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Uma versão road-trip de Sandman, que também é do Neil Gaiman (eu nunca vou parar de falar dele?). Deuses Americanos virou série, virou música nas mãos do RT Mallone e vai virar muitas coisas mais.
Afinal de contas, quando Neil Gaiman fala de deuses e criaturas mágicas, ele está extrapolando para falar da gente. Por via de regra, maquiar uma realidade é sempre mais fácil para falar de assuntos polêmicos (veja o sucesso de Bojack Horseman, por exemplo).
Em Deuses Americanos, longe de usar animais e falar de problemas sociais, Gaiman usa deuses e fala de cultura numa sociedade extremamente xenofóbica e composta quase exclusivamente por imigrantes (porque os indígenas norte-americanos foram massacrados e praticamente apagados do cenário cultural estadunidense).
Na verdade, a questão da religião per se é muito conveniente num EUA em que a intolerância religiosa cresce cada vez mais, criando um estado extremamente conservador e cristão, mas sustentado por inúmeras crenças de inúmeros povos imigrantes que foram até lá buscando melhores condições de vida.
Deuses Americanos é a história de um homem se encontrando. E a gente segue essa sombra, o Shadow, literalmente, ao longo da história, enquanto a passividade dele é motivo principal dos problemas que possui.
Há uma guerra rolando entre os deuses e tudo que Shadow consegue fazer é ir de um lado para o outro e fazer o que mandam. É só no momento mais decisivo que ele muda suas atitudes e faz algo.
E, falando em mudanças… tá aí a dica de escrita da vez:
Como Deuses Americanos trabalha a construção de personagem
Por via de regra, seu personagem principal tem que passar por uma transformação pessoal ao longo da história. Ele precisa ser e acreditar em algo, pôr essa crença em cheque, vê-la desabar e em seguida reconstruir um sentido. É preciso que ao final da jornada ele tenha mudado. Isso é o básico de qualquer narrativa decente.
O grande dilema do Shadow é justamente a passividade com que ele encara a vida, e o nome é de propósito: o sujeito é uma sombra daqueles que tomam as decisões pela sua vida, a ex-esposa, Wednesday, Anúbis etc.
Okay, e como aplicar isso na sua narrativa? Comece pelo fundamento base das crenças do seu personagem: qual a característica mais essencial que ele terá? É isso que vai ser combatido e apresentado ao longo de toda a história.
Vontade e fé são dois temas fundamentais na narrativa. RT Mallone sintetiza isso bem em sua música Deuses ao falar "Deuses só são reais se você acredita neles". Uma maneira genial, inclusive, de tratar a depressão como tema em um som.
No caso de Shadow, a falta de vontade e a falta de fé são aspectos relevantes. Ele não tem interesse próprio, ele não acredita em si ou no mundo. A passividade é seu vício como protagonista e é ela que Shadow precisa superar se quiser sobreviver àquele mundo.A todo momento, o sujeito é confrontado por deuses e criaturas que entendem seus papéis. Eles são limitados pela crença que os forma, mas tomam isso como conforto: sabendo o que são podem lutar para manter essa identidade. É na transformação dos valores da sociedade norte-americana que são destituídos de seus papéis e precisam se adaptar ou morrer.
Simultaneamente, é na desconstrução da própria psique, da própria vida, que Shadow precisa escolher entre se adaptar ou morrer, em um momento catártico muito interessante.
Se ainda não leu ou viu Deuses Americanos, recomendo fortemente.