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Retornos, xilogravuras do Utagawa Hiroshige, Os Sete Samurais & mais um pouco

 Os últimos meses foram uma confusão inacreditável. Mudança de casa, persistência da pandemia graças ao desgoverno desgraçado que lidera essa nação, dificuldades pessoais em lidar com uma rotina fora do trabalho e, bem, no geral foi isso mesmo. 

E cá estou eu mais uma vez, preso no mesmo buraco, reclamando das mesmas coisas. 

Eu não me lembro ao certo, mas certa vez li ou ouvi em algum lugar que a inspiração do Tolkien para os Hobbits estava na Inglaterra rural e naquele hábito bucólico e livre as mazelas industriais - algo assim. 

Daria tudo para ser um Hobbit agora: comer bem, beber bem, sorrir, andar descalço e nada além disso além de dormir em uma cama confortável em minha toca. Mas eu me prendi à internet graças ao trabalho então preciso permanecer, por hora, neste outro buraco. 

Meus projetos continuam em vista, mas eu tenho dificuldade em organizá-los, os prazos mudam todas as semanas como trens que nunca chegam à estação. Eu ouço o apito e não vejo as máquinas. Sigamos então a passos largos. 

Eu abri esse blog e vi uma série de publicações atravancadas nos rascunhos. Dezenas de ideias estacionadas aguardando a vez. Algumas são boas, até. Outras são só uma forma de ventilar sobre as coisas que gosto e as coisas que me chamam atenção.

Um dos meus interesses mais recentes têm sido xilogravuras japonesas do século 19, incluindo principalmente as do Utagawa Hiroshige. Ele é um dos grandes mestres dessa arte e você acha originais dele no mercado de arte por 500 euros - uma barganha, mas um valor baixo considerando que as xilogravuras eram comercializadas para o público amplo, reimpressas inúmeras vezes. 


A imagem do campo de árvores de ameixa é bem famosa e o Van Gogh inclusive chegou a reproduzi-la. O japonismo na época do pintor holandês estava em alta, e o uso de degradês e perspectiva do Hiroshige chamou a atenção do bom e velho Vincent.

Japonismo é o nome dado na arte pra obsessão de artistas ocidentais com o Japão. Ocorre de tempos em tempos. Na época do Van Gogh, o principal motivo era a abertura comercial e política (à força) do país asiático para os imperialistas europeus e aos EUA. 

A versão do Van Gogh é uma cópia literal do quadro, buscando compreender forma, estilo e uso de cores. Ainda assim, é possível ver o estilo dele na aplicação. 

As obras do Hiroshige surpreendem pela complexidade. Pode não parecer, mas xilogravura é um trampo infernal. É necessário imprimir na tela uma cor por vez, das mais ao fundo às frontais. Com isso, é necessário mapear exatamente onde vai o que. Xilogravura é impressão usando uma "tábua de madeira", você precisa de um molde para cada cor. 

Para piorar, o Hiroshige era grande adepto de degradês, o que dava um trabalho enorme aos responsáveis pelas cores, e também usava de muitos efeitos de partículas em primeiro plano (chuva e neve), o que tornava o trabalho ainda mais complexo, já que os traços eram sobrepostos.

Somado a isso, o Hiroshige era inovador nas suas pinturas ao aplicar o uso de perspectiva. Você pode ver bem na imagem acima como o horizonte é bem delimitado e a pintura tem um caráter mais realista. Essa é uma referência ocidental que o artesão japonês aplicou à própria obra. Ele frequentemente dava um jeito de arranjar quadros e materiais de referência advindos da Europa. 

De maneira cíclica, ele se inspirou na arte ocidental, para depois inspirá-la.

Isso me lembra outra história. Antes dela, contudo, para entender o quão trabalhoso era fazer uma xilogravura na época do Utagawa Hiroshige, confere o vídeo abaixo:


Agora, ao que lembrei. 

O Akira Kurosawa é um dos maiores diretores de todos os tempos. Ele fez uma série de filmes marcantes e, entre eles, Shichinin no Samurai, Os Sete Samurai para os fãs da língua nativa. Um ponto interessante, contudo, e novamente eu não lembro a fonte de referência, é que o Kurosawa teve como uma de suas inspirações para a história de um grupo de samurais que se une para ajudar uma vila de camponeses a se defender contra bandidos as histórias de faroeste. 

Hollywood, na sua pobreza intelectual nativa, transformou a história de Kurosawa em um Western: Sete Homens e um Destino. É exatamente a mesma história, agora embranquecida e ianquinizada com o discurso de destino manifesto e outras coisas mais. 

O Kurosawa teve como uma das inspirações os westerns, os westerns reaproveitaram o que ele fez para recontar a mesma história. Mas isso não é japonismo. 

O japonismo adota claramente os elementos estéticos e culturais sob um novo contexto. Eu sinceramente não sei o que achar disso, porque grande parte do interesse ocidental na produção japonesa envolve um fetichismo descontrolado. 

Hoje, os quadrinhos e animações japoneses movimentam fãs no mundo todo. Uma parte desse público não consegue fazer distinção de uma série de fatores. O entretenimento de massa não permite um consumo crítico. Você tem então os weebos, em inglês, ou otakus, termo que em japonês significa um fã obcecado com qualquer coisa (e tem conotação extremamente negativa), mas que no Brasil foi adaptado para tratar dos fãs desse segmento. 

A linha entre um consumo pasteurizado de produções de outros países sem a distinção e a capacidade crítica para entender as nuances culturais e o interesse genuíno em obras de locais distintos é tênue demais pra mim. 

De qualquer forma, acho que esse post já se esticou muito mais do que deveria. Eu quero voltar a publicar aqui mais frequentemente. Espero que dê certo.