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Confesso que me incomoda já há algum tempo uma noção crescendo em meu peito, a de que só sou humano enquanto escrevo. Faz tempo que não faço arte, e só falo de arte, porque pouco tempo me resta para fazer, e pela gretas só consigo falar.
Eu preciso escrever pelo celular para ter como acessar algo e, para piorar, quando escrevo no caderno sem pauta eu tenho certeza que as palavras me falham, melhor seria se me faltassem.
Já sou pouco adepto da experimentação, meus contos curtos de uma ou duas páginas morreram em 2016, quando realmente comecei a me dedicar a escrever antevendo nisso um futuro não concretizado enquanto artista pleno - digo pleno no sentido empregatício mesmo, e pouco assumo a coragem de me anunciar artista independente.
Foi em 2016 também, entre outras coisas, que um camarada bacana, Bernardo Yoshidome, me passou o acesso para o curso de escrita do Neil Gaiman. Dez anos depois, e o sujeito que antes era minha grande referência na escrita responde em liberdade por crimes sexuais horríveis. Bernardo, ao menos, continua um camarada.
Eu tenho sorte de ter bons e boas camaradas, é provável que eu siga escrevendo por eles.