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A Pergunta no Espelho - 3 anos depois do lançamento físico

A vida tem umas viradas irônicas. 

Em 2015, eu comecei a escrever o que viria a ser A Pergunta no Espelho, meu primeiro livro publicado de maneira independente. 

Tantas semanas sem escrever para esse blog, será que eu ainda sei?

Enfim, 6 anos do primeiro manuscrito. O tempo passa rápido demais. Tudo começou por acaso, mas as peças foram se encaixando. Eu fazia intercâmbio em Nashville, Arkansas, uma cidade de 4700 habitantes em um estado rural dos EUA. Na época, eu trabalhava em outra história, mas queria aplicar para a Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura em Juiz de Fora. 

Por morar em uma fazenda, eu vivia longe da cidade e do contato direto com meus amigos da escola. Me sobravam longas horas na casa, e a internet era limitada, de forma que eu não podia passar o dia todo navegando pelo YouTube. Fui, por isso, quase obrigado a escrever. Escrevia todos os dias, tanto as histórias que viraram livros quanto as bobeiras que viraram um outro blog (mas não vou falar dele agora)

Ao consultar meu primo, Tiago Rattes, também escritor, me veio a ideia de contar uma história mais regional, mais próxima de uma realidade que talvez fosse palatável ao júri de análise da FUNALFA. 

Eu tinha essa cara quando escrevi o livro

Foi com essa mentalidade que, um dia, pus a primeira frase no documento: Foi só naquele dia que se deu conta de que sua vida havia saído do controle. 

Ou qualquer coisa assim. 

A Pergunta no Espelho é um livro que me gera sentimentos mistos, e eu vou explicar uma parte desses sentimentos mais para frente, mas primeiro vou narrar a saga da publicação dessa história. 

Assim que eu voltei do meu intercâmbio, depois de 5 meses, eu tinha o manuscrito original pronto. Minha ideia original era publicar pela FUNALFA porque eu não acreditava que uma editora me publicaria. 17 anos nas costas, zero inserção no mercado editorial, sem público formado etc. os fatores jogavam contra mim. 

Em novembro de 2015 eu já havia feito tudo para tentar a aprovação na Lei Murilo Mendes, mas fui recusado na segunda etapa. Foi do sentimento de rancor pela recusa que eu comecei o Pergaminho Virtual, onde eu pude, por alguns anos, aperfeiçoar a minha escrita e conhecer inúmeros escritores melhores que eu. 

A Pergunta no Espelho permaneceu arquivada por todo o ano de 2016, já que eu estava focado no site e no primeiro ano de faculdade. Naquele ano eu lancei apenas um conto curto chamado A Pedra no Caminho sobre uma cidade que fica isolada graças ao aparecimento misterioso de uma rocha no meio da estrada. 

Mas a vontade de publicar um livro persistia. O Pergaminho Virtual cresceu e em 2017 eu senti uma enorme pressão interna para publicar meu primeiro livro. Eu sentia que o tempo estava passando e eu perdia minha juventude não tendo um projeto físico e palpável. 

Foi quando decidi recorrer à KDP da Amazon para publicar meu livro de maneira independente. Também contei com a revisão do Renan Duarte para ajudar a polir melhor o material. Fiz a capa sozinho, fiz a diagramação sozinho, fiz a divulgação sozinho. O livro entrou no ar em Novembro de 2017 no site da Amazon. No começo, era apenas digital, para o Kindle. 

Isso parece que ocorreu 20 anos atrás, não 4. Outro João Pedro, outra vida. 

Na virada do ano, no começo de 2018, formatei o livro para fazer a versão física. Meu pai investiu um dinheiro para pagarmos pelas unidades e pelo frete. Depois de um atraso de uma semana da encomenda, um regalo da Receita Federal que segurou os livros e os manteve fora do rastreio dos correios brasileiros e norte-americanos, chegaram as 100 unidades d'A Pergunta no Espelho.

Essa foi a foto que usei pra anunciar o livro no Facebook

Esse, inclusive, foi o primeiro post.

No ano anterior, eu participei ainda da FliMinas, apresentando no palco principal algumas poesias. 

Eu, Set, José Sávio Lanzoni e João Pedro Niemeyer, todos do Pergaminho Virtual apresentando

4 anos depois e eu ainda não vendi todas as unidades físicas. Já devolvi a maior parte do dinheiro das vendas pro meu pai recuperar o investimento dele (em parte). 

4 anos depois e parece que essa vai ser a minha única contribuição para a literatura. O Réquiem já saiu também, e vou fazer uma publicação sobre ele no futuro, com novidades, mas não é a mesma coisa. 

