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Crônicas de Juiz de Fora: Noite de Sábado

Escrevo isto numa segunda-feira, dedos congelados enquanto digito, e penso na agradável porém tediosa noite de sábado que tive. 

A programação iniciou bem, promissora, com a peça Sujeito Estranho, do grupo Zona de Público, que ocorreu no Museu Ferroviário às 19h. A trama, adaptada de um filme de Hitchcock, conta sobre a vida de um casal atormentado por um psicopata. 

Finda a peça, era necessário decidir o que mais fazer, visto que a noite mal se iniciara. Foi então que se iniciou o meu tormento. O que fazer, eu e minha dama, agradável companhia, na cidade? As opções de lazer ameno para casal pareciam se restringir a jantares em restaurantes superfaturados ou idas ao shopping, que nem sequer oferecia boas opções de filmes no cinema para complementar nosso passeio. 

Acabamos optando por um popular e famoso restaurante local cujo lema se baseava na sua lo ha história e relação com Juiz de Fora. Ambiente agradável, local movimentado, e entre a queda das folhas das árvores fazendo papel de chuva para encantar nossa vista, exploramos o vasto menú em busca de uma opção. Selecionada a refeição, e um tanto entediados, nós voltamos à primeira página do cardápio que, entre outras coisas, recontava de forma mais aprofundada essa longa história do restaurante. 

Qual não foi minha surpresa ao ver, ali, na parte sobre historia do Brasil, o cretino termo Revolução Militar de 1964. 

Não vou fingir que sou um sujeito tolerante e repleto de amor no coração. Evito gastar minha energia social com pessoas que não agreguem - nem comigo, mas com o mundo. E não há pessoa que menos agregue, e mais perturbe todas as conquistas da humanidade, que um filho da puta que acredite numa Revolução Militar quando o país, todos com o mínimo de informações sabem, passou por um regime ditatorial fomentado pelos Estados Unidos da América durante a Guerra Fria para impedir movimentos sociais de esquerda. 

Não fosse a cozinha do lugar realmente boa, a comida teria amargado no prato, e mesmo assim saí de lá com a sensação de ter financiado um ignóbil e sua prole a continuar na terra prosperando. 

Talvez eu devesse ter deixado o tédio vencer o final da noite e, após divertida peça de teatro, ter me retirado para minha casa. Talvez, tendo optado pelo shopping sem vida e sem experiência de alimentação genuína, teria comido com menos insatisfação.

Esta cidade me desencanta todos os dias, mesmo com tantos charmes escondidos nas ruas (sobre os quais falarei outro dia).

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