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crônicas rápidas de dispositivo móvil #4 pilates, trânsito e compras

Sol vermelho de uma terra infértil. Recomeçamos. Entre os dígitos de uma tarde quente, relembro. Vamos. 

Pilates é uma atividade curiosa, essa mistura de fisioterapia com atividade circense e tortura medieval oferece reabilitação para jovens senhores como eu que, na falha da percepção dos prejuízos de um home office contínuo, apodreceram a olhos vistos em pouco tempo. Também é o Pilates um espaço para velhos e velhas recuperarem o que perderam com os anos de descaso. Padrão curioso: homens perderam mobilidade, mulheres perderam força - há algo na imposição de papéis de gênero que nos leve a isso? Enfim, entre grunhidos e um esforço descomunal, encerrei a sessão passada levemente enjoado, creio que pela alimentação no R.U. Além disso, minha preocupação com hábitos saudáveis me levou ao mercado. 

Dirigir em Juiz de Fora é sempre um parto. A cidade é cheia de ruas apertadas, com tráfego sem planejamento para o volume atual, com muitos pontos de gargalo causados pela distribuição geográfica dessa cidade de morros. O pior aspecto não é o que a cidade impõe aos condutores, mas o que essas pessoas por trás dos volantes criam. Como é possível uma cidade com um processo de certificação de habilitação tão difícil (e questionável) produzir motoristas tão inaptos. Os juizforanos são cegos às setas - não entendem o que significam e para que servem. Uma seta para a direita é tanto ignorada pelos condutores que querem mudar de pista quando agem quanto é ignorada por aqueles que, na faixa desejada, permanecem e até aceleram para não te deixar passar. Perdi a paciência inúmeras vezes já com esse comportamento. O Rio de Janeiro, pasmem, o Rio de Janeiro funciona nesse aspecto. E, curiosamente, o juizforano que tanto se inspira na cultura carioca e faz questão de renegar à herança mineira, bem como a influência de Belo Horizonte, não é capaz de absorver esse aprendizado. 

Estresses à parte, eu cheguei ao mercado e fiz compras empolgadas. Enchi o carrinho com o que vi pela frente, criterioso com as escolhas que deverão me alimentar até outubro, e me perdi pelos corredores. 

Existe um elemento curioso nessa experiência de compras: elas me retomam minha infância e a ida com meus pais aos mercados de bairro. Os corredores eram maiores naquela época, as prateleiras mais altas, e apesar da metáfora do mundo encolhido na vida adulta ser batida, não consigo deixar de pensar nessa imagem para compor o quadro. Correr pelos corredores com carrinho em mãos e um orçamento em mente é chato, mas ainda há uma magia nessa possibilidade de escolha. A propaganda capitalista sobre os países comunistas, em especial, com a ideia de diferentes produtos disponíveis nas estantes, pode parecer a relação óbvia - e há muito para dizer sobre isso; mas o que eu penso é, na realidade, mais simples: escolher o que vou comer e como vou preparar cria uma âncora na realidade e torna o futuro palpável. Mesmo com todas essas reflexões, minha conta ultrapassou o esperado e voltei para casa com sentimentos (e ingredientes) agridoces.

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