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Nunca fui capaz de identificar árvores, vejo uma parede verde diante de mim e sei apenas o que são folhas, troncos, casca, raízes, flores... Não saberia diferenciar uma palmeira de um coqueiro, e reconheço uma bananeira apenas no dia em que seus cachos estão cheios. Daí, sinto-me desconectado da natureza. Dentro da cidade, todos os prédios têm nomes de pessoas incógnitas em minha memória, mas vivas nessas placas, são grandes monumentos. Desistimos das pirâmides, mas ainda admiramos a grandeza. Toda rua tem um nome, e quase todo nome é uma pessoa, abaixo, apenas uma indicação de seu passado. Quando cruzo esses espaços, sou um navegante com o astrolábio quebrado. Em uma noite qualquer passo por uma calçada onde um casal se abriga do frio sob cobertas sujas. Reúnem suas parcas posses e tentam sobreviver à noite. Do parque de onde vim o som dos carros era ensurdecedor, enlouquecedor, quis buscar o silêncio e dei de cara com o inexorável progresso humano. Faz um calor sufocante mesmo quando já são dez da noite. Eu abro o celular e vejo quatro mensagens que não desejo responder, mas preciso. "O homem é um animal enjaulado, o coração é um animal selvagem", rabisco a ideia de um poema fraco enquanto sigo minha trilha.
"Você viu o último episódio da série?", meneio a cabeça. Ultimamente apenas vago inconstante pelas horas livres dentro de casa. Meu celular é uma prisão. O pequeno ecrã a coleira afiada me surge como continuação para um poema que inicialmente pensava em sentimentos. Nunca tive foco. "Vai sair amanhã de tarde?", "Devo sim, por quê?", "Preciso de algo do centro", combino os detalhes do frete. Torno-me cada dia mais antissocial. Vi Medianeras e me senti contemplado pelas neuroses. A diferença é que Buenos Aires ainda é uma cidade mais mística que a minha, um grande fosso, Tártaro urbano, impedindo voos para longe daqui. São tantos vales nessa região que o olhar nunca esbarra em um ponto longínquo, mesmo o céu aqui parece curto, fechado. Ainda é tarde da noite, tenho muito o que fazer, mas meu corpo dói. Me arrasto para o chuveiro e dele para a cama. Tento mentir para mim mesmo e dizer que o dia seguinte será diferente, mais produtivo; sei a verdade, estou um pouco deprimido, meu cachorro morreu faz duas semanas e meu quintal parece abandonado sem seus latidos chatos.
Certos animais são desejados, outros apenas surgem. O meu era claramente do segundo tipo. Vira-lata tradicional, uma cor esquisita, uma cara esperta, uma personalidade barulhenta. Era carente, agitado, destruía canos, bolas de futebol e mijava fedido não importava qual ração consumisse. Eu gostava desse cachorro, foi o único que tive. Nunca fui de animais de estimação, Brabo só apareceu na minha vida - e eu na dele. Entrou por um buraco no muro e ficou - fechei o buraco depois de decidir adotá-lo para que não fizesse o caminho oposto. A adoção mudou minha rotina de festas e celebrações, o quintal passou a ser do Brabo, as reuniões começaram a ser dentro de casa, o cachorro não deixava ninguém se divertir sem que ele fizesse parte e, em alguns momentos, convidados bêbados fizeram questão de deixá-lo entrar em minha cozinha, ampliando a balbúrdia das comemorações. O cão morreu tão repentinamente quanto primeiro surgiu na minha vida. Em determinada noite, comeu sua ração premium, deu duas voltas correndo ao redor do quintal e deitou - ele olhou para mim uma última vez, antes de virar o focinho para o céu e, em três respiros, parou de se mover. Tentei levá-lo a uma emergência veterinária, mas não conhecia nenhuma, a busca me tomou tempo demais, estava irrecuperável quando cheguei à recepção de caríssima clínica no centro da cidade. Enterrei o Brabo no quintal. Foi necessário quebrar uma parte do chão de cimento e encontrar um pedaço de terra por onde não corresse cano por perto. O local agora tem o nome dele escrito por cima, está cimentado novamente.
Eu saía para caminhar com o meu cachorro toda noite, tentava gastar alguma energia do pobre coitado, que vivia encaixotado naquele espaço de dezesseis metros quadrados e nunca tinha a oportunidade de ver o mundo. Perto da minha casa havia um parque municipal bem arborizado, era nosso local de descontração quando eu tinha tempo. Houve uma fase em que Brabo latia a noite toda, e os vizinhos começavam a mostrar descontentamento. As saídas noturnas foram minha solução para o problema, e realmente funcionou até o dia da morte do pobre cão. Dávamos algumas voltas no parque municipal, o cão mijava e cagava pelo caminho, me obrigando a recolher seus dejetos mais desagradáveis, e ao chegar em casa recolhia-se em sua casinha, rabo abanando de alegria. Não latia mais durante a noite, mas eu me desdobrava para garantir sua rotina mesmo sem ter uma para mim - com um emprego sem regras e uma péssima personalidade, sempre me foi difícil acompanhar o cronograma mundial. Virei muitas noites sem dormir porque perdia a lua no céu e quando dava por mim o sol já havia me flagrado desperto.
No final de um ano aí para trás, a prefeitura começou um programa de consciência ecológica e sustentabilidade. Botaram placas identificando várias árvores e espécies ao redor da cidade. No ano seguinte, trocaram a administração e, por aparente vendeta, os novos responsáveis cortaram todas as árvores marcadas por placas, mesmo as protegidas por lei. Não sei que fim deu isso, porque entraram com os pedidos de preservação depois de cortados os troncos e vendida a madeira. Era mais fácil machadar o prefeito e deixar uma mensagem clara. As árvores do parque municipal se mantiveram, visto que eram quase independentes da administração central. Melhor para mim, e para o Brabo, que mijava em jequitibás, jatobás, mangueiras, paus-brasis e sabe-se lá mais o quê. Eu realmente não sei identificar árvores, salvo uma exceção ou outra, como quando estão com frutas, por exemplo. Mas mesmo assim um pé de mexerica e um pé de laranja são idênticos, muito similares a um pé de limão, e tudo isso só é diferente de uma espada de São Jorge porque eu tive uma namorada da Umbanda e ela me explicou quinze vezes que não era para deixar o Brabo comer a planta ou teríamos problemas espirituais. Único problema que tive foi não tolerá-la mais, enjoei das conversas místicas e do hábito terrível de roer as unhas do pé, me dava enjoos incontroláveis, até o dia em que finalmente vomitei ao ver a cena e decidi terminar o caso de oito meses.
Eu encaro a cidade, sou mais uma peça sem nome, como as árvores sem placas ou as ruas ainda não mapeadas nos bairros mais pobres. Como hábito, boto um crachá com as minhas informações e saio para minha caminhada noturna, na esperança de que me reconheçam e me cataloguem em um livro qualquer.