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Conto - ELETRICIDADE HUMANA [Financiamento coletivo Réquiem Para Um Amor]

Este conto foi descartado da versão final do livro Réquiem Para Um Amor. Contudo, ele já foi revisado. Tendo isso em vista, e a necessidade de continuar falando sobre essa história até o financiamento acabar, vou lançar aqui o texto na íntegra para leitura gratuita.

 ELETRICIDADE HUMANA

Eletricidade corre pela pele em momentos especiais como aquele que Vitor Junior vivenciara às cinco horas e quarenta e dois minutos de uma tarde nada destacável no segundo sábado de julho. Não fosse a eletricidade correndo pela pele, estaria tudo normal. Mas a eletricidade correra e ele se admirou com ela, era algo mágico, fora do normal, encantador. Há muitas coisas que os físicos sabem no presente e saberão no futuro, mas entre elas não está a poética da vida simples. Vitor sentiu percorrer pelo corpo não uma energia a percorrer elétrons, uma reação capaz de gerar campo, com valores, mensurável e previsível conforme certas leis. A eletricidade de Vitor era uma analogia à mais indescritível das sensações, talvez por isso utiliza-se expressão de caráter científico aqui, pela falta de outras noções melhor aplicáveis. 

O fato mais marcante nesse evento de sábado não cotidiano foi a tranquilidade com que os envolvidos lidaram com a situação. No caso em questão, às cinco horas e quarenta e dois minutos, havia uma dupla, contando Vitor dentro do par. Ela, a mulher responsável por indescritível sentimento aqui caracterizado como eletricidade, presente desde dez minutos antes atrás dele na fila da lanchonete, ganhou seu papel não como gerador causal de emoções, mas personagem-chave nesse enredo tão curto. Lena, uma mulher sobre quem não entraremos em muitos detalhes pois isso não veio ao caso anteriormente, estava igualmente sozinha na fila da lanchonete. Com isso, supõe-se junto a Vitor que eram ambos solteiros e estavam com fome. Descrito isso, seguiremos em frente com a narrativa a partir da eletricidade percorrendo o corpo dele.

– Me desculpe, eu acabei derrubando seu refrigerante – Lena falou de maneira tímida, preocupada com o que acabara de acontecer. Ela sentia culpa pelo pequeno acidente, nada relacionado a remorso ou melancolia, culpa apenas por um erro factível e comum.

– Não se preocupe, eu posso encher ali de novo – e Vitor, quando falou, não sabia se sorria para tranquilizá-la ou se a encarava perplexo com o que se passava nele. 

Ficaram em silêncio alguns segundos, daqueles constrangedores abismos sociais do qual ninguém escapa sem alguma ajuda. O Deus Ex-Machina envolvido nesse caso foi a senha do lanche de Lena, que se adiantou para buscar o pedido exposto no balcão. A mulher também sentira a eletricidade entre eles. Como um fio condutor ou uma pilha, aquele tipo de sensação precisava de um receptor e um gerador. 

Lena seguiu na direção de Vitor, sentado sozinho em uma mesa para dois no canto direito da lanchonete, o canto sem janelas. Ela sorriu para ele, ele sorriu de volta, sentaram-se juntos dessa forma. Que mal teria conversarem um pouco? Talvez ela descobrisse uma forma ou um gesto para recompensar o rapaz – nem tão mais rapaz assim – pelo refrigerante derrubado. De pequenos acidentes criam-se grandes epopeias, Helena de Tróia foi uma pequena desculpa para os gregos entrarem em guerra, o amor de Dante foi uma pequena justificativa para fazê-lo descer ao inferno e ascender aos céus. Assim segue toda grande narrativa. Nesta narrativa, o acidente resultou em eletricidade nos dois, talvez até entre os dois, e números de telefone trocados. Pouco tinham em comum, mas davam-se bem de alguma forma. 

Sete e meia Vitor chegava em casa sozinho, esse não é um desses contos de conquista. O rapaz sorria, sentia o corpo se eriçar, pela expectativa de esperar pelo dia seguinte, e por ligar para a mulher que conhecera horas antes em um evento infortuno. O número de telefone estava anotado no celular, o contato salvo com cuidado. Choveu naquela noite, mas isso pouco importa a quem quer saber o que aconteceu depois. Na verdade, melhor seria pular para o outro lado da cidade, onde Lena estava na sala do próprio apartamento comendo sorvete e vendo televisão. Um ator coadjuvante em uma série de comédia lembrou-a de Vitor, com um pequeno sorriso a moça sentiu um arrepio quente percorrê-la. 

Ela pegou o celular para enviar uma mensagem, mas ali já estava o nome dele com uma mensagem ao lado. Um relâmpago pousou estrondoso em um para-raios próximo, mas não havia fagulhas suficientes nele que competissem com aquela entre Victor e Lena.

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