Pular para o conteúdo principal

Como escrever um livro #8: Como escrever uma comédia

Ser engraçado na literatura é ser inteligente. Piadas de tiozão não passarão. Conheça mais sobre o Douglas Adams e como ele revolucionou a ficção científica com o humor. Saiba um pouco mais sobre como escrever um livro de comédia.

O que é graça?

Essa é uma questão extremamente subjetiva, mas válida na mesma proporção. Definir humor é diferente de definir o que é engraçado. 

Isso porque a percepção da graça se difere culturalmente pelas referências e pela construção dos elementos em cima dessas referências. É por isso que ingleses são tidos como mestres do humor “inteligente”, alemães não têm senso de humor e estadunidenses fazem piadas idiotas.

Não que esses preceitos sejam verdadeiros, mas eles revelam algo sobre como percebemos o humor em outros lugares, como percebemos suas culturas. 

A Inglaterra é tida como expoente intelectual, especialmente pelo seu papel imperialista influenciando essa visão nas colônias. 

Os EUA são tidos como um país rico, mas culturalmente desfavorecido por uma cultura de massas plástica e descartável decorrente de inúmeros fatores, entre eles o conservadorismo extremo na educação de base.

Os alemães, bem, o século XX não foi o momento mais engraçado para eles, ou para o resto do mundo.

Culturalmente, a graça varia. E o humor?

O que é humor?

No contexto da comédia, é o ato de fazer rir. Mas o que faz rir? E é necessário ser engraçado para ser humor? 

De acordo com Aristóteles, a comédia era o ato de utilizar das fraquezas humanas como forma de criar um paralelo, extrapolando a realidade e revelando nossas falhas de uma maneira que estivesse além. Os erros eram engraçados. 

Atualmente, existem várias versões sobre o que faz rir uma pessoa, mas eu gosto da abordagem de que o humor nasce da quebra de expectativas. 

O que isso quer dizer? Que a graça é justamente quando algo começa de uma forma e termina de outra, seja essa outra forma desconexa, absurda ou só diferente das expectativas do ouvinte/leitor/público. 

É um tanto por isso que a percepção individual de humor varia, pois as referências pessoais que criam as expectativas em cima do discurso são distintas entre si. E é papel de quem faz comédia, seja ela na literatura, no stand up ou de outra forma qualquer, encontrar uma maneira universal de fazer rir. 

Ainda seguindo essa teoria, é muito por isso que filmes com comédia física, como os do Charles Chaplin, Jerry Lewis e Jim Carrey, são praticamente universais. Eles apelam para um sentimento extremamente visual de humor, e todos os três fazem isso de maneira incrível. 

Como escrever comédia na literatura?

Não dá para viver de piadas em um livro, se o que você quer é fazer o leitor rir. E boas comédias na literatura fazem rir sem precisar contar uma piada (no formato "O que é o que é..."). Os dois livros que usarei como referência mais abaixo, O Guia do Mochileiro das Galáxias e Belas Maldições, me fizeram rir alto sem precisar disso. 

Mas como?

Tem um excelente vídeo do Nerdwritter sobre como o Louis C.K, que os céus tenham sua carreira e seu bom senso (que já morreu faz tempo), conta uma piada. 

Basicamente, ele pega uma situação e extrapola ela, levando ao absurdo, esticando e empurrando até um limite em que aquilo sai do que é aceitável, do que é normal, ao que é engraçado porque não esperávamos. 

O Dave Chapelle faz isso bastante em seus stand ups também. Suas histórias se esticam por minutos e minutos enquanto ele cria situações cada vez mais exageradas, que nos fazem rir. 

Antes dele, Richard Prior. No especial que, até essa data de publicação, está na Netflix, uma das piadas mais engraçadas é sobre como Richard descobre que seu macaco de estimação morreu e conversa com um cachorro. 

Vamos aos exemplos. 

No livro Belas Maldições, o primeiro capítulo, escrito por Neil Gaiman, fala sobre como o nascimento do Anticristo é repleto de desencontros, e uma troca de bebês que deveria ser relativamente simples acaba se tornando uma confusão generalizada onde o Causador do Apocalipse é deixado com uma família comum e outra criança é tomada como o Portador do Fim do Mundo. 

A minha descrição em si é terrível, por isso eu recomendo que leia o capítulo (ou veja a série na Amazon Prime, comandada pelo próprio Gaiman, de quem já falei aqui várias vezes). 

Outro exemplo?

O Guia do Mochileiro das Galáxias é, para mim, uma das obras mais importantes da ficção científica do século passado. E eu sei que isso pode soar um pouco exagerado, mas a verdade é que Douglas Adams é capaz de trazer uma nova abordagem a um tema que, naquele período, estava já um tanto saturado. 

Veja bem, o primeiro período de produção de ficção científica, historicamente está relacionado à virada do século XIX para o século XX, onde a humanidade encarava a ciência como o progresso e o progresso como inevitável. As primeiras histórias eram utópicas, falavam de um futuro glorioso que deveríamos proteger. 

Mas as coisas deram erradas e os alemães perderam seu senso de humor nas duas guerras mundiais. 

Depois disso, e com a situação se mostrando cada vez mais desesperançosa, as histórias de ficção científica tomaram um tom catastrófico. Passaram-se a contar distopias. O futuro deveria ser evitado a qualquer custo. 

Quando Adams pega para avaliar a situação, ele reconfigura as críticas das distopias em um modelo onde o humor é peça central para a construção de um discurso, seja ele qual for. 

Das críticas à burocracia através dos Vogons, criaturas horrendas, cruéis, lentas e sem senso para a arte que tratam de arruinar tudo no universo com sua falta estética e diversão à questão de quem controla a galáxia, qual a resposta para a vida, o Universo e tudo mais, e qual a última mensagem de Deus para a humanidade. 

Tudo é tratado por Douglas de uma maneira incrível, e transforma uma narrativa de aventura espacial em absurdos como cair ser simplesmente errar o chão, uma festa que dura para sempre, fábricas de planetas e ratos serem a espécie mais inteligente da Terra, em algo fundamentalmente engraçado. 

A melhor dica que posso deixar nesse texto talvez seja, não conte piadas, conte histórias que, de tão absurdas, se tornam engraçadas. 

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...