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Calor intenso, pequena névoa úmida vinda do solo. Chovia, mesmo assim, nada de apaziguar o tempo abafado. Ele, andando pela cidade, cruzava com os vários tipos na cena noturna. Gente indo para seus hobbies, gente voltando de seus serviços. Povo de tudo quanto é jeito. Um homem, com cara de quem trabalhava no ramo imobiliário pelo sapato de bico e blusa social, falava ao celular parado na esquina. Passou pelo sujeito e o ouviu falar brevemente com alguém que poderia ser entre a esposa, filha ou mãe. Nunca dava para saber.
Nosso protagonista cruzou a rua e seguiu em direção a... em direção a... não sabia ao certo. Apenas andava. Vivia em uma quitnet, um pequeno cubículo pouco simpático na baixa de um enorme morro num dos cantos mais remotos da cidade, e o quarto apertado não o comportava mais. Saiu de casa antes que começasse a gritar enlouquecido. Não tinha perspectivas, também não tinha dinheiro, mas isso era quase a mesma coisa. Respirou fundo, haveria de encontrar uma forma de matar o tempo que não fosse se matando. O verão deixa uma sensação desconfortável por cima dos ombros. É parte monstro parte diabo, oprime e seduz. Mesmo imensamente suado, esse sujeito sofredor se sujeitaria ao suor da pele humana se isso significasse sexo. Passou por duas mulheres com roupas de academia. Tentou imaginá-las nuas. Não conseguiu, distraiu-se com um rato saindo do bueiro, revirando o lixo e voltando para seu esconderijo. "Lá vai o Ratatúlio", comentou consigo mesmo baixinho. Tevez é o nome do sujeito caminhando, Fábio Tevez. Trabalhava em uma loja no centro, sempre atento aos clientes tentando furtar bombons. Nunca denunciava ninguém. Criança precisa roubar bombom, faz parte do amadurecimento. Além disso, era uma loja grande, franquia, eles tinham muitos bombons. Não só isso, mas 8 bombons já faziam o valor da hora do pobre Fábio. Duro e com calor ele continuou caminhando.
Um bar sujo numa rua lateral partindo da grande via do bairro parecia promissor. O sujeito tinha uns 6 reais no cartão de crédito cujo saldo máximo era uma mixaria, graças a Deus. Não sabia o que faria se tivesse um limite alto. Uma loucura, certamente. Conheceu um cara no trabalho que perdeu o carro numa dessas dívidas de banco, não soube negociar, achou que não precisava contratar um advogado e era só ignorar as cartas. Cataram dele o pequeno Fiat Uno 2003, uma pena, era a carona de Tevez para o serviço. Viu na porta do bar "Não aceitamos fiado nem viado". O homem tinha seus seis reais e gostava de mulher, mas preferiu não arriscar, era um ambiente hostil. "E ainda tem gente assim no mundo", murmurou sozinho. Sentiu-se bem com a condenação. Não que fosse particularmente progressista. Evitava ao máximo homens afeminados ou qualquer papo que pusesse sua sexualidade em xeque. Certa vez, um colega de trabalho pareceu flertar com Fábio, dias depois uma denúncia anônima sobre furto em loja acabou levando à demissão de justa causa do sujeito. Não sabiam quem teria acusado o sujeito, muitos apontavam para uma moça do caixa, antipática, mas ela sequer estava no dia do tal roubo.
Voltou a chover. A sensação esmagadora de que o verão duraria para sempre ou ao menos mataria todos os homens antes que acabasse persistia. Tevez decidiu continuar andando. A pele estava suja e grudenta, como a de uma lagartixa que se prende à parede e come moscas. Ele também não tinha o que comer em casa, talvez precisasse comer moscas. O ticket alimentação só valia em uns restaurantes fajutos no meio das galerias da cidade, em lojas velhas e decrépitas onde a comida mal tinha gosto - ou então estava repleta de sal. As pequenas e leves gotículas de chuvisco molharam a pele, serviram ao menos para misturar o suor ao ar e trazer um pouco de alívio. Era mais fácil acreditar no fim de todas as coisas que numa saída para uma vida tão merda. Fábio não acreditava em suicídio. Tinha uma certa culpa cristão e uma parcela de preguiça também. Por que tentaria algo contra si? Mais fácil passar outro dia, dormir com fome, voltar à pé para casa, caminhar para evitar o calor e, na hora de dormir, jogar uma toalha molhada no colchão e dormir sobre ela.
