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Sobre literatura e escrita (ainda que já tenham dito tudo que penso), memórias de Juiz de Fora entre os contos do Réquiem

 A literatura deve ser verdadeira, mas não precisa ser real. A busca por um texto verídico afasta o escritor da arte. Quando eu ponho uma palavra atrás da outra, não estou atrás da compreensão plena da realidade, da memória e dos sentidos. A arte emula, a arte induz, e a arte falsifica. Nesse sentido, o que vejo em muitos escritores iniciantes é a necessidade de validar o escrito através do Real, "se eu usar essa memória, se eu citar esse autor, se eu descrever essa pedra..." Nada disso é fundamental à escrita, como também não o é a qualquer outra arte. Não se pinta a textura de uma rocha com os grânulos daquela pedra vista além da tela. Do mesmo modo, não se faz uma biografia com memórias verdadeiras. E que memória é verídica se a neurociência nos diz que fabricamos eventos de acordo com o que sentimos quando nos recordamos? Tudo é sobre o que sentimos, fingimos até mesmo nos lembrar.

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Voltar a escrever é um processo penoso - mais do que voltar a correr com uma coluna permanentemente lesionada. Enquanto o meu fortalecimento físico pode ser acompanhado por profissionais, consertado quando necessário (tal qual um carro velho em pista de velocidade), a escrita não pode ser acompanhada. O melhor talvez seja dizer que não pode ser auxiliada, visto que sob a necessidade de publicação é, ao menos, testemunhada por um par ou dois de olhos. 

Essas observações acima, claro, tem validade exclusiva apenas para meu trabalho. E um ou outro que concorde com elas terá suas próprias formas de validá-las. Dito isso, é interessante um exemplo prático que exemplifique o que quero expressar aqui de forma tão modorrenta. 

Durante o processo de escrita do Réquiem e dos contos dessa "fase" (mais de vida que artística, ainda que ambos estejam engalfinhadas em minha mente), utilizei de várias situações, percepções e memórias para construir algumas das cenas mais importantes dos sete capítulos principais. 

Quando Dante está sentado no canto de uma mesa de bar, na madrugada ingrata e impessoal de uma Juiz de Fora indiretamente citada, estou usando a recordação inexata das minhas saídas noturnas ao bar Sobrinhos, no São Mateus, e a posição específica de uma mesa, à esquerda do bar, que me protegia da visão dos transeuntes e demais público do bar. O Sobrinhos ficava sempre cheio, alguns dias com maior público que outros. No pré-Carnaval, foi palco de outro conto, Outro Carnaval Nas Ruas, e certa vez passaram com o carro por cima do meu pé ali. Hoje, o Sobrinhos é uma sorveteria, e apenas esse pequeno relato o mantém vivo em minha existência. É nesse espectro-registro, turvo e impreciso, que Dante passa sabe-se lá quanto tempo sozinho até encontrá-la. Vindo do mercado 24h na avenida Rio Branco, Sabadão surge caminhando no meio da rua, justamente pela via que dá, de um lado, em um posto de combustível, e do outro, em uma franquia de sanduíches. 

Ainda que toda a cena de Dante seja pautada em um espaço real, em um bar que, no momento de escrita da história, existia, nada daquilo é embasado em um acontecimento passado verificável, exceto talvez o que eu imaginava que poderia ocorrer. 

No Budismo, além dos cinco sentidos físicos, a mente é tratada como um sexto sentido, e ideias, memórias e pensamentos são tão palpáveis quanto cheiros, visões, sabores, toques e sons. Nesse sentido, não seria válido dizer que a imaginação da cena literária no bar também habita o real, sendo ela um objeto da mente visualizado no passado? 

Eu acho que não. Supus isso apenas como exercício lógico. Perdão pelo anticlímax.

Enfim, há outras cenas fundamentadas em experiências e imagens reais. A primeira cena, quando Dante se dá conta de que não ama mais e está caminhando por um jardim ocorreu, ainda que não tenha sido em uma festa, nem aos seus vinte e quatro anos. O que me leva ao ponto seguinte. O Dante não é autobiográfico, mas ele, Ernesto e Sabadão juntos o são, de alguma forma. Todos são uma parte minha, uma tendência da minha personalidade charmosa e exuberante que tanto agrada as pessoas ao meu redor. 

Em muitos casos, Dante é mais imaginário que os personagens secundários da história. Ele representa uma percepção idealizada dos meus próprios ideais românticos, a imagem que eu pensava projetar enquanto grande fã de Alvares de Azevedo e Castro Alves. Recentemente caiu a ficha de que nunca fui um pessimista, mas sim um grande romântico. Não é que as coisas sejam péssimas e o mundo um lugar horrível, mas essa existência lúgubre só me gera temores porque a grandiosidade do que espero é confrontada com a dureza da vida urbana em detrimento do mágico e do impossível no natural. Ah, há também o amor, claro, como elemento central numa existência romântica, mas esse amor vem menos carregado na figura feminina e mais na humanidade como um todo. É fácil amar a humanidade, é difícil amar as pessoas. Faz sentido? Sempre fui um romântico, antes, ultrarromântico, amarrado à ideia de uma existência validada pela reciprocidade de sentimentos - como eram bons meus 18 anos tão inocentes! - hoje mais abrangente nesse sentido, mais condoreiro, mais livre... 

Agora, este texto é real? Há nele algum valor prático de registro que influencie a percepção da própria obra (o Réquiem) ou até mesmo a minha imagem enquanto autor? Alguém me enxerga como escritor (quando nem mesmo eu o faço)? Tudo é falso e emulado, a arte só é honesta quanto isso. Talvez eu também devesse ser assim. 

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