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Conto: Riacho (parte 1)


  Barulho de água vem do fundo. No quintal, o garoto se equilibrava sobre uma caixa de madeira. Ele usava uma blusa azul, short curto, botinas de plástico, um boné verde e óculos de grau. Tinha uma aparência abobalhada, amplificada pela falta do dente da frente e o constante catarro no nariz, mas seus olhos estavam sempre atentos e focados. Do lado dele, uma garota, mais alta, mais magra, um vestido rosa com tutu de bailaria branco, cabelo em rabo de cavalo, descalça, tocando um balde de água como tambor e os dedos ágeis feitos de baquetas. "Vai logo! Pula no vulcão, pula no vulcão", um grito de coragem e o menino se lançou em uma piscina de plástico vazia. "Ah! Tá queimando, tá queimando, a poção parou de funcionar", ele se debateu no plástico ainda úmido para demonstrar o que dizia. "Essa não, você ficou imune à magia, eu vou te salvar", com um gesto, a garota pegou o balde-tambor ainda com um resquício de água e tampo no amigo, "Tá salvo!"

Comemoraram o final da grande aventura e olharam ao redor do quintal, para os vários cenários da peça encenada, orgulhosos do feito. Era a primeira vez que completavam uma história inteira sem que os pais os interrompessem e pedissem para reunir os brinquedos e se preparar para partir. Pior ainda, quando mais jovens, eram obrigados a tomar banho, escovados e lixados para remover as sujeiras do quintal. Brincavam sempre na parte da frente da casa, com a rua de olho neles. Vizinhança tranquila, o mais perto da roça da infância da mãe do menino que acharam. O problema era os fundos, um pedaço de mata com um riacho fundo correndo entre pedras. Não era lugar de criança brincar. Por isso, fizessem qualquer bagunça, não seriam repreendidos se continuassem à frente da casa. 

Os dois ficaram em silêncio alguns segundos enquanto juntavam alguns brinquedos mais espalhados pela grama alta. Não haviam muitas crianças na região para furtar deles alguns espólios, mas cães e gatos eram tanto amigos nos momentos de lazer quanto inimigos quando se esquecia algum presente de plástico do lado de fora da casa quando caía a noite. Vários bonecos de soldados e super heróis foram mastigados pelas bestas noturnas, resultando em cisões e amizades selvagens desfeitas. O pior desses vilões era com certeza o cão da casa, Shrek, gordo e preguiçoso para tudo, exceto mastigar tudo que pudesse pôr a boca. O cachorro, nos dias de visita, ficava preso no canil, deitado eternamente em berço esplêndido, patas curtas cortando o ar quando sonhava sabe-se lá com o quê. 

"Quer tomar um suco?", "Tem de quê?", "Não sei, tem que ver, acho que tem de manga", "Não gosto de suco de manga". Jogaram os brinquedos no balde e olharam ao redor. De repente, um som chamou a atenção. Do final da rua, vinha um carro preto, devagar, oscilando pelas duas faixas como um tubarão atrás de sua presa. As crianças ficaram fascinadas. O carro inteiramente preto, perolado, vidros que não deixavam à vista os ocupantes, calotas prateadas e brilhantes como estrelas no céu. E o lento e sinuoso guiar na rua calma, mal se ouvindo o motor. As crianças não sabiam, mas um carro como aquele rugia como uma besta, um dragão, um monstro de metal e bancos de couro. 

Tão inconsciente que nem se percebeu, os dois amigos deram juntos alguns passos na direção da calçada, da rua e do carro preto. Agora, ele já não tinha mais um tamanho pequeno, avantajava-se diante dos dois e estava poucas casas de distância. O reflexo de toda a rua se via na lataria, era um espelho sombrio, distorcido, do mundo real. De onde estavam, as crianças ainda não se enxergavam no metal negro. 

O carro continuava devagar em sua passeata pela rua, um monstro terrível, inorgânico, mas ainda feroz. Depois de alguns segundos, o carro parou de frente a uma casa, ainda distante das duas crianças, únicas testemunhas na vizinhança daquela visita. 

Foi quando começou o ensurdecedor ronco do motor, o rugido da besta esfomeada, a anunciação e o prenúncio do estranho dia que aqueles dois teriam. O primeiro ronco fez sobressaltar as duas crianças. O segundo arrepiou os pelos de seus corpos pequenos. O terceiro ronco gelou o sangue em suas veias e artérias ainda em formação. O quarto grito do carro negro disparou o coração dos dois, sentiam-no na boca, e não conseguiam se mover. Os minutos desaceleraram. Era tempo do sexto ronco, e dessa vez o carro arrancava de onde estava, pneus cantando, fumaça ocre surgida das rodas e asfalto. 

Mas o destino tinha para os dois outro plano. Da janela de trás, ouviram um grito. "Ricardo, Renata, entrem, ENTREM, AGORA!" Quebrou-se o encanto do veículo negro, e as duas crianças, horrorizadas, mais por instinto de autapreservação que uma consciência certa daquilo que as ameaçava, deram as costas para a rua e correram sem dizer nada. Renata chegou primeiro à porta, bateu contra o batente e girou a maçaneta com as duas mãos. Depois, veio Ricardo, um pouco mais lento, mais desajeitado... mais curioso. Antes de passar pela porta e ser pego pela orelha pela mãe, ainda deu uma última olhadela em direção à rua. Quis primeiro ver se seus brinquedos estariam à salvo, mas seus olhos voaram na direção do carro preto. Por trás dos vidros escuros, uma silhueta no banco de trás se insinuou, talvez parte da imaginação infantil impulsionada pelo terror que os adultos infundiram desde cedo, talvez reflexo das luzes do meio da tarde cortando pela copa das árvores da rua. 

Fosse o que fosse, a silhueta tinha olhos brilhantes e alaranjados, e encarava o menino com curiosidade.

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