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Merry wives of Windsor; Letter for letter Act II Scene I (1900) - Byam Shaw (English, 1872 - 1919) |
Dei por mim querendo escrever alguma coisa, não sem razão. Para começo de conversa, sou um rato abominável e competitivo. Mediante ressurgimento do vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria Contos, do longínquo ano de 2019, João Gabriel Paulsen, sob uma citação muito auspiciosa - palavra que roubei dos mantras budistas de algumas terças-feiras no centro de Juiz de Fora - nomeando-me irritável e saudoso em relação ao meu querido Pergaminho Virtual, vi-me na necessidade de justificar meu abominável gosto por histórias aqui mais uma vez. Talvez com uma outra história que, por fim, seja mais uma resolução irônica que real explicação.
Há outra razão para voltar a escrever neste blog, é claro. Duas talvez, mas conectadas na raiz da coisa. Começa que eu sou um sujeito subserviente às vozes da minha cabeça e não é sem razão que doido ame um palco. Para dar vazão a todo esse falatório maldito sem que me seja impulsionada a vontade de melindradas machadadas no crânio, uso da literatura como escape de uma realidade insossa, buscando uma saída insólita, encontrando apenas uma situação irônica... Dá-lhe brincadeiras desgastadas, João Pedro, deixe disso e diga logo qual o resultado final de suas perturbações. Bem, outro ponto que muito me toca na arte é o diálogo, mas a literatura é o mais ingrato dos reinos. Pouco se pode discutir sobre o processo enquanto ele ocorre, e mais difícil ainda é registrá-lo. Como faria eu para documentar o processo de escrita de um livro? Gravaria a tela? Registraria tudo em um diário paralelo? Encheria cadernos de páginas e anotações coladas manualmente, para posteriormente simular essa experiência com um livro experimental aberto ao público no Google Docs*? O Pergaminho Virtual por alguns anos supriu ambas as necessidades - fiz-me menos louco e mais exótico, e encontrei pessoas com quem compartilhar essa jornada criativa ingrata, e insolícita. Por isso, com o retorno às páginas digitais desse outro João, tenho reforçada a necessidade de ressuscitar o bondoso Pergaminho, e também responder nestas minhas páginas com algumas histórias.
Longe dos amargos sofrimentos amorosos engatilhando a escrita maravilhosamente densa e reforçada de um vocabulário ímpar de meu conterrâneo e inimigo João Gabriel, vejo no acaso e nas misérias mais aleatórias a alma de minhas páginas. Isso e, claro, o leve borboletar na boca do estômago quando me vejo o centro das atenções em alguma coisa. O artista é, no fim, sempre um desesperado. Ide o texto a algo mais, amém.
Por razões ergonômicas, ou talvez a falta de uma ergonomia que sustente meu corpo até minha morte, foi-me imposta a obrigação de frequentar uma academia. Já não me dou com a academia teórica, e a exigência de uma academia física me arrancou umas duas ou três simulações de autoextermínio exclusivamente teóricas sob o estresse de ter que me esforçar. Vejam, por trás de uma fachada de workaholic e dedicado explorador da vida que carrego comigo, acumulador de histórias, o homem do "por que não?", eu sou, nem tão fundo assim, com a profundidade de um pirex para qualquer um descobrir isso em mim, um grande dum folgado.
Se há como não fazer algo, não farei. E se eu puder deixar de fazer o deixar de fazer, sendo mais fácil fazer, então farei, também sem gosto, porque nenhuma das duas opções é verdadeiramente aprazível. Escrever é, de alguma forma, a grande piada da minha alma. Me escondo na escrita, enquanto qualquer conversa de bar me dá a chance de expor os detalhes mais vergonhosos de minha vida; fujo ao esforço em tudo que não é necessário, mas me perco nas palavras em um exercício inútil e laborioso ao tentar fazer delas algum sentido real. E há diabos algum sentido no que escrevo? Sou excessivamente crítico para acreditar em algum elogio, mesmo que raro. O movimento existe enquanto o esforço é desconfortável, eu implodo em contradições e desgasto meus dentes em um ranger contínuo amplificado pelo excesso de café e problemas.
