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No glorioso país de Amatsu, cercado entre as montanhas, estava um templo cuja única função era guardar uma pintura. A obra, considerada tão sagrada por seus monges, nunca podia ser vista, sua mera presença já os obrigava a viver encurvadas em eterna reverência. Mais do que isso, muitos dos ascéticos, com medo de infortuno acidente que os exibisse acidentalmente a pintura, se cegavam completamente, perfurando seus olhos tão rápido quanto viesse o medo de encarar divina imagem. "Não era pertinente", muitos diziam, "nublar os olhos por medo, e melhor seria se todos o fizessem por respeito", mas os acólitos mais jovens não tinham entendimento suficiente e optavam por uma solução performática que os atendesse.
Décadas se passaram e o templo, bem como o país, foram esquecidos - um ruiu e o outro foi consumido pelas chamas.
Faz uns anos, veio aos jornais a manchete de que o herdeiro da linhagem real decidiu reclamar o trono e o território - aclamava-se rei; ele propunha uma busca pela história perdida de sua terra natal e de seus antepassados. Após longa busca, continuada pelo filho do rei sem pátria que morreu sem ver seu anúncio encontrar realização, encontraram o velho templo.
Havia apenas um monge vivo, velho, surdo, anêmico e, óbvio, cego - ele caminhava pelos corredores, delirante, murmurando cânticos pela metade.
O príncipe, estudioso, conhecia a história daquele local, e lera quando jovem as lendas sobre o quadro sagrado - mas também tinha em si o pecado da ganância que tanto maculara a linhagem de antepassados e levara ao fim do domínio de Amatsu. Ele ordenou a execução do velho monge e revirou os corredores decrépitos sem sucesso. Consumido por um fervor incomum, ordenou aos pesquisadores e exploradores que não saíssem dali até surgir diante de seus olhos a pintura. Sem chance de argumentar contra o príncipe e, principalmente, seus soldados armados, a equipe de campo permaneceu no templo.
Mais anos correram a Terra, e o príncipe também faleceu, dessa vez sem deixar herdeiros. Há quem diga que a equipe de busca permanece entre as montanhas de Amatsu, com medo de rifles fantasmagóricos, e já loucos pela procura sem fim; muitos, convertidos pelo local, se cegaram e tateiam os corredores tentando proteger o quadro nunca encontrado por eles.
*Exercício criativo desenvolvido para o 2º Moinho Cultural presencial organizado pelo Ecco Cultural como parte da prática de desenvolver uma história com início, meio e fim em 20 minutos.
