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Outro novo começo e o mito de Sísifo recriado

 Eu não aguento mais recomeçar as coisas. É com esse pensamento que eu começo mais um artigo aqui nesse blog. Enquanto minhas análises sobre animes não voltam, eu vou falar sobre outras coisas que penso. 

Esse era o visual da minha sacada no décimo segundo andar


Enfim, eu me mudei mais uma vez, depois de dois anos no mesmo apartamento. Era um lugar bacana, com um visual lindo, mas eu tive que ir embora porque o imóvel estava para ser vendido. Tristeza, tristeza, tristeza.

Por outro lado, nesse ano estou determinado a finalizar meu próximo livro de contos e relançar o Réquiem com a atenção que ele merece. Junto a isso, começar produções audiovisuais das minhas músicas.

O problema é que todo esse processo me parece um recomeço, uma volta à linha de partida. Com a pandemia, adiei grande parte dos meus projetos porque perdi minha fonte de renda e parte da vontade de continuar com muitas coisas. A ideia era ter tempo para me reorganizar, mas nem isso consegui, acho que me perdi ainda mais nas minhas ideias e prioridades.

O ponto é que estou em um apartamento novo, e enquanto recomeço tudo outra vez, penso aqui em ter calma e paciência. A meta para esse ano é juntar dinheiro, então não poderei investir em tantos projetos ao mesmo tempo, isso vai me ajudar a selecionar as coisas verdadeiramente importantes, a entender o que de fato quero para minha vida. 

A metáfora que mais retorna à minha cabeça, quase todos os dias, de maneira irônica, é a do mito de Sísifo.

De acordo com a lenda grega, Sísifo era filho de Éolo, um dos deuses do vento, e rei da Tessália. Sísifo era tido como um dos homens mais espertos da Grécia Mitológica, e por isso mesmo seria pai de Ulisses, o pobre coitado da Odisséia. 

Pela lenda, Sísifo contou a um deus do rio que Zeus havia levado sua filha, o que enfureceu o rei do Olimpo, já que seu esquema de rapto de donzelas fora exposto mais uma vez. Como punição, Zeus enviou Tanatos para punir o rei grego, mas Sísifo era mais esperto que qualquer mortal e, dessa forma, prendeu o deus da morte.

O que começou como leve fofoca se transformou em engarrafamento para o reino dos mortos, já que não era possível chegar aos domínios de Hades sem Tanatos. Por essa razão, Ares é enviado para resgatar Tanatos.

Nesse ponto, Sisifo já sabia que sua hora ia chegar, pois conseguiu estressar meio Olimpo sozinho através de pequenos esquemas. Tendo isso em mente, disse à própria esposa para não prestar as homenagens póstumas devidas - desrespeito proposital? Não, estratégia. 

Ao morrer, Sísifo pediu uma audiência com o rei do reino dos mortos, o filho mais velho de Gaia, Hades. 

"Olha, Hades, veja bem, entenda o desrespeito", deve ter começado a falar o rei da Tessália, "Minha esposa esqueceu dos meus ritos fúnebres e eu vim para cá sem preparo, sem os devidos cuidados, sem as devidas oferendas. E posso eu, EU, Sísifo, um rei, morrer sem as honrarias mínimas? Porque você entenda bem, ela não prestou uma reza sequer, eu imagino que nem deva ter chorado no funeral desse jeito, porque minha esposa, minha própria esposa, nesse caso uma rainha, não se dignou a pagar por uma cerimônia ou mandar os servos abanarem uma folha sobre a pira fumegante do meu cadáver... Fui completamente abandonado e desrespeitado. Como posso eu, um rei, chegar aqui, diante de outro rei, até maior do que eu, um rei olimpiano, governador do mundo dos mortos, como posso então, nesse caso, chegar aqui de mãos abanando, quase nu sem o respeito dos vivos por mim? É indignante, não acha? Eu, pelo menos, acho. E, claro, com a sua permissão, se possível, gostaria de retornar brevemente ao mundo dos vivos para punir minha esposa. É um absurdo que ela não tenha realizado os ritos, uma violação grave das normas e tradições que sustentam o mundo dos mortais, mortais esses que seguem essas regras e leis tão maiores que si por respeito às grandes entidades, como você mesmo. Um desrespeito aos ritos fúnebres é um desrespeito a você, não acha? Por isso, se eu puder voltar rapidamente, só por uns quinze minutos, talvez menos, para punir minha mulher, assustá-la talvez, e voltar para cá, irá me prestar um enorme favor, tão grande que não posso sequer definir em palavras. O que me diz?"

E com palavras assim, eu imagino, Sisifo conseguiu um passe breve até a terra para, supostamente, punir sua esposa pelo desrespeito pós-morte. 

Tudo era, obviamente, um grande esquema para escapar do fim da vida. Sísifo fugiu, e isso irritou ainda mais os olimpianos. 

Hermes, o mensageiro dos deuses, foi encarregado de buscar o rei da Tessália e arrastá-lo para um castigo pior que a própria morte.

Veja bem, o reino dos mortos, Hades, governado pelo rei dos mortos, Hades, possui uma área especial para infratores graves da lei olimpiana. Ao redor do Tártaro, o antigo Deus Primordial transformado em buraco gigante e lixeira divina, ficam alguns dos piores castigos da Grécia Mitológica. Entre esses castigos está o de Sísifo.

Como punição por tamanho desrespeito às leis divinas e à ordem natural das coisas (incluindo o "direito" de Zeus ter qualquer mulher, seja deusa ou mortal), Sísifo foi condenado a empurrar uma enorme pedra morro acima, suando e estourando veias e músculos para isso. Próximo do topo, exausto ao fim do dia de trabalho, Sísifo vê a pedra rolar morro abaixo, e deve recomeçar sua labuta, sem poder descansar. 

Essa história é tão potente que já serviu de análise para diversas áreas, incluindo, se não me engano, Freud ou Jung (e não vou pesquisar pois, em grande parte, não me importo com nenhum dos dois). 

O ponto é que, por tanto esforço e recomeços, em alguns dias me sinto Sísifo, mas penso não ter merecido o castigo. O ponto é: o castigo existe de fato? E, se existe, será que não mereço?

Sem conclusões hoje, encerro em um anticlímax e deixo para sábado uma próxima carta. Talvez nessa semana uma análise sobre anime.

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