Não tinha estrelas para ver no céu da cidade. Muita luz e umas nuvens baixas de onde caía essa chuva modorrenta - gotas tão pequenas que se faziam estúpidas. Do que adiantaria então chover? Servia apenas para fazer voltar ao ar abafado da cidade aquela umidade desconcertante. Um halo de luz ao redor de um poste piscando dava à toda cena a decadência necessária para o final de um filme. Fábio não ia ao cinema havia dez anos. A última vez fora com uma namorada. Ele largou a faculdade para começar uma loja de camisetas com um colega e sócio. Foi roubado e ficou sem nada. A marca de camisetas decolou usando a desgraça dele como combustível. Quase quarenta anos numa quitnet dividindo parede com uma universitária que transava toda sexta e sábado e domingo fazendo muito barulho - ela não o deixava dormir com seus gemidos, palavrões e móveis arrastando. Tevez pensou que uma reclamação formal no grupo faria o som cessar, enganou-se, pioraram. Depois de um tempo, acabou se acostumando, chegou a desenvolver uma certa afeição ao som. Era um sinal de vida e prazer. Alguém naquele inferno quente aproveitava algo. Ele ficava deitado suando o corpo cheio de pelos desagradáveis enquanto olhava para o teto e pensava em todas as mulheres que nunca teria. Nesses dias, mesmo com o estímulo auditivo, não tinha libido. Começava feliz, terminava melancólico. Dormia sempre sem perceber.
Um ponto de ônibus, já bem longe da casa dele, agrupava umas seis senhoras que juntas conversavam baixo entre si - velhas amigas, com certeza, ou apenas companheiras de condução. Um mendigo passou pedindo dinheiro e era possível ver o desespero das idosas. Nenhuma deu a esmola pedida, o sujeito passou por Fábio xingando-as todas de cretinas. O cheiro azedo pela falta de banho do homem despertou o trabalhador de seu devaneio. Encarou aquela criatura imunda e desumanizada pela sua experiência na rua. Era um homem talvez mais jovem que ele, mais magro, com chinelos tortos, uma bermuda manchada de tinta e uma blusa muito rasgada. Ao invés de sentir pena, Tevez sentiu alegria. Não por ver na miséria do outro uma anulação de seus próprios problemas, mas sim por enxergar, ali, algo que considerou como a verdadeira sabedoria humana - eram todos vermes rastejando nas mesmas sobras, uns mais acima, outros mais abaixo. Irmãos de fezes, companheiros de desgraça, todos juntos em uníssono numa canção baixa e lamentosa repetida todos os dias enquanto o infortúnio raio da morte não os atingisse - Fábio percebeu que ele e o mendigo eram mais semelhantes que distintos. Considerou ele ali também aquelas senhoras umas cretinas enrugadas, cuspiu um cuspe branco e gosmento na direção delas. Depois, apertou o passo até o mendigo. "Camarada, aqui", gritou para ele. Foi encarado com desconfiança. Quem não teria a mesma reação do desgraçado das ruas? O tempo todo sendo visto como um desconforto e sofrendo de um tratamento mais baixo que o de um animal. As pulgas em um cachorro recebiam melhores olhares do que ele quando passava. Ser chamado assim, camarada, em tom tão fraternal, não poderia, pela experiência própria, indicar boa coisa. O outro homem, um espelho de Fábio, parou sob a chuva, a posição tensa e o olhar hostil. "Que foi?", "Quer um pão?", "Tem dinheiro?", "Apenas seis reais no cartão, acho que dá pra um pão".
Decidiram procurar por uma padaria aberta, precisaram andar quase 4 quilômetros para encontrar um estabelecimento desses. Ao chegar lá, Fábio entrou enquanto o mendigo, que não teve o nome requisitado, ficava do lado de fora encarando de maneira abertamente desagradável e azeda todas as pessoas que passavam pelo local. O trabalhador pediu dois pães com manteiga, mas na hora que foi passar o cartão, teve o pagamento recusado. Encarou por alguns segundos a mulher do caixa até afirmar, de maneira desconcertada, que precisaria devolver os pães. A mulher, se compadecendo daquele drama humano se desenrolando à sua frente, e também cansada após 8 horas de serviço atrás de um balcão lidando com todo tipo de gente, deu os pães como um sinal de boa fé entre almas camaradas - ou foi o que ela pensou. Fábio saiu da padaria com as duas embalagens marrons com a tradicional mancha de gordura da manteiga marcando o papel e entregou uma para o mendigo. "Pão com manteiga?", "Foi o que deu pra comprar", mentiu Tevez. "Então tá", "Na verdade, nem deu pra comprar, o cartão não passou, a mulher acabou me salvando ali e deixando os pães por conta da casa". Silêncio entre os dois. Chovia um pouco mais agora, o som da chuva na calçada era um tamborilar insistente. O mendigo olhou para Fábio enquanto enfiava todo o pão com manteiga na boca de uma vez só. Em seguida, sem aviso, deu um soco no sujeito e saiu correndo e gritando "Cretino".
