Pular para o conteúdo principal

Resumo A Vila - de M. Night Shayamalan

A primeira vez que eu ouvi falar sobre esse filme, eu estava em uma aula de filosofia e o professor dizia que ali havia uma clara alegoria sobre o mito da caverna de Platão. Ou qualquer coisa assim. Eu não me lembro bem porque isso está enterrado em milênios acumulados de outras aulas de filosofia. 

Anos passaram. Vamos adiantar até alguns meses atrás, quando meu pai, um ser humano incapaz de guardar o nome de um filme, mesmo que tenha alugado o mesmo minutos antes (ainda alugamos filmes aqui nesta casa), pediu que eu visse “A vila” na próxima vez que passasse na TV à cabo (também tenho TV à cabo, sou vintage).

Não posso dizer que deixei passar batido a oportunidade. Era a segunda referência clara ao filme que eu tinha. E o melhor, ele estava passando em um looping quase infinito, todos os dias, em um dos canais pagos (desses em que os filmes se repetem por semanas a fio como forma de testar sua atenção e força de vontade até que você veja algum deles). Logo que vi o anúncio da próxima sessão, reservei meu tempo para pôr o filme à prova.

Para a minha surpresa, na sinopse estava o nome de um diretor que, de uns anos para cá, mostrou-se pior do que a seleção brasileira: M. Night Shayamalan. Antes considerado um promissor cineasta por filmes como Corpo Fechado, Sinais e o Sexto Sentido, a primeira década do século XXI foi um acúmulo de críticas negativas para o diretor (não posso me esquecer do terrível filme Depois da Terra com Will Smith e Will Smith Junior, seu clone e filho sem graça - atualmente seguindo carreira musical).

Eu, mesmo não conhecendo muito sobre cinema, conhecia a fama de Shayamalan, mas a curiosidade me segurava e, afinal, o universo pedia que eu desse uma chance para “A vila”.

O filme começou e logo me prendeu. O brilhantismo de Shayamalan ainda existe em algum lugar, só precisa dos fatores certos para isso.

Antes, contudo, sobre minhas considerações cheias de SPOILERS sobre a obra, aqui vai uma pequena sinopse sobre a obra:

Tem uma vila no meio do mato onde vive uma galera medieval assim e muito religiosa que tem medo duns cramunhão no meio das árvores. Então, você tem que ficar pianinho ou eles te levam embora. Aí tem um cara, interpretado pelo Joaquim "Ikky de" Phoenix, que começa a fazer perguntas demais, pega uma cega (que fiquei meio filme tentando entender se era cega mesmo, porque a direção é dúbia nisso), e toma uma facada d’O Pianista. A mina vai atrás de remédio e temos aí o final do filme com muita confusão que eu conto mais pro final.

Só isso que precisa saber. Vila medieval de pessoas velhas esquisitas, cara que faz muitas perguntas, cega com poder mediúnico, a cor vermelha é proibida, cramunhão na floresta. Deixa o Shayamalan fazer a magia dele do jeito certo dessa vez (eu ainda não perdoei ele, apesar disso, pelo péssimo O Último Mestre do Ar).

Vamos ao que interessa, observações sobre o filme.

A primeira parte que é digna de nota é a qualidade dos atores: temos a Sigura o River, o Joaquim Ikky de Fênix, o cara do Pianista da Segunda Guerra, e mais uma quantidade imensa de bons atores que por algum motivo confiaram no Shayamalan (ou precisavam muito de dinheiro ou leram o roteiro e acharam genial). 

O bom elenco entrega uma boa performance, exceto a cega mediúnica com sua habilidade de ler a energia das pessoas e quase enxergar de verdade, Ivy “Johnny” Walker, interpretada por Bryce “Clube de Compra de” Dallas Howard. 

