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O apelido dela era Biscoitinho. Os mais velhos diziam que era pela pele preta com manchinhas. Os amigos do meu irmão diziam que ela era fácil de comer. Tinha o cabelo preto e liso "igual de índia" como minha vó dizia. Ela morava no final da nossa rua, junto com a mãe e a tia - costureiras numa fábrica local. Eu nunca convivi com ela. Era oito anos mais velha que eu, mas Biscoitinho estudou com meu irmão.
Era o começo dos anos 80, e eu tinha apenas 11 anos naquela época. Não poderia entender tudo que acontecia ao meu redor. Meu irmão e os amigos saíam quase toda a noite para festas e chegaram a ser presos algumas vezes. Descobri depois de um tempo como eles vendiam maconha na escola e usavam o dinheiro para bancar a vida de farras. Meu pai era operário e minha mãe dona de casa. Nós quatro morávamos naquela rua desde meu nascimento, a vida parecia estática naquela década de transformações. O começo da abertura política vinha com um Brasil abalado em diversas estruturas. Eu não tinha idade suficiente para entender bem o que ocorria, meu pai só dizia que em breve algum operário chegaria à presidência e que as reuniões de sindicato seriam mandatórias em todo o país. Mamãe não gostava de falar de política e pedia que ele não nos dissesse muita coisa à mesa de jantar, único momento do dia em que toda a família se reunia - nem mesmo meu irmão ousava faltar esse momento.
Às vezes, brincando na rua com minhas amigas, eu via Biscoitinho passar. Ela era realmente linda. Os traços indígenas não a destacavam no bairro majoritariamente negro em que morávamos, mas havia um ar de mistério na maneira como era quieta e observadora. A mãe dela tinha jeito de alemã e gritava horrores. Todas as crianças na rua tinham medo daquela senhora de braços fortes e rosto vermelho. Ninguém sabia como Biscoitinho tinha tanto traço indígena com uma mãe tão branca. Herança do pai, certamente, mas nem mesmo as senhoras mais velhas da rua se lembravam dele. O homem desapareceu e levou consigo sua memória. Papai parecia tê-lo conhecido, mas não falava dele. Era muito mistério para minha infância. Hoje, recontando essa história, me arrependo de não ter perguntado ao meu pai sobre o assunto antes de vê-lo falecer de câncer - o pobre homem nunca chegou a ver Lula eleito presidente para realizar seu sonho de um operário na presidência. Nossa casa era repleta de bandeiras do PT, a ponto de parecer um centro de convenções o partido, minha mãe odiava a decoração política.
Quando fiquei um pouco mais velha, lá com meus quinze anos, comecei a entender melhor o mundo masculino de meu irmão e seus amigos. Eles me deixavam reunir junto deles e fumar meus cigarros de filtro escondida. Nesses momentos ouvia suas histórias em silêncio sem me deixar deslumbrar pela bravata dos jovens. Alguns ainda falavam de Biscoitinho nessa época, sobre como a pele era macia, o beijo suave e as pernas fáceis de abrir. Hoje, nunca deixaria que falassem assim de uma mulher na minha frente, mas na época eu não tinha a consciência que tenho hoje - apenas ouvia e acompanhava aquelas aventuras sexuais excessivamente explícitas para a criança que eu era. Biscoitinho era quase sempre o centro das atenções e das conversas, os que não haviam tido casos com ela ainda sonhavam com a possibilidade e narravam tudo que fariam. Os amigos mais velhos do meu irmão, verdadeiros traficantes, ao contrário dele, que só pensava em ter um dinheiro para ir às festas do bairro, tratavam-na como um rito de iniciação: todo jovem precisava ter sua vez com a mulher do fim da rua. E, de alguma forma, eles tinham.
Com o passar do tempo, as mulheres mais velhas da rua, as avós e tias, foram inteiradas na história, e ao contrário dos jovens que sonhavam com a pele supostamente macia e cheirosa da Biscoitinho, começaram a julgá-la, chamando-a prostituta, vendida, cadela. A mulher parecia não ter noção disso, ou não se importava com a condenação. Apenas a mãe dela tinha noção do que ocorria, e gritava com a jovem mulher, humilhando-a recorrentemente. Era comum, no final da noite, ouvir a gritaria vindo daquela casa - rito quase inevitável na rua apertada e com as casas amontoadas.
