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Crônica cervical sem número: cervicalgia e protusões discais em múltiplos níveis

Male head showing the muscles of the back of the head, neck and shoulder blades (1745 - 1746) - Jacques Fabien Gautier d'Agoty (French, 1711-1786)


Dá-lhe que retorno às páginas como um bumerangue bem lançado. É dia vinte e seis do sagrado mês de maio e o ano já rodou quase metade de seus dias. Nada mais se aproveita, é tudo corrido, com pressa, sem degustação; mastigamos, mas não comemos - e sem ruminação não há digestão nem absorção. Eu, então, com meus problemas de coluna, sem poder correr, e com problemas estomacais, aliviado do pecado da gula por forças maiores, nem posso ter velocidade ainda que tenha pressa, nem posso dar grandes mordidas no meu prato ainda que o tenha enchido no self-service da vida.

É conversa de louco, mas deixemos as metáforas de lado. Fiz-me distante da escrita muito tempo, desmotivado por razões claras: falta de tempo, falta de energia, falta de inspiração. Enfim, tudo me falta. No Judô, uma das punições em combate é a falta de ataque, falta aqui não como sinônimo de punição, mas de ausência. Estivesse eu nos tatames metafóricos da arte, e essas três faltas me fariam perder a luta. 

Eu prometi não falar mais em metáforas! Pois bem, isso me lembra a polêmica recente que li, brevemente, em um post carrossel no Instagram: um edital público para escritores estava sendo alvo de grande polêmica pela inscrição e vitória de um texto feito com auxílio de Modelos Generativos (a famigerada I.A, que de inteligente não tem nada). O concurso foi organizado por uma prestigiosa revista estadunidense, similar à cult New Yorker, e o texto alvo de toda a discussão usava e abusava de figuras de linguagem sem sentido, soltas de qualquer forma nos parágrafos como forma de gerar frases de efeito e impacto imediatos. 

Eu poderia procurar rapidamente na internet o responsável pela frase "o autor é o operário das palavras", mas o Google está abrindo mão de seu modelo de buscas até então altamente eficiente por um novo serviço que usa um assistente conversador, ou em palavras leigas "uma I.A", para dar a resposta aos usuários. Então, talvez não conseguisse a resposta certa. Mas pouco importa a autoria quando a frase em si simplifica o que sempre tento dizer quando, vez ou outra, me perguntam se ando escrevendo. Primeiro, que não dá pra escrever e andar ao mesmo tempo, e em segundo lugar que não é tão fácil assim responder isso. 

Quando você tem tempo, qualquer montanha é só uma pilha de terra e... Outra metafora. Perdao. Voltemos... Com tempo, todo projeto é executável em sua integridade, mas o tempo é simultaneamente limitado e vendido - limitado porque não vivemos para sempre, limitado porque nos ocupamos de outras coisas mais que a arte, e limitado porque se eu vivesse dez anos em cada minuto ainda assim não seria suficiente para pensar com calma em todas as palavras que ponho em ordem. É vendido porque precisamos trabalhar, esqueci de salientar. Daí que dizer que o autor é um operário dos vocábulos bem se encaixa, quando somos todos proletários tentando vender nosso tempo à arte, ou quando queremos monetizá-la. Eu hoje trabalho durante o dia (um emprego fixo e mais uns dois projetos particulares quando sobra tempo), faço dois cursos durante a noite (uma graduação em ensino superior que se devora eternamente em meus dissabores acadêmicos, e uma graduação em ensino técnico, por hobby, em culinária), e ainda tento ter tempo para ver as pessoas que amo e dar conta dos demais problemas que surgem. 

Estamos, por fim, chegando ao que quero responder quando perguntam se ando escrevendo. Se contarmos os dias de fato em que escrevo, a resposta é não. Mas se contarmos os dias em que penso em escrever mas não escrevo porque alguma coisa tira meu foco ou ocupa aquela faixa de horário reservada há duas semanas para escrever, então talvez sim. E ainda assim a resposta final é um pouco mais sutil que isso. Porque mesmo quando penso em escrever e não escrevo, em minha mente às vezes discuto o que deveria escrever ou não; mais do que projetar narrativas nas paredes do meu cérebro, eu sempre me pergunto sobre o que deveria falar. 

Na falta de tempo, começamos a nos fechar na ideia pesada do essencial. Uma ideia falha, baseada em um conceito de prioridades por escassez. E essa noção de essencial, sobre o que deveria ser escrito ou não, faz coro com as insistentes e irritantes noções aristocráticas do que é válido ou superficial. Ainda não época de Pergaminho Virtual eu já rejeitava em grande medida os argumentos dos autores de que seus textos falavam algo maior do que as linhas demonstravam. Primeiro porque a grande maioria dos que falavam isso eram extremamente arrogantes e seus textos eram péssimos, segundo porque fossem eles realmente assim tão importantes eu teria já notado. 

Não é o cérebro humano o diacho de uma máquina de fazer caraminholas preocupantes? Mesmo pondo essas certezas no papel, quando começo a contar uma história, eu me pergunto "isso daqui vai dizer o quê pros outros?"

É dia 11 de Junho do ano de 2026 do nosso amigo JC, e eu volto a essa história sem ainda tê-la finalizado. Faz mais de mês que meu pescoço dói rotineiramente da hora que acordo até a hora que durmo, sem pausas. Para piorar, falta-me o tempo para finalizar essa história. Ironicamente, talvez, essa se tornou a melhor maneira que encontrei para dar um ponto final nesta página. 

Ainda não encontrei as respostas para todas as minhas dúvidas, mas eu continuo escrevendo, mesmo na falta de tempo, entre cadernos e burnouts adiados. Quiçá eu tenha a solução: basta ir fazendo, letra a letra, o que já me é tão habitual e querido. Não precisa ser importante. Eu só quero que seja legal.

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