Bryce é um colírio para os olhos dos telespectadores (colírio, entendeu? Porque ela faz uma cega... ah, deixa para lá). Não sei se foi a direção ou a atuação, talvez ambos, mas passei as partes do filme em que ela aparecia hora suspirando apaixonado, hora tentando entender se de fato a lazarenta era cega mesmo ou só meio desastrada (lá pelo meio do filme deu pra entender, mas ainda me incomodava a atuação).

Outra coisa interessante sobre “A vila” é o modo como Shayamalan constrói nossa noção sobre aquele mundo. Acompanhamos inicialmente o personagem de Joaquim Phoenix e temos aquele mundo proibitivo e autoritário controlado pelos conselheiros da cidade. 

A noção de poder parece toda se estabelecer em cima de uma tradição e hierarquias profundamente medievais, com os líderes da família se reunindo em conselho. Na verdade, toda a sociedade que eles constroem tem um pouco dessa noção medieval, quase tribal, com as reuniões das pessoas nas igrejas e o modo como a vida dos indivíduos era regrada pela necessidade de todos. 

Apesar de não haverem ameaças diretas ao longo do filme, até onde minha memória é capaz de alcançar, fica no ar um sentimento de opressão muito forte no sentido vertical, dos adultos para os jovens.

Falando nos jovens, talvez juventude reprimida seja um dos quadros pintados pelo diretor. Joaquim é um deles, Bryce faz outra (que por ser cega recebe cuidados especiais, mas passa o filme tentando se mostrar independente apesar de sua situação) e temos também o rapaz que faz o trágico e tenso “O Pianista”, Adrien Brody, como um rapaz levemente esquizofrênico, amigo de Dallas. 

Os três são o núcleo principal do filme e passam a demonstrar os resultados das proibições dos mais velhos em alguns momentos. Ressalto duas situações que retratam bem essa situação:

A primeira é onde os jovens (esses são figurantes) estão sobre uma pedra ou um tronco de madeira não importa e ficam de costas para a floresta que faz limite com a vila. A brincadeira deles era a de ficar de costas pelo mais longo tempo possível, ignorando o ambiente atrás deles onde, conforme era sabido pela comunidade, haviam demônios terríveis. 

Após alguns segundos, um dos rapazes desiste e os amigos saem correndo depois de ouvirem alguns barulhos na mata. Depois, no filme, como forma de construir melhor o personagem do “Ikky de” Phoenix, descobrimos, através do relato de Ivy (Bryce Dallas), que ele sustentava o recorde de maior tempo sobre a pedra, de longe superior ao tempo dos outros rapazes. 

A forma como o roteiro mostra esse lado da personalidade do personagem, que o tempo todo permanece oscilando entre o ousado e o submisso, é interessantíssima. A cena dos jovens também mostra uma das poucas formas de rebeldia que essa juventude da vila, comandada pelo medo, tinha para desafiar as tradições do local.

O segundo trecho interessante do filme é em uma parte em que a cega e o pianista vão para um dos extremos da vila brincar. É uma ideia bem errada essa, deixar a cega com o maluco pra caralho, mas eles vão mesmo assim. A vila é um local pacífico, todo mundo vive em harmonia e eles se conhecem, então está tudo nos conformes. 

Enfim, aparece o Phoenix lá para conversar com a cega e eles esquecem o mini-psicopata brincando nos arbustos. Enquanto conversam, o mini-psicopata acha um arbusto com plantas vermelhas, e ele não come, porque esse filme não é Lagoa Azul. Mas entra então outro fator importante, vermelho é uma cor proibida na vila, e brincar com aquelas flores era uma ideia errada. 

A personagem de Dallas também dá a entender que essa é a cor de Phoenix, a aura dele, que ela afirma poder ver apesar de ser cega (é como aquele vidente no mito de Édipo, que era cego mas via o futuro). Aí você pensa: “tá, mas e daí que vermelho é proibido?”, pois fique sabendo que vermelho é a cor dos cramunhão que correm pela vila botando medo em tudo. Vermelho é a cor do inimigo. E tudo que é vermelho é errado. Tanto que na vila as pessoas vestem capaz amarelas (super chique parecer um mini-táxi).