A Pergunta no Espelho virou por anos um lembrete constante do meu trabalho. Tem coisas no livro que eu adoro, mas tem coisas que eu odeio de verdade. O livro é um lembrete da minha imaturidade e do meu ego quando comecei. Eu achei que com um único livro eu teria uma carreira literária garantida. 

Há uma grande imaturidade na escrita, tanto em técnica quanto em ideias. Ao mesmo tempo, para mim, o tema central ficou mais atual do que nunca. 

Hoje eu me encaro no espelho e faço a mesma pergunta que o Carlos, protagonista do livro, se fazia: Quem é você? O que você vai fazer agora?

Eu passo cada vez mais dias e noites cansado, tentando entender o que eu devo fazer e para onde ir, me perguntando se ainda vale a pena insistir na arte mesmo como hobby... É um fardo. E essas perguntas me assombram ainda mais quando tento seguir com novos projetos. 

A Pergunta no Espelho não vendeu como eu queria, eu não consegui o reconhecimento que queria, mas eu também não me esforcei o suficiente para isso. E eu falo com total honestidade. A arrogância de achar que o reconhecimento iria me encontrar foi uma das razões para isso. 

Hoje eu teria muito mais cuidado para desenvolver um projeto desse porte. Eu tento ter, ao menos. 

Eu lembrei do livro por conta de uma lembrança no Facebook, e porque uma série brasileira na Netflix usou elementos similares aos que usei na narrativa, especialmente na trama do Saulo. Coincidências. Mas tanto a série quanto o livro pecam na abordagem. Inocência ao querer falar de uma identidade brasileira sem nem entender bem sobre o que estava falando, um certo ufanismo na abordagem, um sonho de identidade brasileira nuclear e bem definida - mas ao menos tive a capacidade de reconhecer as dificuldades de se criar uma identidade nacional em um país colonizado.

Os três capítulos que escrevi para o livro físico, Saulo, Olívia e Qual é o Seu Nome? seguem como os destaques da narrativa. Eu já tinha mais experiência escrevendo, eu soube trabalhar o conceito de identidade de maneiras distintas ali dentro. São personagens mais palatáveis que o Carlos. 

Esse artigo ficou gigante, mas eu queria trazer algumas lembranças dessa época. Acho que a literatura segue sendo meu expurgo e minha catarse de sentimentos. 

Essa foi a primeira ideia de capa que tive para o livro

Eu me lembro de experimentar formas e maneiras de dispor os elementos, mas abandonei essa capa por ter muitos elementos. Seria difícil fazer a impressão da capa da maneira como queria usando esse design.

Essa é a capa da versão digital até hoje.

Eu gosto muito desse desenho. Ele representa um pouco do que eu queria com a narrativa. O acabamento é péssimo, eu tenho vontade de refazer as cores, inclusive, mas eu gosto do traço, de como os elementos estão dispostos. Me agrada muito. Foi uma das primeiras vezes que usei o Photoshop por conta própria. 

Capa da versão física do livro.

Essa capa me gera amor e ódio. Ao mesmo tempo em que acho genial o reflexo do rosto em linha contínua se expandindo infinitamente em reflexos melhores, eu acho também que poderia ter dado um acabamento melhor à capa. 

Eu gosto da capa cinzenta, do tom frio e da pouca informação que passa. 

A introdução do livro também é muito bacana. Eu colocaria ela por inteiro aqui, mas vai ficar um artigo comprido demais. 

É engraçado, conforme escrevo este artigo e relembro o processo de criação e publicação do livro, vêm à mente mais memórias positivas que negativas. A história mostra um passado gentil, mas o sentimento é de reprimenda e rancor por algum motivo. 

Eu publiquei meu primeiro livro com 19 anos. Desde então, nunca mais terminei outro romance. Venho trabalhando em novos projetos, em novos contos, mas nada teve essa mesma ousadia, essa mesma vontade, essa mesma coragem... 

O livro tem os primeiros capítulos muito sólidos. O último capítulo também é bem interessante. Isso foi numa época em que eu conseguia manter uma cadência de 3 a 4 páginas escritas por dia ao longo de semanas. Eu revisei o livro umas 5 vezes antes de passar pro Renan fazer as correções gramaticais. 

Eu vou tentar ser mais gentil com esse livro daqui pra frente. Talvez eu até releia ele, aproveitando que tenho algumas unidades paradas e sem venda. 

Por hoje, é o que temos de história.

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