Pular para o conteúdo principal

Já morreu o silêncio das coisas

 Eu venho almoçando, na maior parte dos dias, em um restaurante na virada da esquina da entrada de um bairro que dá caminho a um outro bairro, desses de uma suposta elite financeira. Esse caminho, e esse restaurante, estão abraçados por um bocado de mata fronteiriça de um lado, e uma represa aos fundos. Era região rural, afastada de tudo, e sem valor nenhum para os juizforanos, até a especulação imobiliária botar seus olhos nesses grandes lotes rurais de famílias tradicionais e, verdade crua seja dita, despreparadas para lidar com o verdadeiro valor da terra. 

Dinner Party (1935) - Oskar Schlemmer (German, 1888-1943)

É nesse entremundo aonde vou almoçar. E esse restaurante é meio barulhento, meio muvucado, com um entra-e-sai sacodindo o cheiro de comida sendo preparada na cozinha logo ali atrás da greta por onde passam os pratos prontos. Eu sento, peço sempre carne de boi, salada, uma batata frita ou outro acompanhamento para fingir saúde, e insisto que enviem menos arroz - pois todo restaurante aposta na abundância do arroz para ocultar sabe-se lá o quê; e nunca vem menos arroz porque nem sequer disfarçam essa aposta no grão branco. 

Nos últimos dias, fui sozinho ao restaurante. Costumo ir com meu pai, sentamos, pedimos, comemos e partimos - processo rápido e prático, sem nenhum glamour. Almoço é pra encher barriga, a comida é boa, o restaurante é próximo, e se esticamos um pouco mais pelo alto movimento de clientes aumentando o prazo de entrega dos pratos, rola uma conversa mais elaborada. Mas nesses últimos dias fui sozinho; eu e as vozes da minha cabeça, celular no bolso como uma fuga rápida contra o tédio, uma anfetamina para a mente inconstante.

Diferente das últimas idas, o local estava mais vazio. Talvez fosse o horário, talvez fosse o dia cheio de nuvens pesadas no céu. Mas eu comi sozinho, sem prestar atenção em muita coisa. Eu como rápido, de um jeito feio, feito cachorro de rua sendo alimentado em pote de margarina. Entre garfadas rápidas e uma vigiada ou outra no ecrã do smartphone para identificar novos envios de vídeos pelos meus amigos no Instagram, algo mudou. 

Foi como se o ar pesasse o som, e o mundo ficasse um pouquinho fora do lugar. Na penumbra causada pelas nuvens carregadas do lado de fora, o restaurante assumiu um tom cinza-escuro, dissonante, e as vozes nas conversas foram morrendo uma a uma, seja pelo efeito do mundo, hábito comunal ou mastigação. 

O restaurante todo ficou quieto, e eu pude ouvir a mata do lado de fora se mover. Deus habita o coração das pessoas no tempo de uma brisa, Ele está no silêncio que assassinamos. Deus é o medo da humanidade, o mudo grito do mundo na forma de vento na copa das árvores prenunciando chuva. E como a chuva não veio quando terminei de comer, eu me levantei, paguei a conta e fui embora. Já se ouviam conversas nas mesas quando saí, mantivemo-nos tão ordinários quanto antes. 

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...