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Historietas - Orgia, escola de padre e motocicleta

 Orlando decidiu ser padre numa orgia. Complicado assim. Longe de arrependimentos, da sensação de pecado ou de algum sinal de divino, essa completa mudança na vida veio através de outro sentimento. O boato que segue na pequena cidade de X, que alguns insistem em afirmar ter ouvido através do próprio padre, é de que Orlando antes de ser um eclesiástico de respeito, teve sua vida no mundo. Ora, para muitos, até aí era de se esperar. Não estamos mais no século 18, são poucos os jovens que, desde tenra infância, são prometidos a Deus. Por essa razão, e muitas outras, o jovem - que até então não era padre -, vivia como qualquer outro de sua idade, entre a vadiagem natural à idade e os desejos inerentes ao corpo. Importante destacar que nem mesmo natural de X ele era. Tanto que sua mudança para a cidade foi recebida com a incredulidade de quem não acredita ver perturbada a tranquilidade da rotina interiorana, mesmo quando essa rotina é em si atravessada pela morte do padre anterior. Devaneios, retornemos a Orlando. 

Tinha ele seus dezoito anos quando por fim lhe caiu o convite dessa orgia, resultado de seus anos adolescentes convivendo com roqueiros, esqueitistas, esquerdistas, e toda uma ralé - opinião de sua família, claro. Orlando em realidade mal saía de casa, e sua orgia surgiu como ideia de um dos membros do grupo de estudos do vestibular que, cansado das exigências extremas do programa de graduações, quis organizar uma confraternização para os 10 estudantes. Nosso padre e protagonista não imaginava as maravilhas que encontraria nesse dia. Até este momento, mal teve contato carnal com outras pessoas, que dirá várias simultaneamente. Sua única namorada prestou-lhe o favor de uma única transa antes de se mudar para estudar matemática no Rio de Janeiro. Deixou-o só e confuso com todos os sentimentos naturais da juventude, mas isso não foi suficiente para desestimulá-lo da participação no encontro da turma. Orlando reuniu uma muda de roupa extras e levou todos os itens da lista organizados pelo representante do grupo de estudos. 

Deram a festa e tudo correu como planejado. Ainda melhor, inclusive! Orlando encontrou alegrias nunca antes vistas, sentiu coisas... viu coisas... e quando estavam todos cansados, prontos para partir, ele se percebeu só, mais só do que jamais esteve. O jovem teve em seu peito aberto um enorme vale de melancolia criado pelo contraste entre tudo que viveu naquelas quatro horas e tudo que vivera antes. Que faria ele então à partir daí? Como iria seguir adiante sabendo que não viveria todos os dias da mesma forma? Aquele sentimento tão intenso, resultado do clímax sexual e psíquico, para um jovem tão tímido, tão calado, foi aterrador. Agora, a vida tinha uma máscara sobre si. A realidade era uma emulação de sofrimento para pequenos cenários de prazer, condensados sob anos e anos de rotinas torturantes, cobranças exageradas e nenhuma perspectiva de melhora. A memória daquele dia já se esvaía, no momento de seu surgimento, maculada pelos pequenos traumas de sua pequenez. Foi quando Orlando olhou para o alto, desviando a vista dos corpos nus no chão da sala onde estava, procurando respostas maiores que si. Lembrou-se das aulas de catequese e de como o padre Julianos falava sobre a exaltação divina sobre os fiéis. Aquelas palavras, aquela descrição intensa, uma alegria infinita preenchendo o corpo de uma ponta a outra enquanto, simultaneamente, entregava a percepção de ser amado, entendido, abraçado pela benção divina... tudo isso lembrou a Orlando uma orgia. E na sua ignorância juvenil tão característica da idade, o jovem entendeu que só sentiria o mesmo sentimento recorrentemente se entrasse para a igreja. 

Foi quando largou os estudos para a faculdade e focou nos estudos para seminário. Entrou no ano seguinte, manteve sua ambição escondida, passaram-se anos e parte da motivação se esvaneceu. Esqueceu-se, pobre Orlando, da razão de seu sonho e do motivo de sua escolha. Os anos passaram e apagou no coração do recém-formado padre aquela busca tão humana, tão intensa, pela alegria de gozos contínuos... Chegou até mesmo a se pegar relembrando, assustado, como se não o pertencesse mais, aquelas quatro intensas horas de orgia. Reformado padre, passada a vida mundana, seu único gozo seria o divino - encontraria clímax apenas na alegria de servir a Deus. Foi o que quis querer, mas no coração de todo homem vive uma besta incontida - mesmo afastado dos prazeres terrenos, em parte por juramente, em parte por esquecimento, Orlando viu nutrir na sua alma a necessidade de algo mais.

Os dias calmos chegaram com a transferência para a pequena cidade de X. Sem nada para fazer além de missas à pequena população e uma ou outra resolução de problemas locais como mediador neutro, pensou em como se autoindulgenciaria sem cair em pecado. Tinha suas proibições, claro, então seria necessário pensar em uma forma de estimular sua alegria e alimentar o monstro que guiava seus desejos sem romper as promessas feitas a Deus. Em uma quinta-feira, final da tarde, foi dar extrema unção a um importante fazendeiro da região. Foi necessário retornar na garupa da moto de um dos peões da fazenda. O vento no rosto, a batina esvoaçante, a sensação de extrema liberdade, perigo e velocidade, todas essas sensações se agarraram ao coração do padre como garras de predador e exigiram atenção. Não teve como ceder, fez auto-escola e conseguiu para si, como o salário da paróquia, uma pequena moto.

Correu pelas estradas de terra, batina ao vento, corpo magro agarrado ao guidão da moto, como o espírito vingador representante de Jesus Cristo na Terra, tudo isso porque, quando jovem, não quis entrar na faculdade sem transar direito. 

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