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Carta de quinta #2: Cyberpunk Edgerunners na Netflix e o conceito de high tech low life de volta

 Tem certas coisas que eu odeio muito. Gente burra é uma das principais. Não gente ignorante, que não sabe algo, mas gente burra - propositalmente burra e teimosa, tal qual um jumento que se recusa a sair do caminho e também não pasta. Outra coisa que me incomoda é gente mal caráter. Você junta uma pessoa com más intenções e outra burra, e você tem a perfeita definição de "todo dia sai de casa um malandro e um otário". O esvaziamento do discurso político nas obras de ficção vem muito desse encontro, na minha opinião. Vivemos um momento em que o mercado se apoderou de maneira tão firme das principais expressões ideológicas que as obras de entretenimento norte-americanas se resumem a uma propaganda do regime teocrático e oligarca que vivem e também propaganda militar. Há quem ache lindo uma história que é pura "copaganda" sobre policiais engraçadinhos - a mesma polícia que atira em cidadãos desarmados e que não protege crianças sendo baleadas em uma escola. 

As obras de ficção vêm passando por um esvaziamento tão grave que qualquer menor comprometimento com o formato ou gênero é tratado como genialidade e estranheza. Não há nada mais sintomático sobre a morte do cinema como arte e o surgimento do cinema como conteúdo (tal qual a internet) quanto os filmes de super-herói. Alan Moore está certo quando diz que a adoração a ícones e a noção de que a justiça se faz através de poucos superhumanos acima da lei leva ao fascismo.

E por que eu trago isso aqui assim? Essa é uma introdução bem longa e cheia de ódio para falar sobre Cyberpunk Edgerunners, série animada da Netflix que segue um visual similar às obras japonesas (animes) e que me surpreendeu positivamente por fazer o básico.


O cyberpunk é um conceito de ficção pautado, entre outras coisas, no high tech low life, ou seja, alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Entre carros voadores, ciborgues e maravilhas da ciência, grande parte da população vive esmagada por um sistema capitalista que sobrepôs governos e se tornou a forma única de vida. Quem comanda são as grandes corporações, o planeta está entregue ao caos ecológico, as pessoas sobrevivem entre sucatas, água poluída e comida artificial. Simultaneamente, é um nicho cuja estética, muito pautada nos neons dos anos 80 solidificado pelo Blade Runner original de Riddley Scott, atrai um público desavisado (outras obras referência são Akira e Ghost in the Shell).


Na necessidade de fazer dinheiro e se apropriar do discurso, o mercado de produção audiovisual como um todo mira na anulação da crítica social e econômica do cyberpunk como forma de utilizar apenas a parte que lhes interessa. Não há valor para as megacorporações em produzir uma crítica ao modo de vida que boa parte da população mundial já está sujeita: lixo nos oceanos, imensos lixões de chips e velhos computadores, comida repleta de agrotóxico, precarização do trabalho etc. O cyberpunk se tornou apolítico, uma contradição clara dentro do gênero. 

É aqui que temos a união do burro ao mau-caráter. Um público educado à passividade e ao consumo pobre de mídias vazias por corporações cujo único objetivo é a lucratividade acima do comprometimento com o formato artístico produzido, quando encara uma obra minimamente distinta do plástico de sempre, nega a mensagem presente. Quantas vezes mais vamos ver consumidores negando que obras possuam viés político claro por falta de interpretação textual? Obviamente, as corporações jogam um jogo, mas nós deveríamos jogar outro - ainda que a hegemonia de comunicação seja difícil de enfrentar. 


Mesmo Blade Runner 2049 do diretor Denis Villeneuve peca em parte nisso, a discussão se estabelece toda ao redor de um messianismo futurista e usa do cenário distópico para belas cenas e montagens, mas nada muito além (e eu sou um grande fã do filme, que fique claro). Cyberpunk 2077, da produtora de jogos CD Projekt Red, parece sofrer do mesmo problema, ainda que eu não tenha jogado, que fique claro. O cenário político é apenas uma migalha dentro de uma história que parece focar essencialmente em pessoas-robôs, crime organizado e em uma estética de futuro pautada em referências de um passado cada vez mais distante (em breve, os anos 80 estarão há meio século de nós). Essa crítica breve ao jogo vem da minha experiência como consumidor e o contato com as peças de divulgação e eventuais gameplays, portanto, não é tão completa quanto poderia ou deveria.

Cyberpunk Edgerunners vem, por outro lado, com um discurso e uma abordagem bem mais próxima do cerne do gênero. O roteiro joga dentro do que é seguro, não se inova muito, mas como falei anteriormente, em tempos de esvaziamento de significados, o mínimo já é muito. Daí a surpresa positiva com a história. Logo no primeiro episódio vemos como as diferentes classes econômicas são tratadas, a narrativa se impulsiona justamente através do ódio e insatisfação pela falta de dinheiro e recursos para levar uma boa vida. Serviços básicos são negados à população e tudo é serviço, nunca produto, uma forma de sempre extorquir mais da população é garantir que continuem pagando por algo que deveria ser delas.

Na história, David, um jovem que estuda na academia de formação de corporativos, perde a mãe em um acidente de carro causado por uma troca de tiros entre gangues. O jovem então descobre que a mãe, uma socorrista, traficava tecnologia para grupos de mercenários da cidade. Sem destino e buscando de alguma forma honrar o desejo da falecida de que ele pudesse crescer na vida, David se envolve com o grupo de mercenários e começa a ser consumido pelo mundo de assaltos, sequestros e missões perigosas. 

A história progride apresentando um campo vasto de personagens que, mesmo sendo levemente estereotipados para cumprirem seus papéis, exibem diferentes facetas daquele mundo opressor onde vivem. O par romântico de David é a jovem Lucy, uma hacker com passado complexo que serve também como ponte para o protagonista entrar no mundo de mercenários. A jovem tem o ar trágico clássico das musas que inspiram os heróis e também os levam a uma eventual derrocada, seja por orgulho ou, nesse caso, amor.

O ponto que mais me chamou a atenção foi justamente o cuidado da narrativa em mostrar como a falta de perspectiva e de um objetivo próprio levam David a seguir como um loose cannon, um desastre sempre prestes a se concretizar. Primeiro, ele diz herdar os desejos da mãe e decide subir de vida de alguma forma. Depois, diz herdar o desejo de seu amigo e mentor, Maine. Nunca ele apresenta alguma vontade própria, David apenas reage ao que o mundo lança e, por isso, não tem perspectiva de futuro. Lucy, por outro lado, é cheia de sonhos, ainda que esses sejam considerados tolos pelos outros personagens, mas não se arrepende deles. É uma sonhadora, algo raro em um mundo tão cruel. 

Mesmo jogando no básico, Cyberpunk Edgerunners oferece uma experiência audiovisual muito agradável. A produção detalhada e a direção de arte encantam visualmente mesmo quem não goste tanto da estética dos animes. Vai entrar na minha lista de recomendações futuras sempre que alguém buscar uma história distópica - mas ainda assim divertida.  

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