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Nós, que sempre habitamos o ruído, nos despedimos em uma valsa permeada por silêncio. Bolívia, 2004 eu acho. Falávamo-nos já por mensagens crípticas que diziam adeus, só não nos permitíamos decifrar temas tristes. Recorrente engano nos livros de amor, tomamos uma viagem para pedir desculpas por todos os erros não ditos - seria nosso bota-fora cármico, reconciliação distante dos locais que até então nos causavam pânico, induziam ao conflito. Pelo que me lembro, optamos por passagens baratas e caímos em La Paz, sentindo-nos sem ar, passamos os dois primeiros dias no hotel enquanto adequávamo-nos a altitude. A única companhia era uma televisão de tubo e o som chato do ar-condicionado velho. Eu não entendia nada nas revistas da mesa do quarto, enquanto você, fluente em espanhol, entendia-se naquele mundo.
Demos as primeiras saídas na cidade numa quinta-feira, e passamos por todos os museus próximos antes de voltarmos, sem fôlego, para nosso canto, recôndito, no centro da cidade. Toda a novidade local me parecia excêntrica, eu que nessa época amava Miami e o Mickey Mouse, e por isso me senti testemunhando um novo mundo, alienígena, tão vizinho quanto Outro. Esse apego ao que vivia talvez tenha facilitado o desapego de nossa presença, facilitado nossa saída pelas tangentes, visto que de frente ainda nos prendíamos. Te conheci na padaria do bairro, lendo jornal com suas amigas de turma que eu já encontrara antes em uma das festas da faculdade. Longo flerte, curta história, fingimos não nos importar com aquela aproximação. Eu era ambicioso e você já era rica, por isso os anos me deixaram amargo e receoso: vivia sob a perspectiva de me provar para o seu sucesso. Antes da viagem para a Bolívia, seu pai me chamou de canto e perguntou o que eu faria da vida depois de ser promovido (era um boato à época, e na verdade fui demitido depois de voltar de férias). "Quero comprar uma casa e casar com sua filha, finalmente", foi o que respondi. E vi nos olhos dele o que na época interpretei como deboche, mas depois entendi apenas como cinismo. Ele nem sequer se via capaz de desmerecer nossa relação porque não via nela valor algum para reduzir a algo menor - também, pudera, os dias antes de embarcarmos estavam tão tensos que parecíamos gatos com pelos eriçados.
Corri as ruas da Bolívia numa noite chuvosa para encontrar um restaurante aberto e achar uma garrafa de refrigerante. Foi um capricho seu e uma vontade minha de obedecer - às vezes, havia nesse jogo de subserviência e dominação um estímulo ao sexo e à reconciliação. Tentávamos, pelo choque, recomeçar as coisas que deram certo no início. Já não éramos os mesmos do começo, contudo, e voltar a este local conhecido nos era estranho, como se vestíssemos a pele de outros e representássemos papéis clichês e cansados. Mas voltemos ao jogo, para não nos perdermos na memória, e ao que encontrei naquela noite. Derrapei com meus tênis velhos numa rua e tomei um tombo humilhante. Voltei ao hotel com o refrigerante, as roupas molhadas, e já desagradado da ideia do jogo de papéis, mas você não leu de pronto os desafetos contra a noite que eu criara, e por isso continuou alheia ao meu cansaço. Tomei um banho, mais para me recompor que me limpar, e voltei ao quarto.
Foi quando te vi, e foi quando me viu. Creio ter sido nesse dia que nos vimos de fato pela última vez. Saí e a encontrei sentada na cadeira perto da porta lendo uma revista local, você já vestia um pijama velho, eu continuava nu. Ainda assim, me pareceu mais exposta do que eu, como se sua expressão focada nas palavras em espanhol, a pouca pele à vista por baixo do pano usado, e a posição honesta e pouco ergonômica sentada sobre uma das pernas, te entregasse mais que minha pele totalmente à vista pudesse mostrar. Ressenti-me também de não provocar desejo ao me pôr pelado diante de ti, e foi quando senti uma última vez que o desinteresse era a pior recusa.
Mas algo mudou, talvez um giro no motor do ar-condicionado me tenha chamado a atenção, e te tirado do foco completo com que lia. Na televisão ligada, uma forma de mantermos ruído entre nós, evitando o silêncio como quem evita a morte, começou uma música antiga, lenta, romântica. Você se levantou e, sem dizer nada, se aconchegou ao meu corpo ainda parcialmente úmido. Abraçou-me e te abracei de volta, nossas formas presas nesses círculos de mão que pressupõem um pacto de carinho. Encostamos os rostos, bochecha com bochecha, e bailamos sob o som da valsa na televisão. Do lado de fora, uma imensa tempestade carregava mundo inteiro rua abaixo. Por fim, restou apenas o chiado da falta de sinal e, pela primeira vez o barulho nos incomodou. Um de nós apagou a tela da TV sem se desvencilhar do abraço. Ficamos ali, parados, ainda balançando nossos corpos por mais alguns minutos, imersos na percepção um do outro, absortos no que o silêncio finalmente proporcionara. Senti-me compreendido, como também sinto que te compreendi, e foi então que nos afastamos na vida antes de nos afastarmos fisicamente. Vi que minhas faltas te cavavam dores como suas certezas me cravavam raiva, e enxerguei entre nós um abismo que nunca havia percebido, mas que sempre esteve lá; esse imenso vale nós apenas cobrimos com ignorância enquanto tentávamos sustentar uma única corda sobre a escuridão abaixo.
Dormimos felizes naquela noite, mas quando a viagem acabou, olhamo-nos ainda dentro do seu carro e, quase em uníssono, som mais expresso por suspiro que por nossas palavras, repetimos "acho que já deu", expressão que usávamos quando era a hora de sair de uma festa ou encerrar discussão cansada. Vivemos isso, uma longa festa cujo som central era o barulho de nossas brigas casuais por problemas que nunca entendemos direito.
Te vi outras vezes mais, como por acaso, pela cidade, e por algumas viagens, mas não mais compartilhamos danças, nem ruídos, e nossos silêncios agora eram como testemunhas da morte de nosso amor.