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Breve palavra no caos

Vincent van Gogh, Man Reading at the Fireside (Etten, October–November 1881

 Há quem compartilhe o discurso do artista enquanto ser turbulento, vítima de virulentos sentimentos gorfados na forma de sua obra. Esses creem na arte como um processo involuntário, quase autônomo. Serão os mesmos a crer na separação entre arte e artista? Pois bem, uns preferem o mistério da criação para espelhar, quem sabe, a Criação. Não eu, em ambas as instâncias. Arranco a arte do meu peito à força, voluntariamente. E há momentos propícios para essa busca. O artista que produz apenas sob suas crises está fadado a buscar uma vida miserável para validar sua arte. Eu vivo a inversão desse sentimento, preciso estar bem para produzir - e há quanto tempo não o estou? Vai saber. Ainda tento escrever e me manter ativo, mas o tempo massacra meus planos. O Réquiem já foi lançado tem dois anos, meu Deus, e não consegui reunir uma dúzia de contos para dar sequência à minha obra. 

Verdade seja dita, não tenho nada ainda suficientemente adequado para apresentar. Até então, A Pergunta no Espelho e Réquiem Para um Amor eram processos de amadurecimento. Agora, gostaria de entregar algo acabado, finalizado, com um desenho claro de quem sou enquanto artista. E, mesmo assim, meu cérebro se esfarela feito bolo seco e velho na boca. Eu me separei da minha arte por muito tempo, tentando acreditar ser a melhor saída - mas em meu âmago ainda pulsa a vontade de dizer as coisas que me são verdade. Escrever é minha forma de falar com outros, minha maneira de permanecer no mundo enquanto creio estar desaparecendo muito rápido. 

A Revoada, de García Marquéz, foi publicada quando esse tinha seus 28 anos. A descoberta dessa informação me despertou sentimentos de fúria, inveja, derrota, cansaço, uma grande miséria espiritual. É difícil não ser catastrófico quando tento me comparar sempre aos maiores, mas de que outra maneira enxergarei progresso se não mirar o mais alto posto da literatura? Eu não quero publicar um livro, quero ganhar um Nobel - e minha psicóloga me disse por diversas vezes que essas metas irreais trarão apenas frustração. 

Pelo bem do nome da profissional que mantém, com grande esforço, esses quatro surtos psicóticos sob o nome de João Pedro amarrados como um único indivíduo, destaco que abrir mão do sonho do Nobel não é sobre desmerecer minhas habilidades, mas reconhecer a dificuldade desse processo. Se eu apenas me sentisse feliz escrevendo, é a conclusão, talvez fosse até mais fácil chegar a algum lugar. 

E, contudo, preciso estar feliz para escrever, sinto-me miserável enquanto o faço, e dessa forma devo recolher migalhas de alegria para depois puí-las palavras atrás de palavras. O processo criativo é um moinho, as palavras são o trigo, e meus textos são o pão que o idiota amassou. 

Amanhã talvez eu tenha uma nova história, hoje eu só tenho reclamações a fazer.  

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