Pular para o conteúdo principal

Crônica - Ian Sad: Obsessão, Rock e breve biografia

Há muito tempo buscando algo mais 

No dia 28 de Outubro de 2022, véspera do tri campeonato do Flamengo, dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil que deu a vitória ao Lula, o Bar da Fábrica em Juiz de Fora recebeu um evento temático de Halloween com bandas de rock da cidade, incluindo o vocalista Ian Sad.

Mas eu vou voltar um pouco no tempo antes de falar desse show. 


Cresci em um ambiente familiar muito positivo, sempre estimulado a exercer minha criatividade e explorar o lado artístico. Desde pequeno, crio histórias em quadrinho e escrevo (a música é uma adição bem recente). Não fui o único, contudo, a ter esse tipo de criação. Entre meus amigos de infância, legado passado por nossos pais que foram, também, amigos de infância, a grande maioria experimentou a mesma liberdade para ser o que quisesse. Isso inclui um dos vocalistas e atrações do show no dia 28 no Bar da Fábrica, Ian Sad. 

Eu e Ian possuíamos grandes diferenças ainda enquanto crianças. Morávamos longe e nos víamos uma ou duas vezes por ano em festas de aniversário ou quando em férias, quando nossos pais nos largavam juntos por uma semana ou mais. Nos momentos em que compartilhávamos de algum tempo, sentávamos no chão esparramando diversas folhas de ofício A4 e desenhávamos nossas histórias e personagens favoritos. Uma de nossas principais diferenças era a maneira como trabalhávamos esses hobbies. Eu sempre fui o tipo de pessoa com abordagem holística, me interessando por tudo que fosse possível alcançar no momento; o Ian, por outro lado, tinha um foco, dedicação e uma certa obsessão com alguns temas. Primeiro sempre veio o Botafogo, time de coração, para terror do pai flamenguista e avós vascaínos, depois, por um tempo, o Homem-Aranha de Tobey Maguire, em seguida, Dragon Ball de Akira Toriyama, e também Michael Jackson (o que o impulsionou como excelente dançarino e performer). Por fim, veio o rock enquanto prática. O estilo musical sempre foi do interesse do Ian. Por alguma razão, sempre que eu ia embora de sua casa, depois de passar uma semana correndo de um lado para o outro no apartamento dividindo ideias, brigando, fazendo as pazes, perdendo no Winning Eleven com a seleção do Japão e discutindo os melhores personagens de Dragon Ball, tocava algum rock. 

A obsessão do Ian se tornava uma prática de aprimoramento contínuo. Não bastava desenhar o Homem-Aranha com 8 anos, era necessário entender o padrão de linhas do uniforme, as posições criativas do herói, o uso das cores etc. Não bastava desenhar os personagens de Dragon Ball, era necessário desenhar EXATAMENTE como Akira Toriyama - uma das empreitadas em que teve maior sucesso. Não bastava ter um time de futebol com os amigos para jogar aos finais de semana, era necessário criar um site, realizar treinamentos, organizar campeonatos, desenvolver uniformes e uma lista interminável de pequenas atividades de gerenciamento. 

Com a música, não poderia ser diferente. Lembro de uma guitarra azul clara pendurada na parede dele e dos relatos das aulas de música que começaram ainda cedo, estimuladas pelos pais. Em seguida, a formação da banda Contratempo que apresentou um bom trabalho de lançamento com o EP, a evolução contínua dos shows e performances, a busca incansável por uma perfeição inatingível característica de todo artista fiel a si.


Nesse ponto, eu e Ian continuamos bem diferentes. Eu não sou o tipo de pessoa que pratica o que gosta. Minha escrita evolui aos trancos, é resultado dessa falta de compromisso. No geral, acumulo um amargor e ressentimento contra minha própria obsessão com a arte, evito olhar para ela e me envolver mais do que o necessário para fazer cessar essa compulsão. Já meu amigo de infância sempre foi a passos firmes e determinados em direção ao que queria. 

Lembro de quando fui conversar com o Ian e ele me disse, chateado, como havia começado aulas de canto há pouco tempo (era apenas o guitarrista da banda na época), mas que estava ansioso para se recuperar e voltar a treinar. Depois, o interesse pelos guturais de subgêneros mais "agressivos" de rock. As novas composições de música. A busca por novos shows, novas casas que recebessem a banda. Agora, a carreira solo, que começou ainda uns 5 ou 6 anos atrás com uma abertura original de Dragon Ball no Facebook para celebrar o lançamento de uma nova temporada da animação que ainda não contava com música em português. 

