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Joãodisseia #01 São Paulo foi um sonho

 Este é um texto de 2018 ou 2019, não me recordo ao certo. Trata de uma viagem feita às pressas para São Paulo, de maneira espontânea. O recorte em dias prometia uma continuação que nunca veio, e hoje as memórias desses dias já são nebulosas demais para que eu possa retratá-las fidedignamente. Inicia, contudo, uma sequência de textos que planejo escrever neste blog a respeito de viagens e jornadas para fora de meu castelo provinciano.

São Paulo (1924) - Tarsila do Amaral

Dez da noite e a rodoviária vazia. Praticamente. Entrei no ônibus e passei os primeiros minutos me ajeitando desconfortável num assento miúdo ao lado de uma mulher que, à primeira vista, me pareceu antipática. A viagem começou com o sacolejar básico do veículo pelas ruas da cidade até estabilizarmo-nos na estrada. Pus meus fones de ouvido e comecei meu processo de adormecimento, não seria uma jornada curta. Oito horas até São Paulo – uma jornada, uma aventura. Eu merecia uma nova experiência. 

Olhei pela fresta da cortina para fora. A noite tinha lá suas estrelas no céu. Não era a mesma coisa sem o vento no rosto. O ar-condicionado me dava calafrios e eu me arrependia por não ter levado uma coberta. A mulher ao meu lado desdobrara uma manta quente e confortável, estava preparada. Eu preferi a aventura, o desconforto – o novo. Engraçado como nossas decisões não parecem tão acertadas na hora. Passado o frio daqueles dias, a memória tem um quê de agradável. 

As estrelas sempre foram uma distração agradável nas viagens da minha infância. Sempre tive um estômago inconstante e entrar em um carro com a minha família por mais de uma hora era certeza de vômitos e mais vômitos na estrada. Daí a necessidade de tomar vários e vários remédios para dormir durante o pior. Algumas vezes eu acordava e não tínhamos mais Dramin. Me restava então abrir a janela e respirar fundo. Nas viagens noturnas isso tornou-se um hábito agradável quando percebi os pontículos infinitamente distantes das estrelas. Olhar para cima passou a ser um hobby. Fiz o mesmo no ônibus e encontrei apenas o controle do ar-condicionado pessoal, tentei ajustar o meu sem sucesso. Desisti e decidi que passar frio seria mais fácil. 

Incomodei a pobre alma ao meu lado uma dezena de vezes, se não mais. Estava sem posição, minhas pernas pareciam mortas e a estrada dava a volta ao mundo. Quando paramos, pensei em não sair do ônibus, mas saí para esticar as pernas e ver se a dor no corpo sumia. Seriam mais quatro horas daquele inferno e eu tive duas boas horas de sono até então. Chegaria em São Paulo às seis, minha prima um pouco depois. Nossos ônibus pararam na mesma estação, mas quando descobri isso estava de volta em meu assento, tentando esquentar os ossos com o pouco de carne que tenho. Não valeria a pena sair do lugar outra vez, me sentia mal por ter atrapalhado tanto a mulher, mas ao mesmo tempo havia um que de vingança no meu desconforto sendo transmitido: ela não oferecera a manta. Picuinha, um sentimento baixo, mas era um frio desgraçado e o ar-condicionado estava no máximo. Foram quatro horas desse loop infinito de dormir, acordar desajeitado, acertar acidentalmente minha companheira também acidental de viagem, recostar em uma posição promissora e dormir, só para reiniciar o ciclo outra vez, dali alguns minutos. 

Quando desci em São Paulo a cidade toda já estava acordada, viva, repleta de movimento de outros passageiros indo e vindo pela rodoviária com os mais diversos sentidos. Recostei em um canto, esperei pela minha prima enquanto assistia ao mostrador de viagens sendo atualizado simultâneo às chegadas e saídas. Percebi várias famílias, alguns turistas vindos dos mais diversos lugares com a pele bronzeada e as aparências estrangeiras, alguns vagabundos e errantes por lá também. Passada meia-hora, minha prima desceu e pegamos o metrô em uma estação lotada de atividade pela manhã, hora de trabalho, o vai e vem dos vagões correndo pelos túneis e pontes e trilhos da cidade. Estávamos em contrafluxo, pude esticar minha perna num banco vazio à minha frente, privilégio antes concedido a mim por uma madrugada movimentada voltando de um show do outro lado dessa mesma São Paulo desperta, com um frio intenso saindo de dentro do meu corpo conforme o sol acertava meu rosto pela janela do vagão.