A história segue e agora vamos entrar em alguns spoilers por motivos de força maior. Então siga por sua conta e risco.

Chega um momento em que Phoenix e Dallas se casam ou, ao menos, seus personagens se casam. Mas o Pianista fica revoltado com isso e resolve tirar satisfação da forma mais arcaica que se tem notícia, esfaqueando o coitado do Phoenix enquanto ele está na casa dele, que é a mais distante de todas, sozinho. (A mãe de Phoenix nesse filme é a SiguraoRiver.) 

Isso vem do nada no filme e eu me peguei pensando “que diabos voadores está acontecendo nesse mundo?” quando ocorreu. O personagem do Joaquim fica em coma, sequelado depois de ser deixado sangrando por muito tempo até a Ivy achar ele. Ivy é a Dallas caso tenham se esquecido.

Muito choro e tristeza, a cega insiste em sair da vila na busca por uma cidade que existe, segundo os boatos e as más línguas, do outro lado da floresta e dos cramunhão pesado.

Antes, eu volto a uma cena importante. Tem um momento que tá rolando uma cena num barracão longe da cidade, é casamento de alguém ou algo assim, estão todos felizes até que chega uma/umas pessoa/pessoas afobada/afobadas (eu realmente não me lembro) dizendo que viraram todos os animais do local do avesso. Literalmente do avesso: arrancaram pele e penduraram os bichos todos pela cidade no maior sadismo. “Só podem ser os monstros!”, eu gritei, e vocês deveriam gritar também. Pois é, medo pra caralho. Os bichos estão apelando.

Em outra cena, o Joaquim, que estava de vigia como algumas pessoas ficavam de vigia justamente para esse tipo de ocasião, quase é atacado por um desses e bate o sino pequenino da vila. Todo mundo corre e se esconde enquanto Shayamalan, mais ou menos como fez em Sinais, usa de um terror mais psicológico ao evitar mostrar diretamente os demônios que assolam o lugar com sua presença. É preciso muita reza e a galera no dia seguinte vai pra igreja e debate o que rolou.

Essas são, pelo que me lembro, as cenas mais importantes no que diz respeito aos demônios. E Ivy estava para correr o risco ao enfrentá-los quando decide partir para a cidade em busca de remédios que pudessem salvar seu maridão charmoso todo aberto de facada. 

O pai de Ivy consegue autorização dos anciãos da vila para deixar a menina partir (os anciãos em sua maioria nem eram tão velhos assim), ela pega sua capa amarela, acha que já está indo e aí o Shayamalan faz o que ele faz de melhor (ou pior em alguns casos).

BOOM, PLOT TWIST NA SUA CARA

Nunca foram monstros, os anciãos haviam criado aquilo, junto com umas fantasias charmosas para ninguém pôr defeito, de modo a controlar a galera e levar paz para a vila. Vocês me entendem? Vocês me entendem? Era tudo uma mentira, um plano friamente calculado para inculcar na cabeça das próximas gerações aquele temor e não os deixar sair da vila.

No passado, o avô da Ivy era um cara meio ruim e focado no dinheiro que morreu assassinado numa cidade violenta e deixou o filho bilionário e um tanto traumatizado com a sociedade humana terrível e sangrenta. 

O cara então passou a ir nesses grupos de ajuda e conheceu mais uma galera. Adivinha que galera, vai adivinha... ISSO MESMO, OS ANCIÕES DA VILA. Eles se juntaram e fundaram esse grupo e usaram a grana que tinham para criar aquela sociedade pacífica e utópica com base em preceitos religiosos e medo. Ah, que liberdade, não é mesmo? Sabe quem mais fazia parte dos anciões? Isso, ela mesma, a matadora de aliens, SiguraoRiver, mãe do Joaquim no filme, que se recusava a falar sobre o pai do rapaz com ele por achar tudo muito traumático. 

