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Carta de Sexta #3: O retorno do filho pródigo, o tempo, O Doce e o Amargo de João Gabriel Paulsen e A Linha de Sombra de Joseph Conrad
Estou de volta aqui, por hora, na tentativa de continuar animado. Por onde começo? Domingo, 20 de Novembro de 2022, faço 25 anos. É engraçado. Prometi a mim mesmo que estaria rico aos 25. Sigo sendo um falido sem perspectiva nem plano. Infelizmente é mais uma promessa que quebro. Talvez, passado esse período, uma nova porta se abra. Novas perspectivas podem surgir a partir da revisão de meus sonhos. Ser otimista nunca foi muito um dos meus méritos, nasci velho, cansado. Desde os 12 já pensava em como seria a vida adulta, não há grande diferença, a verdade é essa, entre as fases da vida. Só há menos tempo, cada vez menos tempo para tudo. Com o fim do Twitter, talvez me sobre mais tempo para ler, mesmo que o TikTok seja tão encantador a maior parte das vezes.
Passei o feriado do 15 de Novembro no sítio dos meus pais. É impressionante como fora da internet tudo corre em um ritmo sadio. É possível ainda viver um dia de verdade. Maldita seja a sina que me pôs no caminho do marketing digital. Eu daria tudo para não viver online, para que o computador fosse um ponto de foco para lazer e produção criativa. Ainda assim, foi esse mesmo computador que me proporcionou meu primeiro emprego. Cada vez menos tempo. Passo o dia quase todo sentado em frente a uma tela lendo palavras que pouco significam. A linguagem perde o sabor. Quando abro um livro, já não me saltam mais aos olhos as frases, conexões verbais, construções narrativas, sintaxe, semântica... tudo isso é raso.
Mas aqui estou outra vez. Sentado outra vez. Escrevendo outra vez. Tentando, outra vez, me comunicar. Arte para mim sempre foi sobre comunicação. Queremos espalhar o que vemos, o que sentimos, de pinturas rupestres em cavernas imemoriais aos quadros abstratos da arte contemporânea, o verdadeiro artista - aquele cuja vida foi profundamente marcada pela arte e não é mais capaz de se desvencilhar desse destino - é apenas uma pessoa cujo sonho é ser entendida. Põe-se muito sentimento em uma obra, muito de você escapa ao mundo. Por isso toda obra é política, porque toda pessoa é também política, participante intencional ou não do mundo ao seu redor. Em outras notícias, acaba de sair um novo jogo de Pokemon, ainda tenho meus antigos aqui, Pokemon Black, Pokemon White 2 e Pokemon Diamond. Poucas coisas me encantam ainda como Pokemon. E a literatura, claro. É, em parte, por isso que escrevi este blog.
Li uma sequência boa de livros nos últimos tempos. Após passar seis longos meses com Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar, pulei para Trópico de Câncer do Henry Miller, sobre o qual falei em uma thread no Twitter:
Terminei trópico de Cáncer do Henry Miller
— ⭐ Sirius. ⭐ (@sirius_arte) November 11, 2022
Aquí vão algumas considerações 1/
E na sequência fui logo para o livro de meu amigo João Gabriel Paulsen, a obra O Doce e o Amargo, ganhadora do prêmio Sesc de Literatura em 2019. O Paulsen é realmente uma dessas pessoas excepcionais que encontramos raramente na vida. Excêntrico e estranho como é necessário para gerar algo novo e verdadeiro, mas não menos talentoso por isso. Odeio a forma como ele escreve, preciso admitir, mas é inegável a habilidade. Talvez por não me agradar tanto sua literatura que eu o tome o tempo todo como um referencial para minha escrita: se ele, que me gera tanta repulsa pela forma como cria, é capaz de expressar tantas coisas, então é necessário que eu me supere para expressar ainda mais - dentro da minha própria forma.
O Doce e o Amargo abarca essencialmente 3 temas: nascimento, pais e mães, suicídio. Toda as narrativas orbitam ao redor da angústia da busca do ser pelo significado da vida diante do argumento superior da morte. Conhecendo o autor, fica fácil perceber os ecos de nossas conversas feitas normalmente em caminhadas na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ainda assim, há no trabalho algo maior que apenas a angústia e o desespero de se perceber em um mundo sem significado próprio. O Essencialismo abandonou nossa geração, o Existencialismo foi massacrado pelo Niilismo. Sobra hoje um pouco de Cinismo e a necessidade de inventar uma nova filosofia sobre a vida. Aqui nos diferimos filosoficamente, João e eu - que também sou João, mas Pedro -, minha escrita é muito mais melancólica, distante. Paulsen se põe no centro do mundo e dos dilemas da vida - jovem que é, tenta ver a resposta por conta própria. Meus personagens se afastam da realidade, são observadores casuais cansados do papel principal da narrativa. É melhor acompanhar na beira do campo esse jogo.
| João Gabriel Paulsen (à esquerda) e Felipe Holloway (à direita), vencedores do Prêmio Sesc de Literatura em 2019 |
Até por isso, casou muito bem o livro seguinte, A Linha de Sombra de Joseph Conrad, em que um capitão de primeira viagem precisa levar um navio de velas até seu destino após as decisões inconsequentes de seu último capitão. É interessante observar como o estilo de Conrad, quase documental, mistura o delírio de homens doentes com a enorme responsabilidade pressionando os ombros do personagem principal. Os críticos da época de Conrad tomaram a obra por um relato fantástico, com o antigo capitão assombrando a população. O autor não via assim e nem tinha essa intenção. Para além da introdução que deixa isso claro, é muito fácil perceber o real intento da narrativa, mostrar a jornada de amadurecimento daquele jovem marujo que, no começo, enfadado pela vida nos mares, decide largar tudo e voltar para casa. É um "coming of age" no mar, mas mostra um amadurecimento depois de experiência bruta, seca, sem misericórdia.
O oceano é fascinante. Um de meus sonhos sempre foi ir ao mar como marujo, seja apenas na forma de passageiro seja na forma de trabalhador. Sofro de enjoos horríveis e também tenho péssimo equilíbrio, mas acho que essas minhas fraquezas alimentam ainda mais esse interesse. Como deve ser encarar o horizonte e não ver terra firme? Como será desesperador encarar a noite escura e não ter luz além do barco onde se encontra? A meu ver, as Grandes Navegações foram um período de delírio febril. Quão louco deve ser um homem para enfrentar o que é, essencialmente, um mundo além do nosso sem nada além de um pequeno conjunto de tábuas de madeira entre si e a morte. Doenças, tempestades, fome, deriva. Nada disso passeio até meus 25 anos - meu período de 3 dias sem comida em Miami após uma sucessão de eventos desastrosos e escolhas inconsequentes nem sequer se compara ao que o mar pode gerar, e mesmo isso é parte ínfima da fome que assola aqueles em terra.
Acho que divago muito. Este é o fim desta carta.