Eu tive apenas um contato com Biscoitinho. Isso foi antes de todo o resto que tenho para contar aqui. Mas eu vou por partes, creio que será mais fácil. Na verdade, não sei bem por onde começar essa memória. Tudo me parece um pouco estranho, não sei porque me lembro disso, meu objetivo inicial era falar dos anos naquela rua ao final da ditadura e narrar a abertura política, eu queria fazer um relato para um livro, mas a história da jovem mulher com traços indígenas me marcou muito mais.
Era final de novembro, fazia um calor absurdo para a época. Eu suave horrores no meu vestido rosa. Odiava-o. Ainda assim, usava a peça. Papai o comprou para mim como presente, e era aniversário dele, então decidi agradá-lo. Minha mãe corria de um lado para o outro na casa organizando as coisas para a festa de mais tarde. Sairíamos primeiro para comer, depois iríamos voltar, descansar e, pela noite, receber a família para os salgadinhos e bolo. A rotina era a mesma em todos os aniversários - sempre aos domingos, quando papai estava de folga.
Saímos ao sol e me distraí com o passeio até o restaurante. Fomos andando, mesmo sob o calor excessivo, porque o carro estava no conserto. Ao chegarmos ao local, já suávamos horrores, meu vestido rosa colava às costas e minha mãe abanava o rosto com um leque de palha que sempre carregava consigo nesses momentos. Meu irmão estava visivelmente chapado, meus pais nunca desconfiavam da atitude aérea, então ele costumava fumar antes de sairmos. Conversei com ele por alguns minutos até finalmente sermos atendidos no restaurante e postos numa mesa decente, na sombra, perto de um ventilador de teto barulhento e muito agradável à minha pele.
Almoçamos e, ao final, eu disse que iria à sorveteria comprar algo. Tinha algumas moedas guardadas, pois ajudava as lavadeiras da rua aos finais de semana para conseguir um dinheiro extra para casa. Cheguei à sorveteria. Estava completamente vazia, me lembro até hoje, apenas um jovem atendia. Parada, aguardando sua vez, estava Biscoitinho.
Não me lembro muito da razão, mas por algum motivo ela me viu antes de eu vê-la. Deu o lugar na fila, mesmo que não precisasse. Éramos só nós duas ali. O jovem no balcão sorria muito para ela, falava baixo, chegando o mais perto que podia. Pedi meu sorvete e esperei que ele fosse até os fundos do estabelecimento para buscar. Nesse período, fiquei sozinha com Biscoitinho. Nunca aprendi o nome de verdade dela. Alguns me disseram ser Fabiana, outros, que era Sâmela. Conhecia-a pelo apelido apenas. De pé, perto dela, senti seu cheiro. Era doce e salgado, suor e morango. Os amigos do meu irmão viviam achando aquilo excitante, diziam que despertava neles algo mais. Eu só achei enjoativo, eram duas fragrâncias muito fortes e nada complementares.
"Sorvete de milho verde é muito bom", foi o que ela me disse. Virei-me para ela e a encarei com curiosidade. Nunca ouvira sua voz antes disso, apenas a via passar na rua. Era uma voz baixa, contida.
"É meu favorito", foi tudo que consegui responder. Ela sorriu.
"Esse vestido não fica muito bem em você", continuou. Apontou para a saia e mangas. Eram as partes que menos gostava.
"Eu odeio, mas meu pai que me deu e é aniversário dele hoje", algo me impelia a continuar a conversa. Subitamente, mudei de assunto. "Você conhece meu irmão, o XXX". O sorriso dela sumiu.
"Conheço sim, estudei com ele". Fizeram mais que estudar. Eu conhecia a história. Meu irmão fez com que transassem em um terreno baldio. Confesso ter certo nojo dele até hoje por isso. Pelo que entreouvi nas vezes em que estive em meio a seus amigos, aquela parecia ser sua abordagem padrão: fumar maconha em um terreno baldio e transar lá como um cachorro de rua.
