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Certas coisas parecem pagas em sangue. Meu livro é uma delas. O processo de financiamento coletivo e lançamento fluiu de certa forma tranquilo e sem desafios, uma vitória sem questionamentos. Mas desde a confirmação dos 100% necessários para a publicação, passo por uma tsunami de azar. Marés vem e vão, não poderia dar esse nome ao que ocorreu com essa publicação. Também não entrarei aqui neste mérito já que não cabe a muitos esses detalhes sórdidos. Dedico-me então ao lançamento em si, e ao evento que reuniu amigos, familiares e até mesmo alguns desconhecidos investindo no meu projeto artístico.
Mais do que isso, os convido para uma aventura nos desdobramentos de minha mente.
O primeiro ponto digno de nota aqui é a estranheza que me causa o lançamento do livro. Até agora, duvido desse sucesso e dessa capacidade de execução. Em um outro nível, eu duvido da minha qualidade enquanto escritor. "Pois lá vem o deputado da Coitadolândia", a maioria pode pensar, mas parte do processo artístico está envolto em insegurança. O Réquiem é uma retomada à literatura, mas ainda não é um projeto no qual me sinta amadurecido artisticamente, literariamente. A percepção que tenho é de que à minha literatura falta brio, substância, ainda não sou capaz de conectar e criar sentenças densas dessas que marcam, repletas de significados e de um entendimento do português enquanto material para criação - um talento marcante por exemplo na produção do meu amigo João Gabriel Paulsen. Por outro lado, eu me sinto parcialmente confiante na minha capacidade de contar histórias. Se me falta o domínio sobre as palavras para construir verdadeiros monumentos no lugar de parágrafos, sou ao menos capaz de desenhar uma narrativa que possua em si uma experiência aprazível. O Réquiem possui algumas histórias refinadas desse modo, outras ainda necessitariam muitas mudanças para alcançar um nível de qualidade que me deixasse tranquilo.
Outro ponto que permeia minhas dúvidas habita a própria configuração enquanto artista independente. Inevitavelmente, sou obrigado e me perguntar: as pessoas compram meu livro porque acham que podem encontrar nele algo de valor ou o fazem apenas porque eu sou, bem, eu. Essa transferência de valores da minha pessoa para o meu trabalho, claramente, afeta o julgamento do livro e das histórias ali narradas. Mas até que ponto isso irá me prender? Irão as pessoas realmente satisfeitas com meu trabalho passá-lo adiante? Há alguém assim? Investir em literatura é sonhar com algo fugaz e fugidio. Lembro-me agora da sensação de espanto, inveja e certa repulsa que experimentei quando, adolescente, descobri que famosa escritora de livros para garotas adolescentes era de minha cidade. Ao mesmo tempo em que parecia haver esperança para uma carreira literária de sucesso, isso só parecia possível através de uma literatura que não me agradava. Óbvio, o sucesso pode ser relativo para cada um. Hoje, a ideia de vencer na vida me vem apenas na forma de um chalé próprio, uma imensa estante de livros e a paz de poder desfrutá-lo no meu tempo de vida enquanto o planeta acaba. Mas consigo chegar a este ponto com meu trabalho? Quais são os caminhos até lá? Voltar a publicar é parte certa deste processo, mas os demais passos ainda me são nebulosos.
Diverti-me no lançamento, no dia 15/08, às 17h, no Meiuca, em parceria com a Banca Vera. Destaco aqui essa parceria porque sem esses dois espaços eu não teria conseguido realizar o evento. Tive toda uma estrutura e uma paciência enorme para um evento que se esticou demais e foi muito além do horário de funcionamento da Vila Irineu. O grande problema do evento foi justamente me subestimar e acreditar que as pessoas não iriam. Pensei que veria apenas uns 15 rostos e passaria o restante das horas conversando de maneira amena - pelo contrário, fiquei quatro horas assinando livros e pensando em dedicatórias que, no final, eram mais mensagens crípticas e delírios de um homem cansado que qualquer outra coisa. Lamento aos que receberam seus livros por último, eu estava tão desgastado que mal me lembro do meu caminho até em casa no final da noite.
Mas como é curiosa a sensação de publicar um livro. A Pergunta no Espelho nunca teve esses méritos e honras, nem sequer merece. Renego este primeiro livro que, desde sua concepção, nunca teve em si um sentimento honesto. Agora, me direciono para as últimas etapas desta publicação: preciso entregar as unidades já reservadas aos apoiadores e às escolas. Por fim, tenho ainda 15 a 20 unidades não vendidas que, supostamente, serão meu lucro nessa empreitada.
Acho que menti quando comecei esse texto, não há tantos delírios assim quando olho para trás.