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| Ninth Avenue, Saturday night market (1890) - William Allen Rogers (American, 1854-1931) |
Meu amigo Paulsen é para mim uma dessas lâmpadas de varanda que, acesas na noite, alumiam muita coisa. Também atrai insetos e uns bichanos inconvenientes perscrutando no escuro um sentido mais forte que o da luz das estrelas, mas essas interrupções lógicas na forma de bobeiras e palavreados ignorantes reservamos justamente à claudicante forma como construímos sentido e desvendamos a vida nessas conversas tão exóticas aos observadores externos.
Dito isto, feliz aniversário, meu camarada, que tantos desgostos mais nos atinjam e inspirem nossas lamúrias.
Vamos à história biográfica de hoje, na falta de uma ficção que nos guie para lugares melhores.
Já informei antes, e com muito mais vigor, sobre a tragédia ortopédica que me acomete. Duas hérnias futuras, já presentes no meu passado ambíguo de jovem-velho, causam dores terríveis e acorrentam minha vida a temores desagradáveis, pesados e insistentes, cobrando-me parcimônia nos riscos que adoro correr. Odeio a ideia de me tornar um sujeito conservador, medroso, limitado às minhas convicções formadas na juventude. Pelo contrário, quero constantemente desafiar minha rotina e meus saberes com atividades de risco, ouvir gente falando besteira ou decifrando parte do sentido da vida nuns ditos tão inocentes que dão gosto.
Gosto de sair de madrugada, quando Juiz de Fora dorme e, desatenta, se deixa revelar como a cidade que realmente é, dos prédios antigos, da arquitetura eclética, das ruas estreitas entre morros, as ruas de asfalto remendado por falta de melhor planejamento (alô, EMPAV, vamos calçar isso direito!). É no mar de sombras onde a noite é guia e mãe que prefiro me aventurar, quando as pessoas são tomadas por um fascínio pela quebra do pacto social - já não é mais dia, não seremos mais sãos! -, que as conversas se desdobram para jogos, prazeres e convites.
Muito me apetece essa jornada noturna, nas madrugadas da cidade, caçando um bar que me aceite enquanto lamento e aceito a triste realidade local: numa cidade de velhos e conservadores, todos dormem cedo, mesmo os estudantes. Resta-nos a resistência na forma do apartamento de um membro do grupo disposto a sacrificar a paz doméstica e a limpeza do lar para sediar a aglomeração de espectros da noite, sobreviventes à morte da festa. Neste mar gelado e negro da noite juizforana estamos todos à deriva. Portanto, qualquer sala é uma salvação. Dá-lhe então o convite geral, e buscamos abrigo do frio e das ruas, do inconveniente de estar fora e ser obrigado a gastar para encostar em um banco e ouvir a lista de dez piores músicas de dois mil e vinte e cinco ano de nosso Senhor pelos lábios de algum membro do bando mais animado.
Surge, novamente, meu demônio, e me lembra que ficar muito tempo sentado, ou recostado num sofá mais velho, não é a mais sábia decisão. Mas ei que me viro para essa criatura e grito "xô, sai daqui, cara, já são duas da manhã e não é hora de yoga ou pilates, eu não vou levantar dessa poltrona, canalha". Desdigo suas maldições e me mantenho concentrado no palavreado à solta pela sala, com minhas mãos tento agarrar algum assunto; sofro de dessucesso, palavra nova para evitar a falha, e não entendo do que conversam - é tarde, e eu não gosto de perder rotina. Vou-me dessa para uma melhor, minha cama dura, semiortopédica, brava guerreira na luta pelas minhas vértebras, recostada num nicho do quarto entre recortes de parede que faz dela ninho e lar. Chego em casa, encaro a possibilidade de me dopar levemente com um relaxante muscular tão barato, tão amigo, vendido sem receita em qualquer farmácia e que me traz uma noite de sono sem sonhos. Um dia ainda falarei aqui sobre meu sono e meus sonhos, outro motivo de permanente angústia. Mas então eu durmo, não repouso nem descanso, apenas desligo exausto. E no dia seguinte desperto, um pequeno desconforto na escápula direita. É necessário acordar e, como um carro velho a álcool que liga mas não anda, ficar deitado olhando para o teto esperando a hora de poder me deslocar sem o risco de quebrar alguma coisa. Dada a primeira cerimônia do dia, me levanto, busco um café na cozinha; esqueço de comprar um filtro e sou obrigado a passar um pó ruim em uma meia velha de pano dessas que juram ser melhor para o meio ambiente, mas é péssima para meu café matinal, faço um pão com ovo e maionese, sento à mesa e mastigo tudo com pressa enquanto vejo um desenho na vã tentativa de retomar alguma humanidade presente na memória da minha juventude, e disso vou matar meu dia com o desgosto do trabalho.
A todo momento, em toda jornada, sou incapaz de virar o pescoço para a direita, de olhar para cima, ou de girar a cabeça rapidamente. Imóvel, um cavalo de corrida com olhar fixo na linha de chegada, me restam as chibatadas e o bufar esforçado no revolver da terra ao correr disputando contra o mundo pela chance de um feno mais gostoso. A diferença é que, fosse um cavalo, já me teriam abatido com esse problema nas costas.
A tarde míngua e morre sem fazer muito esforço. Dá a noite, e mais uma vez me chamam para sair. Eu não resisto à rua com a lua iluminada, e todas essas horas trancado no meu quarto me enlouquecem. Então digo que sim, saio outra vez, visto minha roupa por cima da minha dor nas costas, e repito o mesmo ciclo da noite anterior. Vez a vez essa dor piora, até que se torna insustentável, e é preciso parar para gritar com um médico que sim, pela milésima vez, eu preciso de tramadol intravenoso ou alguém vai morrer naquele hospital e não vai ser eu.
