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Watchmen - por Alan Moore: Crítica e análise de mídia

Watchmen é sobre como olhar para a sua geração e fazer críticas contemporâneas - um achado no mercado atual cada vez mais cego para a autocrítica.

A obra é um respiro em um gênero saturado por decisões ruins e péssimas lideranças editoriais, além de uma crise em imagem por conta do Robin e do Batman serem próximos demais.

Quando um mercado ou um tema satura, a gente tem geralmente uma paródia ou uma crítica ao estilo/gênero. A literatura costuma funcionar assim: pegue Don Quixote por exemplo, é um grande deboche das aventuras de capa e espada tão comuns na Europa até aquele ponto.

Pegue, então, o final de Anjos da Lei 2, em que eles parodiam Hollywood e sua mania de fazer sequências de filme criando uma montagem de pôsteres e mini trailers de potenciais sequências para a saga - uma mais absurda que a outra. Depois, compare com a série de filmes Velozes e Furiosos... A paródia não poderia ser mais assertiva.

Deixando de lado o humor, vamos para a parte mais crítica. Do classicismo para o barroco e do barroco para o arcadismo tivemos mais ou menos o mesmo problema: técnico demais e sem alma, religioso e exagerado demais, bucólico e técnico demais. Então veio o romantismo e todo mundo ficou mais ou menos satisfeito com a ideia e muito triste nas histórias e na arte - romantismo é o emo das artes.

Depois do romantismo, veio realismo e naturalismo e todo mundo começou a tirar sarro daquele drama todo. É igual passar da adolescência pra vida adulta. Tirando o fato de que cada movimento dura mais ou menos um século.

Nos quadrinhos, foi parecido. A Era de Ouro dos heróis é marcada por alto ganho, variedade de heróis e histórias diversas - um experimentalismo fomentado por um mercado editorial aquecido no pós-guerra dos EUA, país que só se beneficiou com o conflito. 

Já a Era de Prata é marcada por censura e histórias mais humorísticas e leves para desfazer o viés negativo da percepção estadunidense sobre os heróis. Toda a implicância começa com um pseudopsicólogo dizendo que tinha provas sobre as relações carnais entre Batman e Robin. Notícias falsas não são de hoje e, naquela época, o problema se encerra na forma de um comitê regulamentador para analisar o viés das histórias. 

A Era de Bronze conta com a volta do pessimismo e de uma literatura mais sombria, temas pautados em problemas sociais, econômicos e raciais. Tudo isso é fomentado por um cenário social, político e econômico de caos nos EUA. É impossível entender arte sem entender cultura e sociedade, por isso toda arte é inerentemente política. Mas aqui já me desvio do assunto principal. A sociedade estadunidense enfrentava um período de crise: violência urbana, guerra às drogas, a crise da AIDS, economia em colapso por problemas com o mercado do petróleo e a lista segue. 

Desse cenário caótico da falta de respostas surgem vários clássicos. Eu já falei de um deles: Batman, o Cavaleiro das Trevas.

Hoje é dia de falar de outro, Watchmen, pelo mago louco Alan Moore.

Como Watchmen estabelece uma crítica ao gênero de herói sendo um quadrinho de heróis

Histórias de heróis não são feitas para serem realistas, elas são feitas para inspirar. Os heróis são uma nova adaptação do ícone grego, eles servem para despertar nas pessoas sentimentos elevados. Mas, dentro de um contexto realista, a figura dos vigilantes como personagens ativos de um sistema político é, para dizer o mínimo, anárquica.

Não à toa eu comento em meu artigo sobre o Batman do Frank Miller em como ele se aproxima bastante de uma ideia meio fascista de justiça. O bilionário Bruce Wayne se isola em sua torre de marfim e dinheiro, saindo apenas para surrar mendigos, pequenos bandidos, prostitutas e moradores de rua. A violência é usada como forma de escape para o personagem, sem nunca transformar Gotham City em um lugar melhor. Talvez, se o dinheiro de Bruce fosse aplicado em políticas públicas de saúde, educação e segurança, Gotham realmente se tornasse melhor.

A verdade é que um sistema paramilitar de justiça, desvinculado do Estado e que atua de maneira direta possuindo meios e poderes para se sustentar e crescer dessa forma é, convenhamos, receita para o caos. O que Watchmen faz é justamente mostrar como isso ocorreria na década de 80 e como aqueles heróis surgiriam no contexto sociopolítico de um EUA quebrado.

A primeira onda de heróis vem quando o pico de criminalidade nos EUA está altíssimo, durante o período entreguerras, se não me engano (na vida real, esse pico em cidades grandes foi na década de 20). Os heróis como Manhattan e Comediante mudam o rumo da guerra do Vietnã com sua interferência, os EUA possuem uma força vinculada ao Estado que não se compara.

Na década de 80, os surtos de violência voltaram e foram uma das inspirações para o Dark Knight, mas também foram para Moore. Enquanto Frank Miller reforça a figura do vigilante como um ícone a ser admirado por sua vontade de mudar o mundo sozinho e sua capacidade de desafiar as autoridades maiores que si (o Estado, Superman, a morte), Moore mostra como era decadente esse conceito idealizado do vigilante. 

Moore desmonta a ideia do herói enquanto desmonta também os próprios EUA e a política neoliberal da era Reagan. O mundo estava à beira do colapso de uma guerra nuclear. Nações ultra poderosas brigavam e usavam de sua influência em pequenos países para testarem suas ideologias na forma de guerrilhas armadas. A CIA deu armas à milícia afegã que se transformou na Al Qaeda, o FBI matou Martin Luther King JR. e isso é só um dos poucos exemplos públicos que temos disponíveis hoje. No meio disso tudo, o povo comum se vê alheio às decisões e refém dos resultados. Quem vigia os vigilantes?

Quando a história acaba, a gente tem ali uma resposta clara. Ninguém vigia os vigilantes. Eles agem por conta própria. Alan Moore desmonta o herói como figura imbatível e incorruptível. O que leva um homem a se fantasiar e sair pelas ruas combatendo o crime não é a moral e a ética, é uma mente perturbada e graves problemas sociais. Com poder, esses homens são imparáveis. Não há controle, apenas a força dos deuses agindo e intercedendo conforme suas vontades.

O argumento principal da narrativa, a busca de Rorscharch, que encarna o arquétipo do vigilante fascista na história - em que a violência é o único meio de punição satisfatório -, por uma razão pelas ações do Comediante nos leva a uma jornada através de uma miríade de acontecimentos e consequências pelo uso do poder acima da vida civil.

Quando autoproclamados guerreiros da justiça, os heróis rompem o pacto social com o Estado e passam a navegar em uma área além da justiça - estão mais próximos dos vilões que do ideal almejado. E não há uma razão para buscar o cumprimento da lei estando fora dela que não seja o ego. É necessário ignorar a hipocrisia irônica da posição do vigilante para assumir esse posto.

Não pense, contudo, que esse é um artigo conformista. Eu também não acredito que o sistema se muda por dentro, com transformações civis em conformidade com as normas aplicadas pelos Estados. A primeira regra do jogo é que o jogo não deve ser alterado. Logo, a revolução se configura como elemento fundamental para a transformação. E não há heróis na revolução, apenas uma massa amorfa se movendo em direção a um cenário parcialmente desenhado pelo desejo de sair do Zeitgeist rumo a outra coisa. Moore sabia que seus heróis, no fim, eram apenas destruidores sem propósito - a ação final de Ozmandias apenas confirma como a decisão narcisista de um único homem se sustenta além de qualquer real transformação em sociedade.

Leia Watchmen.

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