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Slice of Life - Como a representação do cotidiano se traduz em entretenimento

 Eu gostaria de deixar avisado que não escrevo há algum tempo. Então este texto vai estar em todos os lugares. Mas eu precisava falar e refletir um pouco sobre o tema. 

Para quem não sabe, eu vejo muito anime. E eu não gosto de ver os populares shonens de ação em luta (Dragon Ball para quem é velho e não entende do meio, Naruto para os mais jovens, Jujutsu Kaizen e Kimetsu no Yaba para os mais atualizados). Eu gosto dos animes estranhos, das narrativas distintas, eu procuro o exótico - e quando falamos de exótico, por um orientalismo fetichista e muitas vezes preconceituoso, as pessoas assimilam o Japão e suas mídias ao erótico extremo, garotas mágicas e Yakuza.

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Mas não é esse tipo de exótico que eu busco nas narrativas. Longe dos hentais, filmes de terror sombrios e da máfia como um elemento cultural que no Ocidente é tratado de maneira quase virtuosa (afinal, é fácil para um adolescente branco no Alabama endeusar criminosos do outro lado do Pacífico)... longe de tudo isso, há um verdadeiro oceano de produções originais. 

Os animes e mangás, enquanto formato literário (ou subformato, algum formando em Letras me corrija) possuem diversos gêneros (ou subgêneros). Dos shonens, as produções de ação normalmente voltadas para meninos na adolescência aos shoujos, histórias de amor voltadas normalmente para meninas adolescentes, passando pelos seinen para adultos, animações para o público infantil (um conceito que ainda é difícil de ser superado deste lado no mundo, em que muitos interpretam animação como "feito para crianças"), existe uma série de categorias, abordagens e visões para as produções.

Um shonen de ação pode ter lutas fantásticas de guerreiros místicos ou ser uma história sobre um lutador de boxe. Um shoujo pode ter garotas apaixonadas pelo jovem mais bonito da escola ou tratar de meninas mágicas superpoderosas salvando o universo da destruição iminente e planejada. Você tem seinens ficcionais voltados para a vida de operários no Japão dos anos 80 e seinens de samurais históricos. É virtualmente impossível acompanhar todos os lançamentos dessa mídia no Japão. 

Em meio a toda essa amálgama de formatos e narrativas, está o Slice of Life.

Em termos narrativos, o slice of life parece uma contradição: uma história sobre o cotidiano de pessoas normais que tem em seu cerne elementos de drama ou comédia (muitas vezes os dois). 

O slice of life se afasta dos protagonistas chamativos e com cabelos enormes, superpoderes e habilidades místicas, para se aproximar de uma vida real pautada na repetição. 

O próprio formato das produções audiovisuais japonesas acaba por reforçar um pouco esse elemento cotidiano das histórias: episódios semanais normalmente sem continuidade e grande ligação entre si (animes possuem uma similaridade com novelas no que toca a continuidade dos episódios, ao contrário da maioria das séries estadunidenses, por exemplo). 

Essas histórias, então, são voltadas para o retrato do cidadão comum e seus desafios. Não é necessário criar enredos mirabolantes e viradas chocantes para prender os leitores, o que sustenta a narrativa é a identificação do público com os elementos similares. Há uma diferença enorme nessas histórias "pequenas" em comparação às narrativas grandiosas dos shonens de luta (One Piece é um bom exemplo) que lidam com grandes dramas, grandes inimigos, grandes aventuras... O slice of life tem nesse retrato (muitas vezes fidedigno) da realidade uma força narrativa impressionante. Ao pôr o ser humano em destaque, mesmo que numa posição inicial monótona, gera-se uma identificação imediata que funciona como vínculo emocional para as situações a seguir. 

É necessário criar um laço enorme com um personagem para torcer por ele numa batalha contra o fim da humanidade em um asteroide desolado, mas é muito fácil se identificar com um vendedor de editora que é transferido para o setor de dicionários e precisa aprender a lidar com esse novo mundo (pelo menos foi fácil pra mim, mas eu sou um rato de palavras). O fato é que os slice of life estão carregados de empatia - e isso pode ser surpreendente para quem acredita no mito (outro preconceito orientalista criado pela mídia ocidental) do japonês sem sentimentos, fechado e robótico. 

As histórias japonesas estão repletas de sentimento, é impossível criar boa arte sem sentimento (simulado ou real, não importa, mas isso é debate para outro dia). E os sentimentos nesses animes sobre pessoas comuns são os mais realistas, os mais convincentes. 

Eu comecei esse artigo pensando em expor algum pensamento inovador, algum debate inacreditável, mas a verdade é que ninguém lê esse blog e o ponto principal, no fundo, não era esse. 

Quanto mais eu escrevo e repenso minha escrita, mais eu vejo valor nesse olhar para o cotidiano, para os vendedores de lojas, os operários, estudantes e todas as pessoas ocupando o mesmo espaço urbano em uma rotina acelerada. O slice of life funciona enquanto retrato da existência humana justamente por essa documentação de hábitos, ocupações, gostos, preferências. É um registro da nossa existência através de uma lente distinta, mas muito interessante. 

E o mesmo vale quando penso em literatura. Eu adoro ficção fantástica, mas quanto mais leio clássicos, mais percebo o valor desse retrato humano. Independentemente da época ou lugar (e sendo ainda mais pedante, já li livros de diferentes épocas e lugares), você vê nos hábitos e emoções humanas os mesmos padrões de hoje. Há algo universal na nossa coabitação terrena que nos une instintivamente, a empatia, por mais escassa que seja atualmente, nos empurra em direção ao outro. A arte dá ainda a esse olhar e sensação a chance de ser ampliado para experiências cujo contato direto talvez não seja possível. E não é necessário extrapolar a realidade para encantar e conectar, fazer rir, chorar ou se frustrar com um acontecimento infeliz, só é necessário mostrar uma pessoa, e dar a ela o espaço necessário para navegar na história. 

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