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| Da série Rio Baile Funk - Favela Rap 2005-2023, de Vicent Rosenblatt |
Eu queria ser o sujeito suado na pista de dança se movendo certo ao som do brega, mas era apenas um observador tímido. Havia uma profusão de pessoas invadindo o bar para participar da festa, cada vez mais corpos se amontoando no centro da sala, suando e se agitando juntos, e eu num canto espremido testemunhando aquilo com assombro e inveja, tragado para dentro daquele furacão quando fui buscar uma cerveja no primeiro bar aberto da rua. Daí fiquei, quando vi um casal se esfregando com tanta ferocidade ao som da banda local que foi preciso sentar e respirar um pouco, recuperar a compostura, deixar a cerveja gelada descer pela garganta seca, num momento em que minha boca já tinha um gosto estranho de tanto beber ao longo do dia, espécie de saturação do álcool no corpo. O certo mesmo era ter tomado uma água, e nesse caso não teria parado no bar para ver a festa de brega e forró, só o destino foi me amarrar ali, dizendo "Senta quietinho, meu garoto, que o mundo é mágico e você é cético". Meu olhar se prendia no rebolado das mulheres, na desenvoltura dos corpos, e eu também dançava minha vista sobre os homens, seus músculos destacados pelo suor, o tom de suas peles, a maneira como seguravam e guiavam as parceiras naquela muvuca. Desejo, inveja, ciúmes, tudo de uma só vez. Estranho momento em que fui me perder nas ruas da cidade praiana procurando beber um pouco mais para esticar o pôr do sol até a hora de dormir. Meus amigos já estavam no hotel tomando banho e pensando onde jantariam. Mas o calor na pele, o sentimento febril de busca e ânsia, me impediam o caminho até o quarto, me impeliam cada vez mais fundo por ruas desconhecidas e bares menos turísticos. Eu reconheci por alto o rosto de um ou outro vendedor do dia, mais fácil eu guardar seus rostos novos que eles lembrarem de mais um turista na praia pechinchando preços. Foi assim que me senti mais à vontade no bar, como se fossem conhecidos o suficiente para gerar segurança. Quase dois mil quilômetros longe de casa, viajando graças a um pacote promocional dessas empresas de turismo cretinas e cheias de taxas ocultas. Os vendedores estão certo, sou pechincheiro mesmo, e odeio pagar mais que o necessário em produtos obviamente superfaturados. Deixo a generosidade com meu irmão mais velho, herdeiro das empresas do meu pai, e vivo de um ou outro bico como analista, programador, desenvolvedor de sites, designer, growth analyst, é tudo termo bonito no currículo para receber uma proposta de seis meses e sair ao final do ciclo com muita gratidão pela oportunidade de crescimento. O brega toca cada vez mais alto e as paredes do bar parecem se curvar para ceder espaço a mais clientes. Já não era mais o bar que eu eu via, era um espaço imaginado, inimaginável, imaginário, fantasmagórico, o espelhamento de estereótipos e fantasias, um desdobramento entre folhas da ficção e da realidade. Ninguém bebe nada nesse momento, e o vocalista da banda está tão entregue à performance que sacode o corpo em tremeliques xamãnicos - mas o destaque vem mesmo da banda, em especial da guitarrista, com o cabelo cacheado preto caindo sobre o corpo e quase tapando a guitarra, como se houvesse um profundo mistério sobre as notas tocadas, como se houvesse vergonha por incitar aquele bacanal. Minha saída estava fechada pelas dezenas de corpos no caminho, e só me restava continuar sentado com a lata vazia. Nem o caminho ao bar estava aberto. Quanto mais pessoas, mais quente, até um ponto insustentável no qual se podia sentir no ar o sabor do suor dos corpos, o cheiro de cada um ali, suor e sal, maresia e brisa fresca, o calor de uma tempestade varrendo a praia, e um ar tremeluzindo intensamente sobre nós. Fechei meus olhos e respirei fundo, aspirando toda aquela energia e movimento, toda aquela vivacidade incontida, pronta para espirrar pelas ruas quando a última nota tocasse; e a banda previa o momento final de êxtase da sua performance, entendia que desligado o som o bar voltaria a ser o mesmo de antes, morto em silêncio com apenas dois ou quatro bêbados em mesas de plástico contemplando a solidão de suas mágoas; então as músicas continuavam, se repetiam, se esticavam, e o fim era adiado um pouquinho mais de cada vez, um pouquinho mais a cada refrão. Cerrada a vista eu só ouvia e tinha os pelos do braço eriçados resvalando em outros corpos, foi quando senti o toque suave de outra pele, e em instantes o resvalar intencional do mesmo corpo. Estava de pé e não lembrava há quanto tempo. Com tanta gente ao redor ficava difícil não me mover, ficava fácil entrar em ritmo, e nesse desajeito eu fui me encaixando com esse outro corpo, ainda preso no mistério da escuridão dos olhos. Na minha cidade eu tinha uma promessa de amor, mas aquilo ali era o presente vivo a negar passado e futuro, só existiríamos enquanto tocasse a banda, enquanto vibrasse o baixo, e as mãos suaves e pequenininhas me seguraram pela cintura para corrigir meu ritmo, para me puxar ainda mais para perto. Eu sentia agora só o perfume da figura oculta sob meu nariz, nossos corpos já sobrepostos, pouca roupa, muita pele, e assim começaram a subir os lábios pelo meu peito, pelo meu pescoço, até encontrarem a minha boca disposta a um beijo. Entre o delírio da noite e o deleite do caos dá-nos o universo a entropia como lição para que amemos a ordem mas nos regozijemos nos acasos fortuitos. O perfume inebriante marcado pelo olhar lânguido e em segundos crê-se que a vida se pauta pelo melhor dos momentos. Onde a música encontra a dança e os corpos próximos se orbitam em um baile a dois e tantos outros passos. Paixão é gula e desejo, o apego ao corpo como ápice da existência, e eu amo a paixão e devoro tudo, hedonista em negação, assumido apenas nas férias, sob a desculpa de que quando não é necessário bater ponto ou cumprir horas, é possível ser finalmente eu - não só mais um asset na lista de stakeholders cumprindo metas dentro do budget de acordo com o briefing nessa lista interminável de termos, e dias, e reuniões desencontradas, e entregas de criativos tediosos, e toda falsidade do que propõe a mente. Pois é apenas verdade o que nos toca os corpos, é apenas real a carne e o gozo, e qualquer ideia, qualquer pensamento, não passa de um mago fantasmagórico alimentando o caos e a mentira. Só era verdade aquela língua dançando na minha, aquele corpo rente ao meu, e nesse pulsar de neutrôns no vazio do espaço éramos a explosão de energia que fundamenta a vida na entropia do Absoluto. No fim, a banda agradeceu ao público e saiu sem se despedir.
O bar estava vazio, e gelado. Ventava forte prenunciando chuva. A brisa corria meu corpo e invadia minha camiseta quase rasgada. Abri meus olhos para um novo mundo. Éramos dois nas mesas vazias empurradas para o canto da sala. Um senhor com a pele torrada pelo sol e as mãos calosas recolhia os cabos em cima do palco improvisado. Os cabos se espalhavam como tripas de uma criatura morta.