A conversa não continuou depois disso. Esse é meu maior arrependimento em relação àquela estranha figura do bairro. Queria nunca ter citado o nome do meu irmão apenas para ouvi-la falar mais, para saber o que pensava e o que achava. Quando tomei ar para fazer uma pergunta, o rapaz voltou com meu sorvete. Fui tirar o dinheiro da pequena bolsinha que levava, mas Biscoitinho se adiantou e disse que pagaria. Inclinou-se sobre o balcão e disse algo ao rapaz. Ele sorriu e tocou o cabelo dela. Senti raiva disso por alguma razão, era um gesto casual demais para duas pessoas que claramente não tinham tanta intimidade. Ele se adiantou para beijá-la, mas ela se afastou levemente e o encarou. Depois, virou-se para mim e deu um sorriso. Eu fui embora. Nunca mais a ouvi falar nem soube mais dela por semanas.
Alguns anos depois, Biscoitinho morreu. Eu não soube como. Ninguém mais na rua ousava falar o nome dela, nem mesmo meu irmão e seus amigos se atreviam. Ela foi enterrada com toda sua misteriosa história. Soube que nem sequer a mãe atendeu ao funeral. Anos atrás, logo após a primeira vitória do Lula para presidente, eu celebrava na casa de meu irmão e sua esposa quando começamos a falar sobre o passado. O assunto obviamente começou com papai e seus discursos ferozes na rua sobre a necessidade de um governo operário. Ninguém sabia de onde ele tirava essas ideias, mas sempre as teve. Rodamos diversos assuntos até chegarmos à Biscoitinho. Perguntei do que ela havia morrido, se meu irmão sabia. Ele apenas sacudiu a cabeça com ar triste e suspirou ao falar AIDS. Eram outros tempos, os tratamentos não eram tão eficientes e não continham a doença. No caso daquela mulher, ela ainda recebeu o diagnóstico tarde demais. Eram outros tempos, e a mãe se recusou a ajudar ou emprestar dinheiro. Biscoitinho não trabalhava, aparentemente. Apesar do que muitos diziam, não era prostituta. Eram outros tempos, quando ela começou com a medicação, já não tinha muito mais tempo de vida. "Os rapazes da rua ficaram todos assustados", comentou meu irmão, "ficaram com medo de terem pego dela". Eu fiquei com um gosto amargo na boca. O problema não era esse, na minha visão. Deviam temer não ter pego algo dela, mas sim se arrepender por terem passado a doença.
Não me lembro mais da voz da Biscoitinho, e mal tenho recordações de como era seu rosto. Lembro apenas do cabelo comprido e negro, da pele manchada (soube que ela tinha vitiligo) e os traços indígenas bem marcados tornando o rosto tão belo. Há um fetiche em minha memória ao lembrar dela, não sei o porquê. Sofro apenas por ter essa história ainda em aberto. Em parte, acredito ser por remorso. Um lado se arrepende de não tê-la ajudado de alguma forma. Percebo uma estranha convicção infantil e idealista de que poderia tê-la apoiado de alguma forma caso fosse sua amiga. Talvez fosse capaz de afastá-la dos amigos podres e estúpidos do meu irmão, todos sem futuro, vivendo uma pseudo-criminalidade amparada pelos verdadeiros marginais daquela rua - categoria levada ao pé da letra, visto que moravam nos ermos mais afastados do bairro e nunca eram vistos nas ruas principais.
Enquanto adolescente, não tive essa consciência. Não tive essa sensação de dever a ser cumprido sob um argumento moral criado anos depois. Naquela época, Biscoitinho era apenas a namorada do bairro, a jovem mais desejada por meninos e homens. Por onde passava, encaravam-na com fascínio - ela parecia alheia àquilo. Soube até mesmo que meus pais uma vez brigaram por ela, pois papai hesitou alguns segundos ao vê-la passar e mamãe percebeu imediatamente o que aquela pausa significava - desejo puro e simples por uma mulher mais jovem.
Sem nome, a mulher parece irreal, imaterial. Tive a mesma impressão na fila da sorveteria. Biscoitinho não era real, não era uma mulher de carne e osso. Seu cheiro e seu nome viviam apenas no mundo do desejo e da imaginação. Tê-la ali tão perto era quebrar o conto de fadas e, ao mesmo tempo, fazer parte dele de alguma forma. Talvez houvesse mais para dizer aqui, tivesse eu tocado em outro assunto naquela fila do sorvete.
