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O Japão é um país que ficou bem marcado pela Segunda Guerra Mundial.
Não só pelas derrotas cruéis, mas pelas vitórias brutais na China e no Sudeste Asiático.
A Segunda Guerra Mundial foi um período decisivo para a cultura e para o povo japonês. Uma transformação radical ocorreu ali quando os EUA entraram e colocaram o país de joelhos. O imperador foi obrigado a andar na rua publicamente, uma rendição forçada e desonrosa para o povo.
Aliado a tudo isso, um processo de reconstrução rápido e delinquente.
Eu não vou falar muito sobre o desenvolvimento do Japão e em como isso impactou a cultura, tem um vídeo bem interessante sobre Super Mario e Surrealismo nesse canal aí embaixo oh:
Caso você queira um resumo sobre globalização e o Japão dos anos 80, eu tenho este artigo sobre Jazz Fusion.
Se você reparar, o Japão tem uma produção cultural muito própria. Eles assimilam certos comportamentos ocidentais, mas mantém muitas características orientais dentro das obras. É como um processo de antropofagia - um nacionalismo ufanista, na verdade. São um povo muito fechado.
E o que isso tem a ver com o título desse artigo? Estou fazendo introduções cada vez mais longas.
Numa história em que um soldado mutilado volta da guerra e precisa aprender a se comunicar e estabelecer relações com pessoas fora desse conflito enquanto começa a contar a vida de outras pessoas através de cartas, eu vi muitas marcas desse Japão pós-guerra.
A história em Violet Evergarden
A série original da Netflix, baseada na light novel de Kana Akatsuki e produzida pelo estúdio Kyouto Animation, conta sobre a vida da Violet, uma jovem criada dentro do exército como uma arma viva, uma assassina militar sob o comando do major Gilbert Bougainville. Tudo muda depois que a guerra acaba e a jovem é encontrada em meio aos destroços, sem os dois braços.
Precisando estabelecer uma vida civil, já que o major está desaparecido, a menina ganha próteses de metal (bem similares às de Fullmetal Alchemist) e um emprego na companhia postal de um amigo do ex-comandante.
Na necessidade de se adaptar ao contexto civil em uma sociedade ainda com recentes marcas da guerra, Violet tem que encontrar dentro de si aqueles sentimentos reprimidos na dura rotina militar, bem como encontrar uma maneira de se expressar diante do mundo.
É, em essência, uma busca pela identidade da personagem. E você acompanha todas essas histórias de uma nação recém-saída de um grande conflito, com seus habitantes marcados profundamente pelos traumas dos últimos anos.
Fica aqui o aviso, é uma série de drama. Embora existam cenas de ação bem coreografadas e com uma fotografia impecável, o foco é no drama e no desenvolvimento de Violet Evergarden - ou seja, dá pra chorar um bocado.
O argumento da série
O grande argumento dos roteiristas é de que Violet Evergarden, criada em meio às fileiras do exército por seu tutor, major Bougainville, não conhece os sentimentos humanos.
É uma premissa um tanto exagerada, especialmente quando consideramos todos os fatores envolvidos. Contudo, sob a perspectiva da suspensão de crença, é possível aceitar essa ideia na animação.
Como ponto de comparação, a própria noção criada pela nossa cultura ocidental dos japoneses como um povo frio e fechado se enquadra um pouco na personagem. Violet pouco fala e pouco demonstra, o mesmo que muitos acreditam ser verdade nos nipônicos.
O desafio da personagem é encontrar dentro de si, através de experiências externas como Autômata de Automemórias (quase o mesmo papel da personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil), os sentimentos negados durante o período militar.
As autômatas são mulheres responsáveis por escrever cartas para pessoas que não podem ou simplesmente não querem escrever a própria mensagem. Com isso, essas mulheres são contratadas para expressar sentimentos de terceiros em mensagens que soem verdadeiras.
Para qualquer pessoa com o mínimo de empatia e um pouco de prática na escrita, isso seria uma atividade com um grau de dificuldade aceitável, mas enquanto Violet é essa personagem dessensibilizada pela vida militar, a tarefa de decifrar as pessoas e seus sentimentos, suas razões por trás disso, fazem da escrita uma tarefa mais complexa.
Está aí o conflito da personagem ao longo da série: aprender a se comunicar e entender como os outros se comunicam a partir da experiência pessoal.
A comunicação no pós-guerra
Acho que uma maneira romântica de enxergar os conflitos entre nações seja “falta de comunicação”. No fim, na perspectiva mais básica e instintiva, isso não deixa de ter valor, embora continue um tanto fantasioso - matamos porque não nos entendemos, odiamos por não saber - já que, na verdade, a guerra atende a uma necessidade de acúmulo de capital das elites e extermínio das classes baixas através da utilização do povo como ferramenta de guerra dispensável.
Indo além disso... embora os conflitos possam existir por inúmeros motivos, a paz só pode vir da convivência harmoniosa, e laços de aliança nascem da comunicação. Essa parte, pelo menos, tem verdade por inteiro. Mesmo que argumente a favor do interesse como fator de ligação, só pode haver ligação se primeiro houver a comunicação entre os lados.
As cartas são a maneira mais elegante dessa comunicação, e a única forma de colocar a personagem de Violet como mediadora de sentimentos alheios.
Até por isso, a cronologia distinta da obra, com bastante influência do período da Primeira Guerra Mundial, apela para as cartas como forma fundamental de contato entre pessoas. Violet Evergarden é um steampunk suavizado o suficiente para não gerar estranheza nos fãs ocidentais desacostumados aos animes.
Voltando à comunicação no pós-guerra...
O Japão passa por alguns períodos de abertura política e fechamento notáveis. Os mais antigos não vale mencionar aqui, mas o mais recente ocorre na Era Meiji, virada do século 19 para o século 20, com pressão das potências europeias e dos EUA.
Os impactos disso na cultura daquela época podem ser vistos nas obras do Hiroshige, artigo completo aqui.
Rendido pelos EUA sob condições brutais após a Segunda Guerra (além de Hiroshima e Nagazaki), a nação nipônica é obrigada a aceitar diferentes imposições culturais, de mercado e de costumes. O Japão é obrigado a se comunicar, mas seria melhor dizer que o país foi obrigado a ouvir o Ocidente.
De volta à Violet Evergarden
A série tem por hora apenas uma temporada, um OVA (como se fosse um filme) e uns dois especiais. Eu não lembro de ter visto tudo então é possível que, em algum momento, reassista todo o projeto do começo.
Visualmente, o Kyouto Animation faz um trabalho excepcional com a obra. Em termos narrativos, Violet Evergarden assume poucos riscos, mas cada núcleo e história contada é extremamente humano e entrega uma carga dramática potente.
Recomendo a todos.

