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Este conto veio de uma conversa com um colega, ainda em 2015. Escrevi-o com base a premissa inicial sendo a frase-título da pequena história. Dentro do Réquiem, este conto, este trecho, compunha a segunda fase, antes da segunda história de Dante e suas desventuras amorosas, ainda no contexto do surgimento da paixão. É a isto que este recorte se propõe: aquele frio na barriga, o coração acelerado, e as mais diversas sensações que uma paixão em estágio inicial desperta. Particularmente, hoje acho o conto datado e ele era feliz demais para se enquadrar no Réquiem. Mas segue sendo um registro histórico do desenvolvimento da minha escrita e desse projeto em especial. Então cá está.
ERA FELIZ UM MÊS ATRÁS E NÃO SABIA
Eu acordei naquele dia e fiz um bom café, como não fazia frequentemente. O sol brilhou bastante, mas não estava quente ainda. Um pássaro cantou de uma árvore distante mais abaixo na minha rua. Tudo estava quieto, ou talvez estivesse calmo e eu confunda sempre o silêncio com quietude. Alguns caos vêm calados.
Eu era feliz um mês atrás e não sabia.
Hoje as coisas mudaram, mas antes voltemos um mês no tempo.
Saí para trabalhar e estava dentro do horário com folga. Comprei pães frescos na padaria, eles cheiravam bem. Haviam vagas disponíveis na rua de meu emprego, eu estacionei perto das portas de vidro da agência onde gastei seis anos da minha vida usando meu tempo para ganhar dinheiro.
Não é um emprego ruim, tenho um escritório só meu, horários flexíveis, eu gosto do que faço. É uma empresa pequena de comunicação digital. Eu tenho como função escrever os textos para os clientes, textos que serão divulgados em páginas e blogs. Depois de um tempo a responsabilidade dá espaço à mecanização e eu nem penso mais no que faço, só escrevo, deixo fluir a informação necessária.
Foi quando, naquele dia, um mês atrás, as coisas mudaram um pouco. Eu fui chutado para fora de meu status quo. Enquanto atendia a uma demanda bem simples para aquela tarde, tive que receber um cliente. O responsável pela parte comercial estava de folga e os outros membros da empresa cumpriam com o básico do atendimento naquela semana. Entrou uma cliente pela porta principal, de vidro, e eu só percebi quando ela chegou ao meu escritório.
Devo dizer que não sou dado a exageros ou coisas do gênero, mas ela era linda e quando a vi pela primeira vez foi como se o tempo tivesse parado. Não só era linda como era também inteligentíssima e engraçada, passei mais tempo conversando sobre amenidades do que sobre as propostas de assessoria em comunicação digital em si. Gastei meu tempo e esqueci de meu serviço, simples até aquele momento, que deveria ser finalizado até às seis. Eram cinco e meia quando ela saiu do escritório. Eu corri com meu trabalho para terminá-lo a tempo, fechei a empresa e fui para casa.
Eu era feliz um mês atrás e não sabia, especialmente porque ainda não tinha começado a pensar nela. Foi só no dia seguinte, enquanto me arrumava para ir à empresa, que notei minha preocupação excessiva em me arrumar e ficar apresentável. Devo admitir que ri desconfortável com minha tolice e dei de ombros; era bobeira, eu pensava, só queria estar bem para o ambiente de trabalho. O que eu escondia era qual o real motivo para estar bem, para quais clientes. Foi um dia arrastado pela falta de trabalho e a ansiedade não admitida pela ausência dela.
A semana correu de maneira semelhante e eu me afundava em teorias e sonhos acordados. Dizem que a mente vazia é oficina do diabo, mas, na verdade, é oficina da paixão.
Na semana seguinte, logo na segunda-feira, eu fiquei encarregado de ligar para ela e falar sobre as propostas de serviço. Eu liguei, nós conversamos, ela decidiu visitar a empresa uma segunda vez. Eu suei frio? Um pouco. Eu tremi? Talvez. Eu sorri o resto do dia? Com certeza. A visita foi marcada para o dia seguinte, e no dia seguinte eu me observei tomando cuidado com a minha aparência novamente. São muitas as manias na mente de um apaixonado, e eu estava verdadeiramente apaixonado por ela já naquele momento; entenda paixão como um interesse puro e intenso, ou como quiser, não é da minha conta. Era isso. Ela cativava, eu a queria. Eu a queria um mês atrás e já sabia.
Tivemos a reunião, ela aceitou a proposta. Negócio fechado, até um quase-nunca-mais. Eu mesmo fiz aquele trabalho, e fiz com bastante empenho, devo declarar, mas nunca ficava bom, não ficava profissional. Eu queria dizer naquelas linhas sobre comida vegetariana o quanto eu a queria. Louco, eu? Entregado demais aos anseios mais primitivos. Não a segui, não a chamei, nenhuma ligação efetuada. Até mesmo os e-mails eu pedia que outros escrevessem em meu nome. Não era profissional, mas isso não impedia de me consumir por dentro. Eu estava louco um mês atrás e não sabia.
Quando, nessa semana, fui a uma festa, meu trabalho de assessoria estava feito. Nossa consultoria é bem rápida, a maioria dos clientes pede uma pré-produção e lida com o resto depois. Eu a encontrei na festa. Bebi uns bons dois ou cinco shots para ter coragem, tomei coragem – se me permitem o trocadilho –, e fui conversar com ela, que não bebia. Conversamos, conversamos bastante. E não passou disso naquela noite. O álcool é algo fácil de se notar em pessoas fracas como eu. Marcamos para ontem um café na avenida que cruza a cidade. Ontem as coisas foram diferentes. Eu era feliz um mês atrás e não sabia. Hoje eu sou mais feliz do que ontem e, se era apenas feliz, hoje estou realizado, porque ontem nos beijamos depois de horas de conversas que funcionavam como um prolongamento, uma antecipação, aos bons segundos que estarão por vir, espero eu.
Você pode apoiar o financiamento coletivo do meu livro de contos Réquiem Para Um Amor no link a seguir: ACESSE AQUI