Se eu puder aqui fazer uma suposição, contarei pequena história para isso. Quando adolescente, ao contrário de meus amigos agarrados a dramas amorosos, esportes, videogames, aspirações de futuro e um número sem fim de desejos juvenis florescendo com os hormônios, eu não gostava de muitas coisas. Minha mãe já muito bem proferiu: "você já nasceu idoso, João Pedro" e eu sempre fui realmente um sujeitinho meio envelhecido mesmo quando não se via no meu rosto uma ruga, e na minha cabeça ia uma vistosa juba cacheada. Hoje, pelo contrário, me interesso por tudo, mas também é tudo o que me desagrada nessa Terra.
Jovem, lá ia eu depois de 1h dentro do único ônibus da única linha que me deixava na porta de casa, almoçar pratos enormes, cochilar e, ao despertar, abrir um livro para passar o resto do dia esquecido entre páginas, sempre deitado e perdido em posições pouco ergonômicas enquanto devorava histórias de fantasia. Tornei-me um sonhador, idealizador. Não há mundo melhor que a ficção, onde todos os problemas se resolvem antes do ponto final.
Rosa Montero compila em seu livro A Louca da Casa várias definições distintas de tipos de autores, com base nas teorias dos próprios autores. Recentemente, em conversa com o escritor juizforano Ulisses Belleigoli, fui lembrado da divisão entre escritores que falam de amor e de escritores que falam de morte - claramente me enquadro no segundo grupo, visto que o Réquiem mesmo sendo um livro sobre amor é, por princípio, um livro sobre luto. Não citarei aqui outras divisões, porque Montero faz esse registro de maneira interessantíssima; mas complemento com minha sugestão: há os escritores que imaginam um mundo incrível, otimistas, projetam nas palavras a vontade de mudar; há também os escritores que registram o pior da realidade, e de si, em seus textos, sempre apegados ao mundo desencantado que, segundo minha teoria pessoal, surge na vida adulta ao ter que pagar a primeira parcela de um eletrodoméstico de vida curtíssima.
Também aqui eu me lembro de um fato curioso. Meus pais, quando se casaram, e neste período eu já vinha encomendado por anjos ou uma trupe de diabos, ganharam uma geladeira de minha avó materna, saudosa dona Lesy. Bem, essa geladeira segue viva e funcional, vinte e sete anos depois de ser presenteada, uns vinte e oito anos ou mais depois de ter sido produzida. É desses modelos antiquados do final do século XX, sem frost free, com grades metálicas, pouco espaço para as muitas embalagens plásticas que hoje gelamos no lugar de alimentos reais. Faz-se necessário degelar o congelador, por ironia, a cada dois meses ou menos, do contrário, torna-se inviável usar a geladeira. Por fora, hoje, esse eletrodoméstico tão resistente também já sofreu com os anos e mudanças de casas: tinha marcas de ferrugem em sua bainha que foram cobertas por mim com uma tinta vencida, resultando em uma coloração terrível, similar a uma doença de pele, deixando assim marcas pontilhadas de tom estranho nas laterais da bendita geladeira.
Essa mesma geladeira já foi minha por alguns anos quando me mudei e fui morar sozinho, no que sozinho hoje significa para um jovem: em república ou reunião com amigos, em casas cuja maior decoração é uma garrafa de cerveja esquecida no canto da sala. Bem, essa geladeira, que compartilha comigo o começo de sua vida e memórias entranhadas na minha juventude, no casamento de meus pais, geladeira que se torna também memória de minha avó e das várias casas em que morei, esse eletrodoméstico já maquiado pelo tempo com o rosto velho em um corpo sem face... essa maldita geladeira aparenta estar mais inteira do que eu - ao menos funciona melhor, e sem reclamar. E com menor manutenção! A aparência também se desgastou menos. Quanto mais eu comparo, mais perco para a porra da geladeira. E o palavrão é sinal de que minhas intenções iniciais se perderam no relato.
Tão repentino quanto comecei, encerro este relato.
Que estejamos todos vivos quando as próximas palavras forem escritas.