Isso tudo nos leva de volta ao show do dia 28 de Outubro. 


Eu andava bem desanimado com arte. É difícil fazer qualquer coisa sozinho e se estimular trabalhando no vácuo. Sem pares, um artista não cresce tão bem quanto poderia (é o que acredito, pelo menos). Daí veio o convite para ir ao show, cujo foco do Ian seriam as músicas do Linkin Park. Não sou um grande fã de shows e espaços lotados porque a autoconsciência desenvolvida em excesso me fez estranho aos outros, mas foi impossível não me divertir. 

Ali, naquele palco, pude ver o acúmulo dos anos de obsessão e o gosto pela prática. O show contou com uma excelente banda de apoio (não me lembro o nome, peço perdão) e outro vocalista para as partes de rap características do Linkin Park. As aulas de canto estavam ali, os anos com a Contratempo estavam ali, os exercícios de guturais estavam ali, todos, mostrando a excelência em praticar e evoluir.

Mas antes que alguém aponte a parcialidade deste texto, é importante ressaltar algo: nunca fui mentiroso, nem poupei críticas. Quem mais sabe disso é o próprio Ian, sempre zangado com minhas observações cruas e sem diplomacia para apontar o que faltava no trabalho dele. Mais de uma vez quase brigamos quando falei das ilustrações, das letras das músicas, da guitarra ainda sem jeito nas mãos dele. A régua é sempre mais alta para quem está ao meu lado, vejo assim. Elogiar aqui não é exagerar nem omitir, é reconhecer o caminho trilhado e admirar a persistência para chegar ao bom, ao ótimo, ao excelente.

Depois dos primeiros minutos e músicas, onde deixei a mente relaxar para aproveitar a apresentação junto do público, comecei a observar com mais cuidado o show. Quis estar ali, mentalmente, não apenas enquanto fã e amigo, mas também como artista, entendendo a prática de um igual. Inevitavelmente, me enchi de orgulho pelo Ian enquanto artista - ver o público corresponder ao seu trabalho é o sonho de qualquer um, um reconhecimento puro e libertador, graça e admiração. Relembrei alguns desses momentos do passado que conto aqui e vi como meu amigo chegou longe. Anotei pontos fortes da performance: a maneira de falar com o público, posição no palco, uso da voz, organização das músicas. Todo trabalho artístico exige enorme esmero para ser realizado. Subir em um palco e cantar não faz um show - e era possível perceber como o Ian entendia isso bem. 

Também é difícil não ficar animado quando as pessoas ao seu redor estão. Esqueci as dores nas costas e o sono depois de um longo dia de trabalho para aproveitar o final do show. Não pude ficar até vê-lo sair do palco. O corpo venceu a mente nessa batalha. Ouvi a última música do lado de fora, revigorado, orgulhoso, reestimulado. Não sei se escreveria esta crônica sem o show, ou se teria ânimo para voltar a pensar em meus projetos - falo honestamente. Há algo especial em ver um amigo crescer como artista, em olhar para trás e comparar os primeiros dias de sonho e inocência, a crendice de que arte recompensa a curto prazo, e os dias atuais de rotina, teste e aprendizado.

Quis ficar mais ainda que talvez não aguentasse, ao menos para cumprimentá-lo ao final do show. O texto aqui é também uma forma de abraço. Deixei voz e som ecoarem em mim enquanto observava a cidade noturna pela janela do carro de aplicativo. Público, cantor, palco e apresentação, a eliminação catártica de sentimentos nos coros e refrãos, trabalho excelente de um amigo. Fui profundamente tocado enquanto amigo e artista pelo que vi; como público, celebrei uma das bandas de rock símbolo dos anos 2000/2010 cuja história recente se marca em tragédia e legado. 

Esta crônica não tem uma mensagem final, um pensamento, uma sacada genial que vou levar comigo. Quis apenas falar sobre um show de rock que me reacendeu a vontade de ser artista outra vez, que me divertiu e me fez querer falar sobre arte. 



Crédito das imagens: @renansilvafotografia e @mayracalixto

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...