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Era como um breve suspiro. A noite cálida diante da moldura da porta aberta, a silhueta urbana noturna em paz dali. Ele tinha os pés nus esticados, tocava os azulejos frios com as pontas dos dedos e deixava pequenas marcas de suor neles.
Sob o silêncio do barraco à beira-rio, mais um manguezal que corpo d'água, o homem aguardava.
O Rio de Janeiro era uma cidade linda sob o céu noturno. Sumia a poluição e o caos arquitetônico oriundo de séculos de construções empilhadas umas sobre as outras sem controle, sem planejamento, sem direção. Mesmo as pessoas sumiam, e no lugar sobravam as luzes dos automóveis, das janelas das casas e dos prédios, mesmo elas silhuetas brilhantes riscando a noite. Sobrava na cidade o perfeito contraste entre os tons de azul escuro do céu e do mar, a confusão negra de mata e cidade, o brilho das pessoas. Era a imagem perfeita de um paraíso artificial, uma xilogravura barata pendurada em um sebo no centro da cidade.
Pelo umbral da porta, ele via tudo aquilo. A roupa formal não combinava com o ambiente, mas o homem também não combinava com a roupa. Fez menção de buscar o smartphone no bolso, mas se conteve. Ao invés disso, cruzou as pernas e ajeitou a postura. Tentou meditar. Insucesso. A mente dele era uma confusão de gritos no vazio. Vivia sob interferência interna. Voltou a encarar a cidade.
De onde estava, via a Linha Vermelha engarrafada, milhares de carros parados, luzes vermelhas e amareladas. Um coágulo na principal forma de acesso à capital fluminense. A cidade quase explodia parada. Era necessário movimento, mas não havia ação no negrume da noite. Tudo se misturava sob a calma da sombra. Mesclavam-se luzes, ofuscavam-se carros, a cidade era um recorte mais escuro que o escuro do céu, as janelas eram mais claras que todo o resto. Letreiros luminosos ilegíveis brilhavam, placas de anúncio de um mundo mais coeso quando dia, estando elas apagadas.
O homem reclinou-se levemente. As costas doíam. Péssima posição. Hábitos ruins mantinham-no gargólico, recurvado, fechado em si. Petrificava o corpo, aguava a mente. Os pensamentos eram um rio em turbilhão, quedas e mais quedas, redemoinhos e pedras arruinando o fundo. Pensou no medo da vida. Não tinha medo da morte. Aguardava uma mensagem no celular, uma notificação especial. Estava sempre conectado ao mundo todo, aquele pequeno aparelho era o cordão umbilical nutrindo-o para uma outra vida, um outro além. Quando estaria pronto para sair do útero do mundo? O que seria esse sair para ele?
A água se moveu levemente perto de onde estava. Era um casebre à beira-rio, já nos ermos da Cidade Maravilhosa. O acesso até ali não era especialmente complicado, mas poucos arriscariam a jornada para frequentar a pequena construção de madeira e lixo boiando com um deque já na água. O movimento do rio poderia indicar um animal, ou nada. Não valeria se dedicar a esse pensamento.
Ele olhou pelo vazio da porta outra vez, para a cidade. Os olhos estavam pesados, cansados. Não tinha sono; pelo contrário, estava totalmente desperto, de uma maneira irritante e desconfortável, ciente de si e de tudo. Cada centímetro do corpo atento aos arredores e ao próprio interior. Ele podia sentir o corpo mexer, os órgãos pulsando a cada batimento, o movimento do intestino e dos alimentos, a saliva se formando na boca. Mais um pouco de senciência e sentiria as camadas de pele morta descolarem do corpo. O primeiro sentido de autoconsciência é a percepção da vida. O segundo é a percepção de morte. Ele já atingia pulsões em seu segundo estágio. Não era um homem complexo. Viu-se esbarrando em um prazo de validade. Quão velho realmente era? Velho o suficiente. Só isso basta. A vida é sua própria grandeza, a morte é uma unidade absoluta. Ele era uma variável fora de lugar, por isso foi ao rio.
E meditou, finalmente.
Em dado momento, os pensamentos abriram espaço para o nada tomar forma. Pôde deixar escapar pelo soltar da respiração um pouco de si, lentamente, até não restar senão apenas a própria silhueta. Integrou-se ao casebre. O espaço tão pequeno agora similar a um palácio, tão vasto quanto os limites do próprio mundo. Toda a sensação interconectada, expandindo os limites da percepção até a próxima coisa, o próximo objeto, e dali por diante. Água, mata, concreto, metal, plástico, lã, algodão, carne, couro, tudo e nada.
No céu, um avião cruzou veloz o espaço entre o mundo e a pista de pouso. O homem não tomou ciência da passagem. O mundo estava estagnado de outra forma. Tudo era uma só coisa, e tudo que se move junto está também parado. Ele conseguiu se mover junto do mundo e ser o rio, o mar, o Rio, a casa, a mata, as ondulações na água, o céu escuro, a cidade escura, os carros claros, as janelas acesas, o mundo todo.
Não entendeu isso, certamente, pois não poderia entender a própria existência naquele estado. O menor pensamento destruiria a conexão com o absoluto das coisas. A menor sensação perturbaria o fio de água cristalina que era aquela comunhão. Não sentia, não pensava, existia através da anulação do Ser. Vacuidade absoluta. O Rio de Janeiro estava lindo como uma silhueta distante, ele não podia ver. Um barulho na mata, logo atrás dele, ecoou por uma eternidade até finalmente ser notado.
Adormeceu de seu despertar. Abriu os olhos. Não soube quando os havia fechado. Os pelos estavam eriçados, o coração disparava. Tinha medo. Viu-se vivo e teve medo da vida. Outra vez limitado aos extremos da carne, quis fugir de si. Pulsão de morte. Anular-se era entrar permanentemente na união com o todo. A autoproteção cravou garras fundas no desespero. Não seria capaz. Estava inutilizado. E, em vida, não mais encontraria aquele casebre. Chamaram por ele. Levantou-se do chão de azulejos quebrados. O teto era baixo, de lona preta, as paredes de madeira e pedaços de concreto. Era uma casa feita de diversas outras casas. Ele era um homem feito de diversos outros homens. Sentiu o vício da cidade dentro de si, correndo no sangue como uma doença mortal. Abriu-se demais e deixou que fizessem morada nele. Não deu nada ao mundo.
Chamaram por ele.
Mal reconheceu o próprio nome. O celular não tinha a mensagem esperada. Olhou pelo umbral da porta. A mesma imagem estática de uma xilogravura barata e bela que podia ser encontrada em um sebo velho no centro da cidade. Pôs os sapatos. Perdeu o toque com os azulejos frios. Ventou, e a lona sobre ele balançou como uma bandeira. Chamou por si. Não teve resposta. O mangue estático fedia, percebeu. Estava suado. A roupa social comprimia-o. Chamaram por ele. Pensou que responder faria algum sentido, talvez atribuísse algum. Abriu a voz e não fez som. A autopreservação falou mais alto. Não queria ser encontrado. Ser encontrado era ser morto. Deixaria de ser aquilo ali dentro do barraco. O coração disparava, correndo o vício da cidade cada vez mais fundo nas células. Sentia-se podre.
Chamaram por ele.
Tirou os sapatos outra vez. Sentou-se no azulejo frio. Ajeitou a postura. Soltou a respiração. Passos breves e artificialmente tranquilos. Via-se a ponto de explodir pela imobilidade. Ele apenas uma sombra mais escura no breu da noite. Sem luz, só cidade.
Bastava recomeçar. A próxima vez traria a sorte de um eu acertado. Era como um breve suspiro.