É de explodir a cabeça, mas enquanto estamos assimilando isso descobrimos outra coisa não muito legal.

Sabe quem mais era parte dos anciões? Os pais do pianista maluco pra caralho. Sabe onde eles escondiam as fantasias de monstro? No piso da sala onde eles castigavam o moleque psicopata deixando-o por dias trancado. É claro que ele descobriu, depois de um tempo, onde estavam as roupas dos cramunhão (porque todo ancião tinha a sua) e começou a usar. 

Também por isso ele era um dos que não tinha medo da cor vermelha nem das criaturas, o rapaz já sabia da verdade! Bem, ele estava trancado no mesmo quarto de novo, depois de esfaquear o Phoenix e revelar no corpo dele a cor proibida... É ISSO MESMO, VERMELHO É PROIBIDO PORQUE É A COR DO SANGUE! (Agora nos parece óbvio, mas é importante ressaltar como essa construção, ainda que jogada em um simbolismo quase de senso comum, se destaca na obra).

Ivy vai atrás do remédio, mini homicida vai atrás da cega perdida na mata. As coisas parecem perdidas, mas a cega dá um jeito e faz o maluco cair em um buraco e morrer. Ela pula uma cerca, acha um guarda da reserva florestal criada no nome da família dela (obrigado, vovô, pelo dinheiro) e com seu charme e beleza, meu Senhor que beleza, ela convence o guarda a roubar uns remédios e ajudar ela.

E O FILME ACABA.

É aqui que eu entro fazendo uma adição depois de dois anos de ter escrito esse artigo. 

O argumento do Shayamalan ao longo de todo filme parece ser um só: conheceis a verdade e a verdade vos libertará. Ou qualquer coisa dessas, devo ter errado as conjugações bíblicas ali. 

O autoritarismo dos anciões contrasta com a rebeldia do personagem de Phoenix, que busca conhecer mais o mundo. É um arquétipo tradicional em que a juventude se opõe ao conservadorismo da geração anterior. Sua mãe, sendo uma das menos radicais entre os anciãos, acaba impondo ao jovem menor temor quanto às tradições.

Simultaneamente, é nesse embate e na perturbação de ordem pública causada por ele que a história parece se mover o tempo todo. Os três personagens principais movem a trama de maneira muito interessante. Enquanto o conflito inicial vem da parte do personagem de Joaquin, que nos apresenta aquele mundo e nos impele a questionar, junto com ele, como as coisas funcionam, é nos personagens de Dallas Howard e Brody que vemos a trama ser concluída.

O personagem de Brody, dentro de suas perturbações pessoais, assume para si o manto de demônio. É ele quem vira os animais do avesso e ataca, sozinho, a cidade. Esse segredo se faz tão importante que começa a atormentar os anciãos, preocupados com o mistério crescente na figura de um agente extra entre eles.

Além disso, o personagem de Brody usa de violência real para causar medo. Ele mata os animais, ataca o personagem de Phoenix e age de maneira furiosa, neurótica. Os anciãos não agiam dessa maneira, preferindo a sugestão e a simulação de um terror maior. As pessoas não viam os monstros e por isso o imaginário popular preenchia as lacunas, gerando ainda mais medo.

A personagem de Dallas Howard, Ivy, amarra a narrativa ao ser o elemento de coesão dentro disso tudo. Por mais que questione, como Joaquin, o faz de maneira indireta. Ela não teme os monstros como todos os outros porque não pode vê-los, mas carrega consigo essa herança social de se recolher como eles. A questão das auras também é relevante, e mostra como ela via em Joaquin um papel importante dentro da vila (o de agente de mudança). 

A vila, de M. Night Shayamalan, trata muito sobre herança cultural e a imposição de medo pela elite, na busca por uma ferramenta de pacificação e controle. É um filme interessante e eu espero que os spoilers não estraguem sua experiência.

Se tiver comentários e quiser debater abaixo, sinta-se livre.

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...