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Carne Trêmula do Almodóvar - Mais focado na ditadura que em s***

 Eu entendo pouco de cinema, não é minha área de atuação. Contudo, aqui vou eu falar um pouco sobre o Almodóvar. 

Recentemente, a Netflix inseriu todos os filmes do diretor espanhol no catálogo. Minha mãe viu alguns e me recomendou. Decidi dar uma chance. Tanto pelo histórico e grande carreira do diretor quanto pelo fato de que minha mãe decidiu me recomendar um filme.

Vi alguns antes de Carne Trêmula, mas o foco hoje é esse filme que une algumas das paixões do diretor: críticas à ditadura franquista e sexo, muito sexo sincero e apaixonado.


Vamos a um breve resumo: o jovem Victor, nascido de uma prostituta dentro de um ônibus em 1970 durante o toque de recolher imposto pela ditadura franquista, cresce em uma Madri em meio a uma cidade caótica e tomada pela libertinagem dos anos 90 decorrente da reabertura democrática do país. Victor, no começo do filme, tenta se reencontrar com Elena, com quem teve um encontro uma semana antes. A mulher parece querer não saber do rapaz e, em meio a uma confusão na casa da mulher, Victor é acusado de balear o policial David (interpretado por Javier Barden).

A partir daí, a narrativa se desenrola rapidamente. Victor sai da cadeia e busca uma forma de se reaproximar de Elena, mas descobre que a mulher está casada com David, agora atleta paralímpico de basquete. O jovem, no entanto, acaba se envolvendo com Clara, mulher de Sancho, o policial e parceiro de David no dia do atentado que levou Victor à prisão.

Todo o enredo se desenvolve como uma história do Nelson Rodrigues: traições para encher as mãos, reviravoltas, tragédia e um forte tom de encerramento de um ciclo. Isso porque Victor representa uma nova juventude espanhola, livre da pressão do fascismo franquista que dominou o país por décadas. Almodóvar não é um sujeito exatamente sutil nas analogias e situações que cria. O jovem protagonista nasce justamente em meio a um cenário de opressão civil, de uma prostituta, sem pai, "adotado" pela cidade e ainda assim sem perspectivas, mas através do trabalho e do esforço, por fim supera isso, levando o responsável pelo seu azar, o policial Sancho, conservador (que batia na esposa Clara e também o verdadeiro culpado pelo tiro em David) e símbolo dessa polícia e justiça fascista, a uma morte trágica e violenta. 

O filme encerra justamente com Victor tendo um filho, na mesma época em que ele nasceu, mas a criança vem ao mundo em uma Madri muito diferente. Em 20 anos, as ruas voltaram a encher de pessoas, cores e esperança. É o renascimento de um país. 

Lindo e poético, etc. etc. etc.

Mas existem outros aspectos interessantes sobre a obra do Almodóvar. Sexo é também um dos temas centrais de toda narrativa. Há algo profundamente humano nas relações sexuais entre as personagens dos filmes, e também um desespero. Vivemos uma época de puritanismo extremo em relação às manifestações artísticas, e isso inclui o cinema. A "limpeza" proposta por estúdios como a Disney criou uma geração de jovens altamente reprimidos e, de certa forma, ressentidos em relação ao sexo nas telas. Toda cena nu é tratada como desnecessária, mas se o sexo é ponto definidor da experiência humana em mais de um aspecto, não há como ser eliminado dos filmes. E o Almodóvar, na minha parca experiência como público de cinema, parece entender isso muito bem. Tanto que a parte erótica do sexo dança junto de um forte sentimento de desespero e compensação. As pessoas não transam apenas porque estão com tesão, elas o fazem porque estão, em muitos casos, ansiando por um contato humano e emocional. No caso de Carne Trêmula, Clara, esposa de Sancho, aceita amar Victor sem ser correspondida apenas por querer entregar afeto a alguém que mereça mais sua atenção, visto sua relação infeliz e nociva com o esposo. Elena deseja Victor não apenas porque o rapaz promete uma vingança através do prazer (a mulher, quando se conheceram, debochou da inabilidade sexual do rapaz), mas também porque se vê presa em uma relação cujo pilar central é a culpa pelo acidente de David.

Esse desejo é a linha guia para impulsionar os personagens, que se movem através de suas vontades, mas são frutos de suas gerações. É aqui que Almodóvar une sua paixão pelo sexo e pela crítica ao Franco. O desejo de Sancho, policial conservador, agressivo e alcóolatra, é possessivo, violento e intimidador, ele representa o passado do país. Victor é a libertação e o desejo de uma vida melhor (ainda que o personagem não seja infalível). A morte de Sancho é também uma morte simbólica da ditatura e o corte de laços com as ruas vazias pelo toque de recolher, as torturas, a violência estatal e os vícios. Os filmes do Almodóvar, pelos que vi até hoje, parecem tratar sempre da Espanha que o diretor enxerga, mais do que seus personagens em si. 

p.s: Há cenas incríveis, inclusive, como quando David e Victor estão brigando na casa do rapaz e interrompem a discussão para celebrar um gol de um time espanhol.

p.p.s: A cena de sexo entre Victor e Elena ficou gravada na minha mente pelo take longo e sincero na bunda do rapaz, parece ter sido marcada a fogo na minha mente aquela banda brilhando sob a luz do quarto.

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