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Crônicas de chuva na Cidade Alta

Caminho pela noite tensa da cidade. Vem a expectativa da chuva, acelero meus passos para não me afogar amargo em ofensas ao céu. Determinado, subo para casa em ritmo acelerado, mal vejo ao meu redor. Enxergo apenas a rua, a calçada, e vez ou outra o céu nublado. Venta forte, vento frio, é noite quente. O verão traz muita expectativa. Sobem os graus celsius e me motivo, o mundo fica lindo, as chances de tudo aumentam em milagres probabilísticos, torna-se convidativo errar de novo, amar o mundo e a todos, simpatizo com a existência. Mas é tudo lindo enquanto não existe tensão e medo de chuva, sob o céu limpo eu acredito melhor. Subindo da rua que corta o Monte Sinai, hospital que cessou a vida de um avô e uma avó, enxergo um horizonte brilhante na forma de um conjunto de prédios em tamanho ascendente.

Young Man and Old Woman - Jacob Matham (Dutch, 1571-1631)

Então me lembro. Quando pequeno, na época em que toda rua me era um mistério por não saber para onde levavam os caminhos da cidade, eu via esse condomínio subir no horizonte, escorado contra um dos mil morros de Juiz de Fora. Essa obra tinha um charme convidativo aos olhos: cada prédio, da esquerda para a direita, era maior que o outro. Forma-se uma escada grande diante da vista, e sou visto então pelas centenas de janelas iluminadas na noite. Enquanto vou subindo para o portão sul da Universidade Federal de Juiz de Fora, enxergo entre árvores justamente esse grupo de prédios. E então bate o vento frio daquele portal, o lago da UFJF sopra seu hálito gelado, e sou obrigado a esquecer o passado e focar novamente na previsão de chuva. Otimista, acredito poder chegar em casa antes de pingo d'água chegar em meu cocuruto.

Faz duas semanas, dois sábados de quando escrevo isso, e eu descia por esse mesmo caminho, estressado com os problemas de um evento que fogem ao interesse dessa narrativa. Passando em largos movimentos na direção do Dom Bosco, de frente para o lago, vi uma capivara. Como pode um animal tão ordinário oferecer tamanho divertimento? É nada mais que um rato gigante, um hamster sob efeito dos esteroides hoje tão populares pelos influencers da vida saudável com seus corpos cheios de veneno e estresse de esforço contínuo. A capivara é um símbolo de propaganda. Um animal inventado simpático. Mas saibam que na Avenida Brasil, todas as noites, ao menos um pedestre desavisado é perseguido por um desses imensos roedores. A capivara também me lembra a prefeitura de Curitiba e sua propaganda, em gestões passadas, para tentar transformar o prefeito conservador de uma cidade conservadora em um sujeito simpático. É propaganda, pura propaganda, a tal da capivara. E eu passo por ela, mas não deixo de achar engraçado o corpo roliço e os dentes grandes. Nos segundos em que paro para registrar a cena com uma foto, temo que o animal pastando se canse da minha atenção e me faça correr. Humilhação essa evitada, ao menos. Desço pelo portão sul da Universidade e caminho em direção ao Dom Bosco, seguindo um trajeto já mapeado de outras vezes, mas sempre desagradável pela falta de calçadas decentes. 

O endereço me dizia ali, mas tudo que via era uma casa. Na porta, uma senhora conversava com um morador de rua que carregava algumas tábuas. "Eu posso deixar isso na casa da senhora, se quiser", disse o homem, e ela de uma vez só lançou o próprio celular nas minhas mãos, "Então tá, pode ser, pode ser". O sujeito deixou as tábuas na antessala, recebeu seu pagamento e foi embora. Ficamos nós dois, ali, trancados para dentro, já que ela fechou o portão gradeado branco atrás do homem. "Ai, meu coração tá até disparando, não é preconceito não, sabe? Falo com todos os maconheiros do bairro, eles me veem e falam 'Oi, tia' e eu respondo, falo com todos, mas esse daí tem histórico de roubar as pessoas, fiquei com tanto medo que joguei meu celular na sua mão sem nem ver", e ela ri, esbaforida, ainda tomada pela própria ansiedade. Começa a negociação. Preciso imprimir mais de 200 páginas, a senhora nem sequer sabe configurar página frente e verso no computador. É sete da noite de um sábado, preciso dessas folhas para o dia seguinte. A impressora é lenta, barulhenta, um desses modelos caseiros. Ouço a história da mulher. Veio para Juiz de Fora depois que o filho adoeceu, veio tratá-lo aqui, as chances eram baixas, mas ela tinha fé, muita fé, disse ao médico que tinha muita fé e que seria suficiente. O médico também me atende, dr. Amaury Bara, neurocirurgião. Última vez que o vi, ele, de maneira simpática, disse esperar não me ver mais, que eu fortalecesse minhas costas e parasse de sentir dor por um tempo - logo eu, louco para operar e acabar com essa luta insuportável. O mesmo dr. Bara que tratou o filho dela. Não entendi no final se o rapaz havia se curado, mas acho que sim. O tempo todo falou de um filho apenas, no singular, e ele estava então formado em administração. A senhora pensava em voltar para Cataguases, de onde é natural. Está em Juiz de Fora há mais de quinze anos. Devo ser mais velho que o filho dela. Saí de lá depois de quase uma hora. Mais de duzentas folhas em mãos. Um tempo morno, leve. No dia seguinte a previsão era chuva, realmente choveu. Mas nesse sábado não voltei para casa, não diretamente. Resolvi os dois mil problemas pendentes do dia, parei no bar no pé do morro de casa e conversei sobre muay thai com a funcionária do restaurante onde sempre vou almoçar, ou beber, a depender do clima do dia. Não gosto de almoçar em dia quente, me empapuça, me dá sono, fico estranho. 

Finalmente, depois de tanta volta pelo tempo e pela descontinuidade da linha da memória, eu venço a chuva e chego em casa dessa caminhada de segunda-feira. Estou animado, ainda saio mais uma vez para ir até a academia e me arrepender dessa matrícula de um ano fechada sob o jugo de um contrato impulsivo. O dia fecha aqui, a crônica também. 

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