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Hoje daremos uma volta pelo meu bairro. Peço que me acompanhem nessa caminhada.
Tem uma moça bonita na lanchonete onde gosto de ir perto de casa. Talvez, se você lá fosse, não a acharia tão bonita assim. Não há problema, não é tanto uma história sobre ela e seu sorriso branco de dentes pequenos, temos mais caminhos para seguir daqui.
| The Bar (Le Bouchon), c.1879 - Edouard Manet |
Ainda assim, eu gosto de ir nessa lanchonete, pedir uma cerveja, e agradecer à moça bonita com um sorriso e um "Muito obrigado". Eu aprendi com a internet, numa dessas tantas publicações que se perdem pela rapidez do algoritmo, que quando você sorri para uma pessoa ela costuma sorrir involuntariamente de volta. Desde então, toda oportunidade que tenho, quando me lembro disso e estou em um desses meus poucos dias excepcionalmente radiantes, faço tudo com um sorriso no rosto para ver espelhada essa mesma expressão. É uma delícia! E quando chega minha cerveja e eu digo "muito obrigado!" com um grande e largo riso estampado nos meus dentes meio manchados de café, a moça bonita da lanchonete sorri de volta com aqueles dentes branquinhos e pequenos.
Boca é uma dessas coisas que me tomam de arrebate e me aquecem o coração tão frágil. Como poeta, me sensibilizo demais com o mundano. Mas que posso eu fazer se há nesse rendimento aos encantos da vida um jogo contínuo e viciante de se tomar pelos sentidos e viver em eterno clímax?
Fazem já quase duas décadas que ouvi essas palavras de um primo, numa das muitas festas de família do ano. Tal primo, galã da família, com seu jeito de Don Juan provinciano (como todos nós na pequena Manchester Mineira), em determinado momento me contou sobre mais uma de suas muitas aventuras nas festas noturnas que, por minha extrema juventude, ainda me eram negadas.
"... E eu tava lá já meio bêbado, né? E meu amigo disse que tinha uma amiga dele querendo me beijar. Aí eu fui lá conversar com ela. A primeira coisa que noto é a boca..."
"Por quê?", quis saber, tão ávido por um melhor entendimento do mundo do flerte que estava disposto a sacrifícios de sangue e guerras santas - eu sou um péssimo flertador.
"Porque se ela tem um sorriso bonito, pode ser a feia, a chata, a desagradável que for, que pelo menos um ponto positivo tem, e aí eu posso me agarrar nisso daí. E se a boca for boa, o beijo é bom..."
Daí para frente a conversa andou, o tempo passou, e essa pérola de ensinamento mundano, tão cretina na pílula onde estava inserida, fixou-se em meu cérebro. Não me esqueço dessa e de algumas outras histórias, palavras e lições, que tornaram-se centrais na minha personalidade influenciável. Dá para saber quando alguma coisa me encanta quando começo a repetir, em ecos e refrões, seus elementos mais chamativos.
Segue a noite no bar da moça bonita e eu já tomei muitos doubles de chope aproveitando a promoção. O mundo começa a ficar mágico, minhas pernas ficam fracas, e meu rosto queima. Encanto-me com a luz dos postes no bairro, com a maneira única do semáforo de pedestres abrir antes do semáforo de carros fechar e o cruzamento se tornar perigoso, encaro a fachada da escola pública ao lado do posto de saúde e o posto de polícia, vejo aquela calma sutil de bairro distante do centro, e me dá vontade de andar pelas calçadas mal planejadas até tropeçar em algum canto.
Ouça, pode não parecer, mas eu amo a vida. E não há ninguém que me arrependa de conhecer nesses anos todos. Existem pessoas, claro, que, penso eu, poderiam melhorar muito - mas eu também deveria melhorar muito, pois somos todos falhos. E nesses dias particularmente românticos, quando ando pelas ruas do meu bairro e imagino um mundo incrível muito diferente do mundo real, essas pessoas vão se transformando em personagens. Pouco a pouco eu capturo essas formas e deformo elas no texto, até para preservar parte da originalidade da vida longe das páginas online e dos arquivos de texto no meu computador.
Surge então um interessante ponto nisso tudo. Meus personagens morrem quando acaba a história. Passado o ponto final foram todos aniquilados pelo vazio da pós-leitura. Podemos carregar conosco alguns nomes e momentos, mas o personagem só vive enquanto é lido, os ressuscitamos quando relemos, mas está tudo no processo cíclico da leitura. E quando um personagem morre em cena, morre duas vezes na história. E se esse personagem era uma pessoa, morre três: uma na transcrição, uma na história, e uma última no ponto final. Mas eu quase não mato os personagens no texto. A moça de dentes bonitos da lanchonete segue viva aqui nesse texto, ainda que, no momento em que finalizo essa história, a lanchonete tenha sido vendida e essa moça não esteja mais lá. Quem sabe, é possível que ela tenha morrido - as primeiras palavras aqui lançadas têm tempo. E então ela morreria quatro vezes, talvez um recorde, se eu decidisse pela ficção de um latrocínio na lanchonete de repente. Mas não sou nem tão fúnebre nem tão cruel. Eu gosto que os personagens vivam, e que vivam também as pessoas; não sou capaz de eternizá-las em nada, estou além dessas habilidades, ainda que me divirta nessas tentativas. Quando volto para casa depois de alguns doubles de chope e me canso de encarar a vista, a ponto de fazê-la perder o encanto, subo o morro de casa contando minhas histórias, planejando meus causos, e dando forma a umas palavras que até então eu não sabia estarem guardadas. Caminho como um espectro por esse local cheio de sombras e formas humanas transitando entre o real, o imaginário, a vida e a morte, entre pessoas e personagens, muitos desses amalgamados em chavões parecidos.
No fim, é menos sobre gente que vive e mais sobre essa gente morta da qual as histórias são feitas. Porque estou plantado num cemitério e todos esses túmulos são causos, contos, tumultos, e personagens, gente de mentira que a gente acumula com o tempo se tem sorte, e tempo.