Pular para o conteúdo principal

Carta de Sábado #2: Aquela Fé - Don L & Nego Gallo

Com o passar dos anos, o único sentimento recorrente foi este. Olhar para trás e me imaginar mais feliz anteriormente. 

Há uma frase, como muitas outras frases marcantes do Don L, que me acompanha quase todos os dias. "Eu sinto falta daquele moleque zica, devoto da santa ignorância, um moleque insano". 

Aos 12 anos, meu sonho era ser astrônomo, explorar o espaço. Aos 14, eu queria ser desenhista, trabalhar no Japão e criar uma história conhecida mundialmente. Cheguei aos 16 pensando em ser escritor. Com 18, meu plano era criar um espaço colaborativo que abrisse portas para novos artistas. Passei meus 20 anos pensando no fracasso do meu primeiro livro. 22 anos e eu já não tinha nada, só uma carga enorme sobre os ombros e nenhuma direção. 

Quando eu ouço esse verso do Don L, na música Aquela Fé, eu penso muito no João Pedro de 12 anos. Não pela juventude em si. Eu sempre quis ser velho. Meu plano sempre foi conseguir esse poder, esse status da maioridade. Mas eu penso nesses sonhos, nessas utopias inocentes. Depois de maculada a mente, não é possível purificá-la mais. Há aquela famosa frase atribuída ao Einstein: A mente uma vez expandida jamais retorna ao seu tamanho original. É impossível voltar a ser feliz com aquele mesmo status de tranquilidade. 

Nos dias mais puxados, preso entre crises ansiosas e sentimentos depressivos, ainda me resta racionalidade e pontadas esporádicas de energia para procurar por uma resposta. É sempre assim que eu dou play nesse som.

E então a música corre, e vejo pintada uma cena similar na letra. Roteiro para Ainouz vol.3 é um álbum muito bonito e muito inteligente em diferentes aspectos, mas acho que Aquela Fé se destaca pela mensagem, pela busca. Os próprios comentários no vídeo do YouTube são de pessoas compartilhando suas experiências, dividindo momentos difíceis e mostrando como conseguiram sair ou passaram por isso. É impossível sair incólume de certos acontecimentos, ficam traumas. 

Quando eu falei ali em cima que eu penso no João Pedro de 12 anos, há um pequeno engano, é válida a correção. Eu penso no João Pedro de 18 anos, com um futuro pela frente e uma perspectiva clara em mente. Havia clareza nas intenções, e imaturidade suficiente para seguir com convicções não importassem os desafios, mas de lá para cá eu aprendi a ser um pouco mais humilde através de erros substanciais e constantes. 

"Ah, que saudade do que eu nunca mais vi 
No fundo dos meus olhos 
Será memo que eu me perdi 
Pelos meus caminhos tortos"

É normal acordar, dia sim dia não, alternando estados de euforia e desespero, pensando em como foi possível deixar as coisas darem tão errado assim de repente. É como acordar de um sonho todos os dias, repentinamente, e se descobrir longe de casa, mas esses sentimentos não florescem na madrugada, levam tempo para serem cultivados. Esse tipo de temor são ervas daninhas que deixamos crescer no jardim da mente. Um verso específico traduz isso pra mim:

"Dez ano atrás 
Eu tenho saudade 
Será que eu consigo lembrar? 
Daquela fé 
No fundo dos olhos de um velho eu 
Um jovem sonhador"

Nesses dias, ouvir Aquela Fé me faz pensar sobre tudo isso, mas me dá uma nova perspectiva. Há esperança de melhora. É preciso acreditar de alguma forma em um escape disso. Olhar pra cima mostra a luz no topo do poço que você mesmo cava. Quando entra o Nego Gallo, essa busca pela resposta vem por uma experiência no cotidiano, o próprio Don L fala sobre isso nos comentários que ele deixou nas músicas, e eu vou encerrar a carta desse sábado com esses comentários, mas ainda me impressiona muito positivamente como a narrativa do Gallo consegue ser tão humana em pedaços tão curtos, em linhas tão sintetizadas. 

"Ás oito no trampo ainda lido com drogas 
Nesse trampo do centro 
Dividindo um café com um mendigo em trapos 
Que canta versos que eu vivi noutro momento"

Esse é um verso do Nego Gallo falando da sua rotina lidando com redução de danos de viciados e pessoas em situação de rua em Fortaleza, e ele traz uma luz pra essa situação, relembra uma jornada e se coloca ali, comparando as cenas. 

Arte traz muitas coisas bonitas. Eu queria que esse artigo chegasse em algum lugar, que no final da narrativa eu pudesse amarrar minha jornada com um ponto final, como as pessoas no comentário do vídeo amarram, mas eu acho que ainda não cheguei nesse ponto, eu só ouço hoje esse som e penso em como as coisas mudaram, tento contextualizar pra mim as coisas positivas que surgiram no meio de toda essa mudança, faço o que for possível pra ir seguindo em frente. 

ps.: Hoje, dois ou três dias depois que escrevi o artigo original, no dia 21/12, eu penso um pouco mais sobre o assunto. Dormir sobre o texto é uma coisa boa. Acho mais um comentário pra colocar aqui.

