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A Viagem de Chihiro é um desses filmes que gerou impacto significativo na memória cultural das pessoas mesmo sendo "estrangeiro". E o estrangeiro, entre aspas, vem porque o nosso conceito de local está atrelado aos EUA, é claro. Não que isso seja positivo, mas essa discussão fica para depois. Voltando ao começo desse parágrafo: as pessoas podem não ter assistido, ou não ter gostado, mas muito provavelmente se lembram da imagem de divulgação de Chihiro, no trem, ao lado do Sem Rosto (os postêrs de lançamento variaram muito, com uma imagem da garota com os porcos ao fundo, ou Haku em sua forma humana e de dragão).
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| Meus pais têm esse DVD em casa e essa é a capa. Além disso, a nova dublagem me causou estranheza depois de 20 anos ouvindo as mesmas vozes. |
Ou então lembram de Yubaba... Ou do Deus-Rio... Ou do jovem dragão Haku... Ou da cena dos pais virando porcos... A Viagem de Chihiro é repleta de momentos marcantes que, para um público ocidental em sua grande maioria treinado nos vícios do audiovisual estadunidense, se torna perene graças a um "exotismo" sutil. Não tendo o referencial cultural para assimilar a obra através da condição pela qual foi feita, contexto social, geográfico, político, etc., ela, solta, passa a ser lida por um novo filtro. As condições iniciais de interpretação não chegam ativamente ao público, que precisa, com aquele produto, considerado estranho, imaginar seu texto e - principalmente - subtexto.
O que eu quero dizer com isso, ao menos no começo deste artigo, é que uma grande parte do sucesso de A Viagem de Chihiro, na minha visão, para além da distribuição em larga escala nos cinemas ocidentais e da alta qualidade da produção, se dá graças ao desconhecimento completo do público ao assistir o filme. É quase impossível, vendo uma produção hollywoodiana da atualidade, não prever corretamente ao menos um elemento de roteiro, um bordão clichê, um arquétipo etc. A falta de originalidade do cinema de massas estadunidense pode ser elemento para outro artigo, mas aqui o ponto principal é o referencial cultural ao qual somos apresentados.
As histórias que consumimos, as músicas que ouvimos, os livros que lemos, todos, em sua essência, são um fruto político da existência de seus criadores. Isso não é novidade. Mas o público também é produto do mundo que consome e das coisas que estão ao seu redor, o sistema se retroalimenta e, por consequência, também se satura. A fórmula Marvel de filmes apresenta ao público uma receita pronta cujo resultado é medido em níveis de aprovação, sites de compilados de críticas e valores de bilheteria. Há tanta criatividade nesses filmes quanto há potencial para estrelas Michelin em um Big Mac.
A Viagem de Chihiro traz um ar fresco criativo para a indústria ocidental, ainda que em 2002, ano de lançamento, o cenário fosse outro. Ao público acostumado às animações da Disney com princesas em castelos brilhantes e príncipes encantados, a figura de uma criança sozinha em um mundo hostil precisando sobreviver sem ser salva por uma figura masculina era GRANDE novidade. A mudança desse perfil narrativo nos filmes da Disney tem 10 anos. Os Estúdios Gibhli fazem isso desde a década de 80 (quando foi fundado) e sem a desculpa mercadológica de atender às demandas de consumidoras mais conscientizadas que já não se contentam mais com o mesmo tipo de narrativa que antigamente (e com as expectativas irreais que eram criadas).
Mas não é apenas na aparência mais superficial que o filme se destaca. Eu revi A Viagem de Chihiro um dia antes de escrever este artigo, e a ideia era falar dele de maneira completamente distinta, mas seguiremos com o atual argumento.
Há, especialmente nos primeiros 15 minutos de filme, um ritmo completamente diferente de apresentação de mundo. O silêncio na mata fechada onde a família para o carro, o túnel por onde apenas se ouvem os passos de Chihiro e dos pais - com uma pequena brisa varrendo folhas e o cabelo da menina -, o inicial deslumbramento com a campina na saída da antiga estação de trem, a cidade comercial repleta de restaurantes e completamente vazia... somos apresentados a um mundo estranho e mergulhamos nele junto com Chihiro para descobrir do que se trata tudo aquilo.
Essa é a parte mais calma do filme, à parte da transformação em porcos dos pais, vítimas da própria gula, mas se tornou - ao menos nessa nova visita - a minha favorita. Todos os planos e takes compondo aquele mundo me fizeram submergir ainda mais na fantasia impressionante do Miyazaki e de toda a equipe do estúdio.
É possível sentir a Terra respirando junto das personagens em tela e aquele estranho silêncio é também um arauto anunciando o mundo que se desdobrará diante da jovem garota. Para além disso, simbolismos comuns sendo parte integral da narrativa: cruzar a ponte como símbolo da entrada em um novo mundo e também de transformação, a cena nos banhos cujo teor é, em um subtexto explorado em alguns artigos que já li, sexual. Há em A Viagem de Chihiro um banquete de interpretações e símbolos passíveis de longos vídeos-ensaio no YouTube com teor altamente especulativo (feitos em um tom arrogante e assertivo de quem impõe à obra um significado apenas para se provar certo).
A jornada de amadurecimento da menina, que começa a aventura como uma criança mimada, medrosa e despreparada, passa por diversos desafios - aqui menos sutis que em outras obras famosas do estúdio, como Meu Amigo Totoro. Chihiro chega a quase perder o próprio nome em acordo Yubaba, encara de frente a corrupção de Haku e ainda decide, por conta própria, libertar o rapaz-dragão de sua maldição. Em poucos dias, ao voltar para o carro junto dos pais, a garota cruza o mesmo túnel da antiga estação completamente transformada e nós, como público, também.
