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Essa história tem um quê mais pessoal que as outras crônicas, cujo objetivo é abraçar a cultura jovem da cidade: as festas, os encontros, os locais. Mas eu decidi começar com uma narrativa diferente das outras porque é justo um impulso à parte com o primeiro passo, um salto em direção a um movimento contínuo.
Tudo começa em uma noite qualquer, era 2018, ou talvez fosse 2019.
Naquela época, eu ainda passava boa parte dos meus dias correndo atrás de projetos de arte enquanto dividia minhas horas com um trabalho como MEI no marketing digital. Os dias eram dedicados ao trabalho para fazer dinheiro. Não era muito, apenas o suficiente para me manter já fora da casa dos meus pais em uma república que, por seus desdobramentos, merecia uma história à parte. Na parte da noite, eu corria Juiz de Fora com meus amigos, cruzando bares atrás de mesas de sinuca, me entupindo de Brahma latão e ouvindo o que tinham para falar. Eu tinha pouco a contribuir, na maior parte do tempo, estressado com a vida dupla e ambígua, nem artista nem assalariado, eu só conseguia xingar e reclamar quando falavam comigo. Ganhei o apelido de Pistolito. Foi também nessa época que meu cabelo começou a cair.
"Ih, ah lá, veio todo trajado", quem comentou na época foi o BRK Mallone, mas também pode ter sido o Jovem Saga ou o Set. Aposto no BRK. O Souza apareceu com um corta-vento novo, prateado, detalhes em preto. Peça nova, motivo de orgulho - e com razão, era um casaco lindo.
"Curtiu, né? Comprei ontem", a conversa seguiu pela jornada de aquisição. Não vale me estender aqui nessas minúcias, isso não é um retrato histórico. Saímos para a noite.
O objetivo daquela noite, imagino eu, era o Muzik. Na maior parte do tempo, só rodávamos o centro de Juiz de Fora para além da hora do bom-senso. Ruas vazias e um sentimento de abandono, os trajetos enfiados entre a Getúlio Vargas, a Rio Branco e a Independência (nunca Itamar Franco), sempre pareciam frios e hostis. Show de alguém ou uma festa temática. Entramos. O Muzik, como sempre, aquela entidade imutável de cerveja cara e clientes habituais com expressão leve de desentendimento sobre a superlotação do local, como se não entendessem os fluxos sazonais de popularidade da casa. Sendo um dos poucos pontos no centro da cidade com capacidade para receber shows e eventos culturais mediante taxa expressiva da portaria, o Muzik garantia que, mesmo depois de ser desolado pela povoação de estudantes de engenharia e direito atrás de festas com maior presença de mulheres, voltaria a receber festas e seus convidados habituais. O local tem história, já ouvi meus pais falando sobre o bar e o legado dos points LGBTQIA+ da cidade. Me distraio, mas é necessário apresentar um dos protagonistas dessa crônica.
Na minha primeira noite no Muzik, declamei poemas em um evento de literatura já extinto, o ECO. Quando voltei, pela segunda vez, em uma festa, vi um sujeito dormir sobre o próprio vômito em um banco de couro. Experiências múltiplas, um universo à parte. Descrever o que vi talvez passasse um ar recatado à narrativa, e não é essa a intenção. O melhor dos espaços da juventude em Juiz de Fora está justamente na falta de filtros e caótica experiência oferecida aos presentes. Enquanto meus amigos dançavam, eu ficava em um canto. Não sei dançar, então evito me mover para não chamar a atenção e quem sabe os cuidados médicos. No ambiente escuro do Muzik as luzes de festa batiam no corta-vento do Souza e geravam novas luzes, cores, diferentes lances luminosos dançando junto dos outros caras que dançavam junto das outras pessoas na pista apertada. Uma parte minha tinha inveja do corta-vento, a outra tinha inveja da dança. O ponto principal era o sentimento de deslocamento. Ninguém tinha parado para pensar no mundo e no que orbitava ao nosso redor, mas eu não dançava então me sobravam ideias ruins. Foi nessa festa ou numa outra que vi duas mulheres se agarrando compulsoriamente sobre a pista de dança enquanto a DJ incentivava. Uma delas era magra e pequena, parecia muito nova. Eu tentei me imaginar numa cena parecida, não conseguia, eu não tinha desenvoltura para aquilo. As duas pareciam bem alheias ao restante da festa, então desviei os olhos e fiz minha parte para que continuassem assim. "Empresta esse corta-vento aí", alguém comentou em algum momento. Já estávamos fora da casa de shows e saíamos pela Rio Branco subindo em direção ao Bahamas 24h. Era chegada a hora de comprar um sanduíche no mercado, repor as cervejas e procurar algum outro lugar.
Duas ou três da manhã, eu trabalhava no dia seguinte. Ainda assim, não queria ir para casa. Também não queria ficar na rua, ou ir para outro lugar. Juiz de Fora à noite é fria e hostil, com os prédios de diferentes movimentos arquitetônicos engolindo nossos pensamentos com suas fachadas feias e mal conservadas, mas ainda possui uma força sobre nós todos. Pare para observar a fila de postes infinitamente longa na Rio Branco, o som ruidoso de pneus no asfalto enquanto os motoristas de aplicativo correm de um lado para o outro atrás de corridas, ouça com atenção o ronco das motos enquanto os entregadores se arriscam em alta velocidade nas ruas vazias mas imprevisíveis, respire o ar puro livre do veneno do trânsito diurno e se deixe levar por uma besta eternamente adormecida sob os morros da Zona da Mata.
No supermercado, parei para ver meu reflexo em um dos espelhos no local. Minha roupa não combinava comigo, nem minha expressão, mas eu não tinha nada melhor para oferecer. Admirei meus amigos, bem vestidos e sorridentes, ao menos tivesse um corta-vento, pensava eu, e poderia manter aquela cara de desgosto. Mas sem roupa para chamar a atenção, ficava clara a cara de cansaço e o estresse acumulado, sem válvula de escape sadia. Comprei mais cerveja, iria esticar a noite até que alguém além desse o expediente por encerrado. Sem álcool, sentia sono, então bebia para me manter desperto, depois de um tempo a cerveja cortava minha boca e deixava um gosto quase azedo. Ainda era Brahma, só não era mais o que eu precisava. Passei as cervejas para os outros. RT falava de uma ida nova a São Paulo, contato com novos artistas, alguns faziam planos para novos pensamentos, eu mal conseguia pensar no que faria ao acordar (trabalhar seria a resposta). Quase perguntei onde comprar um corta-vento parecido, mas eu não teria dinheiro para aquilo (investia tudo em meus projetos artísticos - cerveja, saídas, beats e masters). Também não teria outras roupas para combinar, o corta-vento de nada adiantaria com bermudas cargo e tênis de corrida. Alguém sugeriu voltar ao Muzik, como quem sugere retornar ao fim do livro atrás de uma nova página.
Seguimos naquela direção, porque também não havia outra: pontos de ônibus eram para aquele lado. Pensei em entrar de fato na casa de shows mais uma vez. Todos desistiram. Vi por fim sumirem na noite as várias silhuetas, sendo a última figura a desaparecer na imensidão das ruas o Souza e seu corta-vento novo.