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Todo workaholic é um otário, e eu sou o rei dos otários

 Uma frase que habita às margens da minha mente, surgindo na superfície vez ou outra, é a célebre declaração do personagem Maurílio em Choque de Cultura: "O workaholic é uma pessoa que tenta substituir o vício em bebida com trabalho, mas aí só fica viciado em bebida e trabalho". 

Eu ainda complemento esse pensamento: o workaholic é o sujeito que se acha muito inteligente por trabalhar demais quando todo mundo com bom senso vê nele apenas um otário. Quem trabalha demais por necessidade é apenas uma vítima, quem trabalha demais por escolha é um idiota. 

Atualmente, não creio que Juiz de Fora tenha um idiota maior do que eu. 

Não vou ficar me lamentando aqui pelas minhas escolhas, eu renunciei aos 4 anos de governo como prefeito da cidade dos pobre coitados. Mas achei que seria interessante falar um pouco sobre como certos pensamentos nocivos se entranham em nós. 

Vamos lá.

Quando eu comecei a trabalhar, o plano era simples: fazer um dinheiro, reinvestir em arte; até que a arte finalmente retornasse algum dinheiro e eu pudesse só trabalhar com isso. O problema desse plano genial era não ter nenhuma especificação maior que essa linha base e nenhuma forma de quantificar meus esforços. Tudo se tornou desperdício, acidentalmente, e hoje reciclei esses desperdícios em ensinamentos.

Contudo, a mentalidade inicial de "trabalhar > ganhar mais > melhorar a forma como me entrego em autoindulgências > trabalhar mais > ganhar mais etc." se transformou em outra coisa...

Eu não sou um sujeito tranquilo. Quem me conhece de perto sabe que posso ser resumido a duas coisas: enormes arrependimentos sobre meu passado e uma compulsão quase violenta em transformar tudo em humor. Mas eu venho descobrindo um terceiro pilar na minha personalidade que antes parecia apenas delimitado pelas sombras das outras partes da minha persona: a obsessão. 

Parte de não ser um sujeito tranquilo é que você incorpora elementos de forma muito intensa na sua vida. Nada é um passeio no parque e dias amenos, são apenas ondas de calor extremo e tempestades de verão cataclísmicas. 

O processo de formação da personalidade humana, ao meu ver - e aqui eu ofereço nada mais que minha percepção, peço perdão aos psicólogos -, funciona por etapas: Crianças têm dúvidas, Adolescentes têm certezas, Adultos tem novas dúvidas e novas certezas, Idosos têm problemas de saúde. Crianças e adolescentes estão suscetíveis à formação de crenças de uma forma que adultos não estão (ou não estavam, antes da internet e das correntes de WhatsApp). 

Eu, infelizmente, deixei crescer em mim o verme do neoliberalismo por acidente, quando li, aos meus 17 anos, o livro A Revolta de Atlas, de Ayn Rand. E aqui os mais lidos podem abrir um sorriso e se perguntar como eu cheguei a esse ponto, e como caí nessa armadilha, mas em minha defesa eu lia qualquer coisa que me entregassem em mãos e este livro chegou às minhas mãos por conta de uma promoção dessas da Submarino de vários boxes por preços irrisórios. 

Imagino ter sido esse o título responsável pela minha transformação em um sujeito crente na capacidade humana como elemento redentor de qualquer outro aspecto - pensava ver na inventividade e na criação o elemento final para justificar a existência. Essa crença, também impulsionada pelo meu ceticismo e meu ateísmo, me levaram a crer, agora de forma obsessiva, em uma ideia insistente e nociva.

Passei a pensar que a única forma de se justificar a vida era criando algo de valor. 

E foi aqui que eu caí, por alguns anos, na armadilha dos neoliberais. Eventualmente, me desvencilhei dessa ideologia porca porque, afinal de contas, não sou tão burro assim, apenas extremamente influenciável e inocente em relação ao que leio e tomo como verdade. 

Contudo, parte dessa crença permaneceu entranhada em mim, já parte da minha carne e de minhas convicções mais fortes: "É necessário criar para ser. Apenas quem cria e registra, existe." 

Tudo isso se soma ainda àquela insegurança enquanto artista de que eu sou aquilo que eu produzo. As artimanhas do capitalismo estão por todos os lados. A noção do individualismo e da competição alimentam esse monstro: eu não posso ser um escritor mediano, eu preciso me destacar. E esse destaque, em desespero, pode ser para qualquer lado do espectro: é melhor ser horrível que ser mediano, por exemplo. 

Na busca pela morte deste monstro-sentimento imorrível cheguei à conclusão temível de meu ser: para superar meus medos e alcançar minhas ambições, precisarei conquistar o mundo um projeto por vez. 

Esse é um final horrível para nosso protagonista tão querido. Como lamenta ele os anos já idos em que suas ambições maiores envolviam passar tardes e tardes lendo livros enquanto se lamentava por amores nunca realizados. 

Mas as histórias modernas sempre precisam de um epílogo para prender o público e garantir que continuem consumindo. 

Do chão da arena, sob a sombra do monstro, nosso herói ainda se move, agora com uma nova estratégia em mente, ele reúne forças para derrotar essa abominação compulsória. 

Até por isso, a lógica desse texto ficou para trás uns 8 parágrafos atrás.

Vejo vocês daqui a pouco. 

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