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crônicas rápidas de dispositivo móvil #5 escritor agiráfico

Eu sinto dor todos os dias. Em um dia bom, a dor começa no meio da tarde e consigo chegar ao final do horário de trabalho, em um dia ruim já desperto com uma dor que irradia do pescoço para a escápula, ombro e o cotovelo destros. Não é uma dor fácil de ignorar, ou contornar, pois não posso mover livremente o pescoço, nem mesmo passar algumas horas direto sentado. Vão-se os planos de futuro, tudo permanece incerto, exceto, claro, o desconforto diário. Os analgésicos tradicionais nada podem contra esse diagnóstico, paracetamóis e dipironas são inúteis; mesmo o Tramadol tão útil em alguns casos, por vezes, mais me alegra que alivia. 

Na série de televisão norte-americana Dr. House, o protagonista homônimo sofre de dores crônicas na perna e possui forte vício em Vicodin, um opióide comum nos EUA. 

Passo tanto tempo deitado na mesma posição em meu quarto que a forma das pinturas e quadros pendurados já começa a se gravar na minha cabeça, estão se cravando pelo hábito. Aqui vão algumas das recomendações para meu dia a dia: não fazer esforços físicos grandes, utilizar cadeira de escritório ergonômica, usar telas apenas sentado em posição reta com visão direta, dormir em colchão semiortopedico, utilizar proteção de pescoço ao longo do dia, utilizar travesseiro do tamanho correto em relação ao espaço pescoço-ombro, não utilizar celular olhando para baixo, e uma série de outras coisas mais. Aqui vão as recomendações para reduzir o desgaste sobre as vértebras: praticar Pilates, fisioterapia, musculação, RPG e atividades de fortalecimento, não correr, não saltar, evitar atividades de impacto como artes marciais, não pôr peso sobre os ombros. 

No filme "Batman: O cavaleiro das trevas ressurge", o homem-morcego é ferido gravemente na coluna durante embate com o vilão mercenário Bane. O personagem passa dois meses se recuperando em uma prisão escondida em país remoto.

E que problema é esse que fustiga essa área tão importante quanto o pescoço? Sou vítima infortuna de uma degeneração das vértebras C4, C5, C6 e C7, com ainda um acúmulo de outros problemas como o pressionamento da medula, desgaste do disco, e mais uma série de outras pequenas aflições que não fui capaz de decifrar no relatório médico. Isso, claro, apenas no pescoço, ainda tenho mais algumas possíveis hérnias espalhadas pelas vértebras torácicas e lombares. Sustento meu corpo sobre uma torre em ruínas, no topo, um castelo abandonado. 

No anime Cyberpunk Edgerunners, o protagonista encontra um implante vertebral capaz de dar a ele poderes e habilidades sobrehumanos. 

O nível de degeneração apresentado é precoce. Mais de um médico estimou o adiantamento da condição em 15 anos em relação ao padrão normal de um problema já mais comum pelo estilo de vida ocidental contemporâneo. Frequento médicos que atendem idosos, em sua maioria. 

O titã Atlas carrega o céu sobre os ombros para que Urano nunca mais se deite sobre Gaia, sua mãe. Sempre encurvado sob sua responsabilidade, a entidade está fadada ao serviço exaustivo.

Não consigo mais trabalhar oito horas consecutivas por dia sem sentir dor, não consigo ficar deitado por muito tempo sem encontrar posições específicas (e ergonômicas), não consigo ficar em pé muito tempo. Que postura me resta para habitar o mundo? 
Me sobram histórias para contar, e consumir, quando minha coluna permite. É uma infelicidade tremenda ver minha vida e juventude limitados a um diagnóstico cretino como esse, vivo hoje pesando quanta dor vou sentir no dia ou quais os riscos de determinadas atividades. 
Contudo, ao menos, não tenho hemorróidas. Graças a Deus não tenho hemorróidas. Desistirei de tudo se um dia tiver hemorróidas. A dor eu tolero, a indignidade de um cu doído eu não suportarei. 
Até logo e nos vemos em outro post. 

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