21.12 É quase uma carta de segunda, mas veja bem.

Há ainda um ponto sobre Aquela Fé que eu não consigo caracterizar. É difícil inserir esse sentimento em uma categoria, rotular. Mas é válido começar falando por mim, de onde parei alguns parágrafos acima. Minha vida mudou muito em três anos. É como se existissem 3 eus, um vivo até 2017, outro vivo até 2020 e esse, o atual, saído de uma fase conturbada. Quando eu olho e penso no que eu queria, era aquele João de 2016, antes dos dilemas, mas eu não posso mudar quem eu me fui, não posso mudar quem me tornei, só posso trabalhar por quem vou ser. É clichê, imagino, mas é um processo enorme. Aquela Fé, pra mim, traz essa luta num outro prisma, ilumina com uma beleza religiosa, com um louvor, aquele passado, mas chama para o futuro sob uma nova luz o mesmo sentimento. É maturidade recorrer a bons momentos, felizes momentos, de outrora, sabendo as razões para me deixar feliz e procurando no cotidiano, sob livros, cadeiras, mesas, atrás de espelhos, debaixo dos pratos, por algo similar. 

A fé do título, pra mim, é mais sobre convicção, acreditar em si. É a visão do Don L sobre seu eu passado em Fortaleza, na época do Costa a Costa, é sobre os momentos difíceis, sobre alguns momentos bons. Me parece ser uma sabedoria específica, a capacidade de enxergar através da tempestade, diretamente para o céu azul.

Ouça a música.


E, abaixo, a transcrição completa do comentário do Don L sobre a música (é uma fala bem longa, e o comentário não tem quebra de parágrafo, então toma fôlego e vai nessa):

"Agora cê pode imaginar que eu fiz flexões até cair de cansaço naquele quartinho da faixa anterior, e quando a câmera dá uma volta de 360 graus pelo cenário e volta pra mim: eu tô sentado no chão da sala de um apartamento no décimo oitavo andar do centro de São Paulo, com vista pra selva de concreto, frenética. Aliás, aquele barraco da faixa anterior também tinha uma vista pra uma outra selva de concreto, só que em frente ao mar, mais ou menos da mesma altura, no topo do morro. Agora as paredes têm reboco e eu tô num cenário de fim de festa, sozinho de novo, em meio às garrafas vazias e bagunça da noite anterior. Sentindo o loop e o peso do cansaço, eu percebo que a diferença principal daquele quarto de favela pra esse apartamento não tá no reboco da parede, nem na vista, nem na cidade, nem em nada em minha volta, mas num tipo de fé ingênua que aquele "velho eu" tinha, e percebendo que perdi em algum ponto do caminho, eu sinto a necessidade dela de volta. Esse é o cenário que eu via quando ouvi pela primeira vez o beat do DJ Caique, que é a instrumental da primeira parte dessa música, no meio de uma dezena que ele tinha me mandado, e eu escutava meio desmotivado, entre uma aba e outra de mensagens de fãs nas redes sociais me falando da relação deles com a minha música. Eu já tava escrevendo uma resposta pra uma dessas mensagens, dizendo pro moleque não seguir meus passos, que não tinha dado muito certo, até que eu percebi que na verdade ele é que tinha o que eu precisava, ele tinha aquela fé que eu tinha perdido, e aí eu só fechei a aba de mensagens e comecei a escrever a música no Evernote. Quando terminei essa parte, pensei que o beat tinha que dar uma virada, a ideia tinha que dar uma virada, minha vida tinha que dar uma virada. Eu tinha que trazer o Constantino nesse som. Eu sempre chamei o Gallo de Constantino [Constantine, o Hellblazer], pela intensidade que ele lida com anjos e demônios na vida dele, e por ser um cara que tem uma fé que sempre me intrigou, que parece que persegue ele e não o contrário. Exorcista de favela. É o cara que o irmão pecador quer trocar uma ideia quando o assunto é muito denso pro pastor. Então a gente faz outro retorno a Fortaleza, na pele de um cara que tava comigo lá em 2007, e que em 2017 tá trampando no resgate de almas, literalmente, nas ruas de Fortaleza, ensinando redução de danos pra viciados em pedra. Quando eu ouvi essa parte que ele diz no verso: “dividindo um café com um mendigo em trapos que canta versos que vivi noutro momento”, reconheci que ele falava do Nathan, moleque que era o fã número 1 do Costa a Costa na quebrada, que em 2016, por aí, eu soube que tava em situação de rua, e nesse dia que o Gallo trombou ele, me mandou um áudio de WhatsApp, cantando um verso nosso daquela época e lembrando um dia que colou num backstage de show nosso, no auge da nossa fé ingênua. Aí tive que chamar o Deryck de novo, e a gente fez aqui em casa a parte final, que eu escrevi enquanto ele criava a linha de piano e já fui gravando a guia, que o Terra Preta depois também ajudou dando um reforço onde minha voz não chega. Eu tinha gravado uma guia do refrão e acabei usando alguns dos meus backings, mas precisava de um cara que conseguisse chegar naquele falsete exatamente como eu queria, com alma, técnica, e a voz ideal. O nome dele é Eddu Ferreira."

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...