbados, sabia de minhas profecias, contei a ela, confidenciei-a tal segredo como nunca antes fizera com outra. Por isso mesmo as últimas palavras que trocamos tinham o sabor pesado do fel da intencionalidade. "Nenhum de nós será feliz daqui em diante, porque não fomos felizes juntos", e em um gesto que faria um estudante da Wolf Maya desmaiar mediante exuberante teatralidade, abri a porta como o toureiro que sacode sua capa para evitar ser rasgado pelos cornos de um touro enfurecido.

Foi a única vez que a vi chorar. E depois nunca mais a vi. 

Sei que é verdade o poder de minha profecia porque eu mesmo sigo miserável e só desde essas palavras, fazem já nove anos, marinando em amargor e solidão involuntária. Toda minha vida floresce em bênçãos novas, há muito já não sou o fodido que outras me julgaram ser, mas mais triste não é o homem não amado, e sim aquele que não ama. Em um coração árido arrasado pelo próprio orgulho, planejo intranquilo meus anos ciente de horrível destino.

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