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É outro fim de ano e eu passo meus dias ansioso com a mudança no calendário. Uma simples troca de número, momento protocolar da humanidade - não contamos nossos dias desde a criação do Universo, mas datamos pelo nascimento do hebreu mais famoso de todos o grande amigo JC. Todo ano, sem exceção, eu fico ansioso. Não que isso seja algo raro, estou ansioso o tempo todo, vivo sob um nível de estresse que não condiz com a minha rotina. Já me acostumei a isso, como também me acostumei a ideia de chegar ao final do ano com uma grande pilha de metas não realizadas. Desde o fim do Pergaminho eu vivo assombrado com a culpa pelo fracasso de um projeto (e o fracasso de dezenas de outras coisas na minha vida) que me impede de seguir em frente sem estar com o pescoço torcido olhando para trás. E, falando em pescoço, este foi o ano da descoberta dos meus [vários] problemas de coluna. Tantos na verdade que se soma à pilha de preocupações diárias a constante vigília sobre meus movimentos. Nas duas vezes em que parei no hospital e passei horas com medicação intravenosa repleta de opioides praticamente ineficientes para impedir a sensação agonizante de agulhas sendo enfiadas nos meus nervos, considerei os sofrimentos passageiros - "foi apenas um alongamento incorreto, não pode ser nada demais". Erro rude. Quatro vértebras no pescoço agora migram sabe Deus para onde, um disco na parte torácica começa a desaparecer e minha lombar assusta todo especialista que visito ("você é muito jovem para ter isso" dizem todos com um ar de pena pouco profissional). A parte mais irritante desse problema não reside nem sequer na descrição "crônico e degenerativo" i.e.: apenas estabiliza e piora mais lentamente. A parte mais irritante é justamente o medo do presente e o terror pelo futuro: qual vai ser o próximo deslize cometido a me por duas semanas deitado sem virar o pescoço? Eu me tornei um sujeito amedrontado por conta disso. Nunca fui particularmente corajoso, mas as limitações impostas agora me deixaram em um nível vergonhoso de precaução. E uma pessoa mais sensata pode contraargumentar aqui, numa conversa previsível:
- Mas, João, isso é o básico, qualquer pessoa no seu lugar tomaria essas atitudes. Você está fazendo o certo que é cuidar da sua saúde, e sair do seu emprego para isso, evitando passar longas horas na frente do computador é o melhor no seu caso.
Que outro emprego vou arranjar, considerando que não posso pegar peso, fazer movimentos excessivos (muito rápidos, muito intensos, no momento nem sequer posso pular ou correr) ou ficar o tempo todo sentado? Quer dizer, não estou disponível para trabalhos braçais nem para trabalhos de escritório, posso me oferecer como peso de papel seguindo a esquete de Joseph Climber dos Melhores do Mundo. Uma reclamação ousada depois de 2 anos de pandemia e duas guerras grandes (além da dezena de outras guerras menos noticiadas) ocorrendo no mundo. Eu não sou uma criança palestina mutilada para me sentir no direito de questionar minha sorte na vida, por isso, vou me resumir aos pontos mais filosóficos e pessoais que, dentro desse contexto, tornam este blog sobre uma virada de ano ansiosa menos como a visão que o Bo Burnham apresenta sobre si mesmo enquanto homem branco cisgênero e heterossexual - eu concordo com as problemáticas mas este não é o texto para isto.
O que mais me incomoda em tudo na minha vida é:
"Não importa o que eu faça, nada na realidade é tão interessante quanto qualquer evento na ficção."
O mundo é um local incrível e cheio de maravilhas, eu não sou um niilista covarde escondido atrás de uma negação das experiências possíveis em uma vida decente. O problema é que as experiências disponíveis na vida real não são equivalentes ao que a ficção pode fornecer através da literatura, do cinema, dos videogames, da música - da arte em geral e que se foda a ciência e seus técnicos.
Mas eu acho que preciso reformular um pouco essa frase, ela é generalista demais, e excessivamente escapista.
"Nada na realidade me desperta tanto interesse quanto o a ficção."
Eu cresci lendo demais. É um problema meu e de outros amigos. O acúmulo de histórias numa única vida amarga o gosto da realidade. Aquela frase do George R. R. Martin sobre como um homem que lê vive mil vidas é só metade da coisa. O homem que lê vive mil vidas no lugar de uma e se arrepende de todas as suas escolhas. Nenhum amor é intenso o suficiente, nenhum ódio é realmente justificado, nada brilha tão intensamente quanto deveria e nenhuma treva é suficiente para fazê-lo realmente querer buscar a luz. O Universo possui regras, mas nossas vidas não são regidas por uma lógica linear e fechada. Não existem pontos finais. Tudo permanece e flui continuamente dentro de uma trama de narrativas sobrepostas e infinitamente tecidas e amarradas.
Odeio ser limitado pelas regras da realidade. Na ficção, no imaginário e no impossível, eu posso tudo. No mundo real, minha coluna se rebelou e se recusa a ceder ao sedentarismo. Na ficção, o mundo não está encurtado pelas limitações do meu corpo. Odeio ver minha liberdade podada por elementos fora do meu controle. Isso me deixa ansioso e estressado, sempre tentando planejar e evitar o próximo problema desconhecido que irá me acorrentar ao meu estado de vida atual.
Envelhecer é viver no mundo das suas derrotas, nenhum jovem acredita em perdas. Talvez seja esse o problema de 2024 e 2025 e 2026 e todos os anos de nosso amigo Jesus Christ até o fim da raça humana e a distante destruição do sol: todo novo ano é uma nova pilha de metas não realizadas, novas correntes impostas e o único mistério está em como seremos pegos. Ainda assim, vivo para ver um novo ano, e as coisas não podem ser tão ruins nos próximos 365 dias.