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Resenha "O Iluminado" por Stanley Kubrick - Eu não chegaria perto do Jack Nicholson nem mesmo com uma arma

 Assisti nesse final de semana ao clássico do cinema "O Iluminado". À parte de De Olhos Bem Fechados, nunca havia assistido nada do Kubrick. O filme, em resumo, trata da ida de uma pequena família a um hotel isolado para que o pai, Jack, trabalhe como caseiro no local - fechado durante o inverno - enquanto também escreve seu livro. Com o tempo, Jack passa a enlouquecer e começa a ameaçar a vida de sua família. Paralelo a isso, seu filho Danny demonstra sinais de uma habilidade que é chamada pelo cozinheiro-chefe do hotel de Iluminação: um entendimento do mundo místico e uma conexão maior com as coisas ao seu redor. 


O filme é repleto de momentos marcantes já gravados na memória coletiva do cinema mundial. Kubrick dirige esse terror (com apenas 1 vítima) de maneira extremamente interessante. A tensão crescente, em especial nos diálogos de Nicholson, mostram um sujeito, aparentemente passível da mesma iluminação que o filho, perdido nos ecos e fantasmas daquele antigo hotel. Ao contrário da criança, que passa a entender os fantasmas como imagens sobrepostas à camada real, Jack se perde nesse mundo e entra de cabeça na realidade imaterial do hotel, tornando-se por fim mais um elemento fantasmagórico ali. 

Há ainda um milhão de outras interpretações possíveis sobre o filme, camadas mais superficiais como violência doméstica e misoginia também estão presentes. Jack destrata a mulher o filme todo e parece não levar as vontades da mesma em consideração - chega ao ápice da misoginia ao chamá-la de "depósito de esperma". É o tipo de coisa que Stephen King devia escrever nos anos 80 para chocar os leitores ou talvez para retratar o espírito de uma época, ainda persistente em núcleos misóginos de adolescentes que repetem esse tipo de pensamento em larga escala na internet. 

Vale a pena assistir ao filme em suas quase duas horas e quarenta minutos, na versão remasterizada disponível no HBO MAX. 

De Olhos Bem Fechados continua sendo o melhor entre os filmes do Kubrick que assisti. Na próxima semana, devo me atualizar com 2001.

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