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Crítica Pluto na Netflix - Nada é mais humano que um robô

 Quando eu tinha uns 12 anos fui à Bienal do Livro no Rio de Janeiro e, na loja de quadrinhos, saí com alguns volumes diferentes, entre eles o Volume 3 de Astro Boy. Por quê? Porque era mangá e eu conhecia de nome, por alto, a história de Osamu Tezuka. Eu li na época e, obviamente, entendi muito pouco, já que a história começava na conclusão de um arco dramático importante. Ficou na minha estante todos esses anos como uma curiosidade, mas alguns meses atrás a Netflix divulgou o lançamento de Pluto como uma história derivada de Astro Boy e isso chamou minha atenção. Eu já havia lido alguns artigos sobre Tezuka e sobre sua competitividade extrema no mercado de mangás do Japão, tendo atuado em praticamente todos os gêneros desse estilo de quadrinho para não perder espaço para outros autores. Por conta disso, imaginei, ao começar a ver Pluto, que essa história fosse uma adaptação em Seinen (mangás para o público adulto) do próprio Tezuka do universo que ele criou (no original um Shonen de ficção científica) para não perder também esse mercado. Eu errei na minha suposição. A história de Pluto é de Naoki Urasawa, que adapta o arco The Greatest Detective on Earth através da visão do detetive Gesicht e transforma a história em uma narrativa de suspense e investigação, revertendo inclusive o viés muitas vezes utópico que Tezuka, na década de 60, apresentava em Astro Boy. 

Aqui, Astro é Atom, um dos robôs mais avançados do mundo desenvolvido pelo recluso e polêmico doutor Tenma

Usando como contexto a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, Pluto narra como os ciclos de ódio e violência se perpetuam no mundo futurista de Astro Boy após a invasão dos Estados Unidos da Trácia ao Império da Pérsia atrás dos robôs de destruição em massa. O paralelo é mais do que óbvio nesse caso, mas a narrativa se aprofunda não apenas nas disputas de poder entre nações ao redor do mundo, mas também do significado de vida, da consciência das inteligências artificiais, a capacidade de possuir sentimentos em um sistema artificial e o que realmente significa ser humano. É, dessa forma, ficção científica de alta qualidade, e considerando a baixa qualidade das últimas produções ocidentais desse gênero, não deixa de ser um agradável respiro de bom senso e roteiro. 

Pluto começa com o Detetive Gesicht sabendo da morte de um dos 8 robôs mais avançados do mundo Mont Blanc, e com o pedido da polícia da Alemanha para que ele possa investigar a morte de um advogado responsável pelo Tratado Internacional do Direito dos Robôs - basicamente uma declaração universal dos direitos de inteligências artificiais robóticas, reconhecendo-as como indivíduos detentores de direitos e deveres. A trama se aprofunda e Gesicht começa a ver uma relação entre a morte de humanos associados à guerra na Pérsia e o assassinato dos robôs mais avançados do mundo - uma a uma as grandes obras da engenharia robótica da humanidade são assassinadas, e o tempo para a resolução do caso vai se encerrando, visto que Gesicht é um desses 7 robôs. 

Ao invés de Astro, temos Atom, aqui, muito provavelmente por uma questão de direitos autorais. Esse robô começa como um personagem secundário, mas a trama de Pluto altera entre os personagens centrais conforme a história se desenrola e mais informações são adicionadas ao caso. 

Um dos elementos mais interessantes é o hábito dos robôs de emular ações humanas para garantir uma melhor integração à sociedade, como fingir beber, comer e até mesmo ir ao banheiro. Ao longo da série, enquanto somos apresentados aos grandes robôs da humanidade, North no2, Gesicht, Atom, Hercules, Épsilon, Mont Blanc e Brando - todos robôs homens, sabe-se lá porque (além de machismo) - vemos como cada um desses robôs foi afetado pela guerra na Pérsia e como cada um desenvolveu uma consciência de si e passou a ter traumas inseridos em seus softwares. A brutalidade da guerra para os robôs, obrigados a matar outros robôs já que não podem matar humanos, fez com que evoluíssem ainda mais seus sistemas de inteligência e se tornassem altamente conscientes sobre a falta de significado e razão para um conflito armado - neste ponto, tornam-se mais empáticos e sensíveis que seus criadores. 

Revelar mais do que isto é tirar do mistério da história seus méritos. Recomendo enormemente. 

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