Descemos numa das estações finais e andamos pelas ruas movimentadas de um bairro externo da cidade. Fiz compras na padaria para o dejejum, parte essencial do meu dia, e partimos para a casa de meu primo, onde ficaríamos pelos próximos dias. Cheguei lá e me deparei com um lar. Mais do que isso, com um conceito e um objetivo. As pessoas viviam, trabalhavam com e respiravam arte naquele lugar. Não em um senso vulgar e exibicionista, acadêmico e fechado, do conceito. Ali eu me vi pensando que talvez fosse sim possível seguir como artista, caso tivesse audácia suficiente para me arriscar. Eu tinha? Eu tenho? Essa história é mais uma memória que um relato novo, o que se inventa sobre o seu próprio passado?

Vinte anos nas costas e sentia não ter alcançado nada além do mais puro e concentrado desgosto. Vivi uma pequena promessa de melhoria ao chegar na casa. Preparamos o café e o mundo era meu a cada gole de bebida quente queimando minha garganta cansada. Por fim, não pude dormir. Lá se foi meu anfitrião para seu trabalho e ficamos eu, minha prima e a nossa anfitriã, esposa do meu primo, tomando café e jogando conversa fora sob a luz dos primeiros raios de sol matinais devidamente aproveitados em São Paulo. 

Quando foi a hora do almoço, meu terceiro primo, que fui buscar na cidade, apareceu. Fazia um ano ou mais desde que nos vimos pela última vez. Parecia uma semana. Quanta coisa me aconteceu em um ano para distorcer e condensar o tempo dessa forma. Nenhuma surpresa, excitação zero, nada da alegria do reencontro. Foi como se um ano tivesse o mesmo valor de uma ida ao shopping. Éramos os mesmos, afinal de contas, que diferença faria um ano? Qual não é a tolice de esperar algo diferente. Entramos na casa, comemos, bebemos mais café. Decidimos partir com meu primo pela cidade, para comprar um carro. Deixamos a anfitriã para trás, com seus afazeres. Um pouco de liberdade dentro da própria casa é sempre bom.

A malha urbana de São Paulo é surpreendentemente bonita para quem vem de fora, eu acho. Acredito nisso apenas por ter visitado o local com um mínimo de atenção pela segunda vez, a terceira fará as regras – quando será? Os bairros mais ao longe em muito se assemelham aos bairros de qualquer cidade de médio porte, com várias casas e um comércio muito comum, cheio de padarias, farmácias, supermercados, igrejas e lojas de automóveis. As ruas são largas e razoavelmente lisas. Foram enormes as horas nelas. O centro de São Paulo é o que vende a cidade. A Avenida Paulista. Não poderia haver nome melhor. Chegarei nela no dia seguinte, primeiro, vamos por ordem cronológica. 

Por algum motivo, meu primo recém-chegado e muito entendedor de carros decidiu escolher uma máquina feia com aspecto de van para senhoras de meia-idade cruzada com um carro esportivo de pegas no centro da cidade. Era essa a minha impressão. Os dois vendedores do veículo tinham a exata aparência de quem mexe com coisas no mínimo ilícitas. Pareciam capazes de nos sequestrar e enganar a qualquer momento. Mantive-me atento aos sinais de perigo, mas eles nada fizeram. No fim, eram apenas excêntricos – e quem sou eu para julgar excentricidade querendo me fazer artista? Não é essa parte essencial do projeto? 

Pegamos o carro, rodamos a cidade enquanto eu forçava a bateria do meu celular aos dois por cento tocando músicas latinas. Minha prima ia nos guiando com o GPS no celular dela. Persegui o novo carro do meu primo enquanto dirigia o carro alugado e cortava pelas múltiplas vias da cidade grande. Em dado momento vimos uma van sendo perseguida por viaturas policiais, acompanhei a perseguição com ansiedade, um frescor no tédio enorme do trânsito crepuscular. Vimos o sol se pôr atrás dos enormes prédios de concreto e pintar o céu com velhas cores, em uma mistura nova. A composição da cena faz toda a diferença. O mesmo acontece com a literatura, enquanto minhas palavras são limitadas, é a maneira de dispô-las que vai mostrar o quanto sei escrever. Contar histórias é um exercício de reciclagem, tanto de vocabulário quanto de enredos. 

Dirigir ali era um exercício de reciclagem de pistas e copiar a direção ofensiva do meu primo testando seu novo veículo. Seguimo-lo alguns carros atrás, tentando acompanhar o ritmo e não errar as saídas. Chegamos na casa quando já era noite, cansados, mas satisfeitos. Tinha sido um bom dia, apesar das longas horas nos automóveis. Aproveitamos para comer fora, depois, com todos nós cinco no carro novo. Assim que chegamos em casa, eu aproveitei para dormir e descansar, tendo a oportunidade de finalmente relaxar o corpo desgastado pelas longas horas de asfalto gasto. 

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